quinta-feira, 16 de junho de 2011

Tráfego

Ainda é cedo.

Tão cedo que o Sol me fere a vista e sinto exalar-se-me uma poeira como se a manhã quisesse esfumar o que resta do meu sangue de morcego. Só nesta altura do ano ainda é de dia a esta hora. Já vejo tanto disparate; percorro a distância até ao outro bloco onde tinha deixado o automóvel. Não preciso de ir tão longe para ouvir os berros daquela que grita todos os dias e horas com a sua prole, não sei como os vizinhos a aguentam, ouço-lhe claramente os despautérios e ainda não lhe consigo tirar a limpo as feições para, se me encontrasse com ela noutra rua, mudar de passeio ou de caminho. Talvez seja a vista que está também a amorcegar, qualquer dia só me guio pelos sons; terá de bastar. Ah, ei-la; agarra o gaiato por um braço enquanto as palavras matraqueiam a cabeça do infante e os meus ouvidos, que de repente, pela hora, ganharam superpoderes. Em horas normais já não destrinço com nitidez o que me dizem; principalmente se não me convém. Umas coisas ficam-se antes dos ouvidos, outras não atingem a ideia; isto sim que é da idade.

Rodo a chave, pega, tenho de contornar o condutor que está parado frente a um lugar vago no estacionamento, mas que teima em ocupar a faixa de rodagem, imóvel, mas principalmente inamovível. Não me vê. O olhar sonda-lhe o infinito, talvez com a mesma dificuldade que eu sinto, dou-lhe o benefício da morceguidade e sigo. Não vou dizer que era uma senhora, seria impróprio. A mesma impropriedade que seria dizer que os fulanos que me assaltaram de novo o covil ontem, como há oito meses, eram marcianos. Ficava-me mal. Afinal eu sou morcego e não quero que me descriminem por isso. Se fosse um homem eu teria tido, contra todas as probabilidades, uma piadola a preceito; arriscando um par de murros que me deixasse os dois olhos negros. A esta hora também pouca falta me fariam, continuo ligado ao sonar. Assim, não digo nada. Sigo, a pensar nos marcianos de ontem. Apanharam um com as mãos na massa. Perguntaram-me se me faltava muita massa mas, do pouco que havia antes, já tinham levado quase tudo da outra vez. Desta reforçaram a ideia, com consequente menos proveito. Não quero mal à Márcia por isso, que culpa tem ela do destino destes seus marcianos? Continuo em voo rasante; a esta hora só consigo voar baixinho. Já se me atravessaram três no caminho, subtraindo a minha prioridade. Estes eram todos homens, mas também não vou dizer isso; devia antes fazer como nas notícias, inventar todos os detalhes e deixar a certeza dos sujeitos todos pelo indefinido: condutores. Outra vez, não digo nada. Mas isso fazia-os todos homens, e alguns bem sei que são ratos. A prioridade é assim como a minha rua, tão minha que nem lugar para estacionar me deixam. Morcego como sou penduro-me das árvores; deve ser o que eles pensam, com razão.

Tenho pressa. Para me levantar a esta hora, tenho mesmo muita pressa. Só o dever me impele a sair da toca tão cedo, principalmente depois do dia de ontem em contacto com o lado negro da força. Que me levantasse mais cedo? Isso aumentaria a injustiça da coisa! Amarelo, prego a fundo. Morre-se na estrada... Não falo de sinistralidade, falo dos que se levantam cedo e empastelam a paisagem num marasmo atroz, se tivessem de voar como eu caíam da terra abaixo, sem potência que os levantasse. Sai! Sai! Tenho pressa! Na verdade voo sempre em silêncio, imperceptível. Já me esqueci da última vez que usei uma buzina em desespero ou esbracejei com alguém, já não tenho idade para andar por aí com dois olhos negros trocados pela razão que os justificassem. Amarelo, prego a fundo; que também temos todos os defeitos dos marcianos e mais esse, nós os morcegos que voam de manhã cedo, baixinho e com pressa. Olho os galos da alvorada, debicando aqui e ali sem destino certo. Odeio-os por um instante e descomprimo num sopro, como se quisesse fazer esvoaçar aquela alma inocente que estacou à minha frente para deixar passar um peão fora da passadeira; há tempo para a simpatia, entre os humanos. Eu sou um morcego, com muita vontade de cumprir e voltar à toca. Tenho pressa. Verde, e o velocímetro a trinta... Três carros à minha frente, quase que dava para tentar o salto. Chamavam-me doido. Nunca me compreendem, fico-me. No retrovisor dois olhos injectados de sangue, os meus, quase cegos pela luz. As poucas horas dormidas não completaram a metamorfose, ainda sou meia crisálida. Vermelho, paro outra vez. Numa cidade grande já tinha saído do carro e rebentado os miolos em vermelho; em silêncio, sem gesticular como sempre faço. Aqui fico-me, outra vez.

Um passo solto para a esquerda aflora a passadeira de costas para mim no exacto momento em que vou a passar; não me poupa ao "cabrão"; fico-me outra vez, a pensar que deveriam também os peões ter cornos com piscas, como hipotéticos marcianos, facilitava e poupava-me à injúria de me magoarem por eventuais ofensas de quem me atura; injustiças...

Os morcegos não voam a esta hora, sou um estranho no meio do mundo que não entendo. No meu mundo o normal parece ser tudo ao contrário, com a terra por cima e o céu, negro, por baixo. Ninguém me convence que a normalidade não é com a terra por cima... Por agora quero virar para a esquerda e todas as setas apontam para a direita, não conheço quem as pôs, só a simbologia, que agora me obriga como a todos os humanos a viver com a terra por baixo, a ampará-los como os vasos às plantas. Isso não pode ser normal.

Se eles tivessem o gosto que tenho por se pendurarem duma árvore até que a noite viesse e pudessem voar, teriam pressa, daquela de ver mais mundo antes de ficarem com a terra por cima. Mas aqui e agora ninguém voa. Só eu, baixinho ainda, sempre em silêncio e sem que ninguém veja:

Amarelo, prego a fundo. Falta-me percurso para completar a metamorfose.


© CybeRider - 2011