terça-feira, 9 de março de 2021

O GATO

in memoriam, 28/8/1934 - 15/11/2019


A minha mãe tinha um gato.

Era um gato especial porque lhe fora oferecido. Eu nunca tinha visto um gato oferecido que não fosse de loiça. Este era de carne e osso. Igual a qualquer outro naquela sua individualidade. Os gatos são individualmente iguais a quaisquer outros, como nós, afinal. Para a minha mãe, eu e o gato, éramos também iguais a quaisquer outros, filhos ou gatos, que pudesse ter tido. E ela nunca teve outro filho, mas gatos teve muitos. Amou-nos a todos à sua maneira, tal como a amámos a ela, à nossa.

Um dia ligou-me muito aflita porque lhe morrera a gata que lhe sobrara. E ela tivera muitas, até ter ficado para sempre sozinha com aquela. Restara-lhe do companheiro com quem vivera, derradeiramente, dez anos. Antes tinham tido em coabitação vários gatos, mas ele morreu-lhe à mesa da sala de jantar e ela ficou só, com a gata. Quando ele morreu não foi a minha mãe que me ligou, foi uma amiga. Ouvi-a em fundo, dolorosamente em pranto, à medida que a amiga me ia relatando como os serviços de emergência médica não o tinham podido salvar. Caíra fulminado, e ali ficou, estendido no tapete, durante horas. Arrepiou-me.

Quando a gata morreu, de velhinha, fui eu que lhe acudi a tantos quilómetros de distância. Só acudimos aos vivos, por isso não deve gerar confusão que a frase seja acerca dela, da minha única mãe. Foi a amiga do relato quem lhe ofereceu o gato. Quem, em seu perfeito juízo, oferece um gato quase novo, para sempre, a uma senhora idosa que mal dá conta de si? Uma amiga, claro.

A minha mãe ficou só, com o gato. O único filho partira para sempre de casa há mais de trinta anos e vivia a muitos quilómetros, sem lhe poder acudir.

Quando a minha mãe morreu, de velhinha, fui eu que lhe acudi. Só acudimos aos vivos, por isso não deve gerar confusão que a frase seja acerca dele, do gato. Quando nos vimos não sabíamos que iriamos ter de ficar um com o outro, para sempre. Eu era alérgico a gatos e ele, calculo, que não soubesse se seria alérgico a mim. Para ele, ela saiu e voltei eu, que ele nunca vira. Para mim, ela saiu e voltei eu, que nunca o tinha visto.

Agora tenho um gato, mas a minha mãe, que me teve mas que já quase não me tinha, não tenho eu. Fiquei assim orfão para sempre, já quase velhinho. É natural que nem o gato nem eu fiquemos um com o outro por mais outra metade de uma vida, da minha se tivermos muito tempo, da dele se a ceifeira vier com mais pressa para levar um ou outro. Mas ficaremos juntos para sempre, assim como mães e filhos se têm, ainda que à distância de muitos quilómetros.

Como é efémero o sempre, tal qual o ter das coisas.


© CybeRider 2021

segunda-feira, 1 de março de 2021

M U R R A Ç A

O tema da violência doméstica que tem vindo a ser debatido com frequência nos media quase diariamente traz-me a este raciocínio pelo facto de não conseguir encontrar um paralelismo entre os profundos e fecundos debates, discursos e campanhas, e a necessária execução de medidas preventivas por parte das entidades competentes pela sua tutela. Vivemos há muitos anos numa sociedade que se quer do primeiro mundo, num estado de direito que deve zelar primeiro pelos direitos e garantias fundamentais dos seus cidadãos e só depois por quaisquer outros interesses que se justifiquem de relevo para uma putativa imagem internacional.

As queixas de violência doméstica apresentadas às autoridades nacionais rondam as trinta mil por ano, com um número sempre determinado mas potencialmente imprevisível de vítimas mortais. As sequelas psicológicas e sociais são, muitas vezes, irreversíveis.   

O confinamento, que tem sido apontado como causa de incremento da violência familiar, inclusivamente pela Senhora Ministra da Justiça, recentemente, nos meios de difusão correntes, não justifica a enérgica contemplação nem a violenta ataraxia com que permitimos que este flagelo se mantenha. Algo tem de ser feito e podemos começar por coisas muito elementares.

Não passo de mero espectador neste cenário dantesco, mas recordo a retirada dos anúncios do tabaco e das bebidas brancas dos ecrãs dos canais generalistas, sob o pretexto de que matavam enquanto por outro lado vejo manter os anúncios de várias novelas que, não seguindo, incomodam nos momentos em que, pelo meio de tanta publicidade que chego a esquecer que programa estava a ver, sou confrontado com a gritaria e cenas de pugilato com que se procura recordar mais um episódio de cada uma dessas historietas de faca e alguidar aos seus estimados consumidores.

Repugna a hipocrisia com que se deixa passar este triste circunstancialismo, seja a que horas for e sem respeito nem pelo escalão etário do telespectador, nem pelos princípios fundamentais de civilidade e dos mais elementares valores que deveriam enformar a nossa sociedade. É uma vergonha!

Já nem discuto a natureza dos programas em si mas refiro que, a ser tal que outros exemplos não haja para propagandear a sua difusão que não seja sempre a gritaria, a choradeira, o sopapo ou o estrangulamento e a facada, então estamos muito mal. Não creio que seja um retrato digno da sociedade portuguesa, mas creio que é a imagem que se vai interiorizando nos recantos ínfimos da mente humana, e assim envenenando o que pretendemos preservar, ao ponto de se acreditar que essa é a via de resolução normal de todos e quaisquer problemas. A permissibilidade deste triste espectáculo num dos principais observatórios da realidade social, ainda que de forma pontual, ou talvez até por isso mesmo, é de uma tremenda irresponsabilidade.

De nada servem as mesas redondas e os belos discursos enfatuados, de causar brilharete, quando se permite nas representações do real tudo aquilo que caracteriza as vilezas do mais confrangedor terceiro-mundismo. Antes de vítimas da violência no seio familiar, são-no de quem permite que estas práticas e costumes se exemplifiquem continuadamente no dia-a-dia sem restrições.

Deixo a ideia, à reflexão de quem saiba ou possa actuar. Pelo meio de tanta entidade preocupada não encontrei ainda a forma nem o meio de fazer chegar a quem de direito a minha opinião mas vou continuar, pela minha sanidade mental, a procurar. 


© CybeRider 2021

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Anamnese decadente


As memórias são como convivas duma festa.

Das pessoas, umas, depois do convívio, aparecem de mão estendida ou dão-me dois beijos na cara, outras partem sem um adeus. Muitas, voltei a vê-las, visitei algumas, outras visitaram-me, outras gostaria de ter visitado ou que me tivessem visitado a mim. Algumas queria não ter voltado a ver, mas voltei. Outras não vi nunca mais.

Exactamente como as memórias. Calculo que cá por dentro andem em festa, as boas e as más, numa frenética orgia indecente. Algumas aparecem e dizem-me que estão prestes a partir, estendo-lhes a mão ou dou-lhes dois beijos na cara, e vão-se. Outras digo-lhes que fiquem, que tomem outro copo; pretexto para encher o meu e beber pelos dois. Depois vão-se e eu fico, a derreter o gelo do copo, com o coração mais quente, ou por vezes mais apertado. Às vezes fico a pensar nelas, se não seria melhor deixar de persegui-las, deixá-las morrer em paz.

Que a partida das memórias é pior que a partida das pessoas de uma festa. As memórias, quando partem de nós, morrem de vez.

Ainda que venham despedir-se, algumas ficam ali pelo jardim, escondidas num arbusto qualquer à espera que me esqueça eu delas, antes de serem elas a esquecer-se de mim. Mas já vi partir algumas que não voltaram. As que me esquecem deixam mágoa, mas das que me esqueço não me lembro.

São feitas de muitas coisas, umas de acontecimentos, outras de rostos e dentes e unhas, pernas e saltos-altos, bengalas e monóculos, ou óculos e expressões. De quantos decotes já me esqueci?... Memoráveis, partiram; sem aviso, sem um adeus, sem dois beijos na cara. Estranho que as refira porque não me recordo delas e no entanto sei que existiram e que as mantive por algum tempo, mas não sei como posso afirmar isto se me morreram de vez. Lábios carnudos, mãos doces e ásperas, algumas a magoar-me os ossos outras prestes ao fanico, queixos enrugados, cabelos longos a esconder formas sedutoras, olhos azuis, castanhos, verdes, negros, vermelhos também, podia jurar que vermelhos também, uns abertos de espanto, outros semicerrados de dúvida, outros de dó, indecentes, uns fechados de riso, outros a afogar-se em lágrimas, umas poucas de alegria mas tantas de tristeza, corpos disformes a ameaçar-me pesadelos, desdentados, implorantes, vozes.

Vozes… e palavras, algumas ameaçam voltar para me assombrar os sonhos. Temo que algumas possam vir sussurrar por detrás de alguma porta. Nesse dia talvez não passe eu de uma simples memória de mim.

As memórias não envelhecem, vão-se dissipando, tornam-se de vívidas a translúcidas sempre com a idade que tinham quando lhes peguei ao colo e se me agarraram ao pescoço, que é sempre assim que se entranham, pelo coração, nunca pela cabeça.

Há as mais negras, tétricas, de sangue e morte. Ali embrulhadas umas naqueloutras mas estas, quando aparecem, vêm sempre sós e avassaladoras. Algumas não vêm para se despedir. Aparecem para me afirmar que ali estarão por mim, de pedra e cal, como algumas pessoas. Garantem que nunca partirão até ao fim dos meus dias, quer eu queira quer não. Curiosamente, no caso das memórias, nem sempre são as que quero que me visitam com esta garantia, são as outras, sempre sarcásticas e traumáticas. Por mais que lhes grite: ide-vos! Ali ficam a atormentar-me, um dia após outro, até que se escondem num qualquer arbusto do jardim. E posso pensar que partiram, mas sei que acabarão por voltar, dessas nem eu me esqueço, nem elas de mim. Quase poderia jurar que quando voltam se avivam, mas sei que sou eu que as agiganto, sem dar por isso faço-as crescer ao meu tamanho, depois espero pelos dois beijos na cara, mas dão-me um soco e derrubam-me. Fico para ali caído a esbracejar ou agarrado às tripas a tentar fazer delas coração. E quanto mais coração, mais lembranças a saltar-me ao pescoço.

Já não sei se as memórias são pessoas ou se as pessoas não passam afinal de memórias que, a mal ou bem, passam pela festa e, umas de mão estendida outras com dois beijos na cara, ou não, desaparecem um dia misteriosamente e sem rasto.

E as de mim?

Há sempre um sabor agridoce, que sinto, em cada memória de mim.

© CybeRider 2015

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O retorno do Messias


Quando voltou, quase dois mil anos depois da primeira vez, já não se lembrava de quem tinha sido. Veio em carne, de uma mãe e de um pai. Não trazia planos escritos nem instruções programadas. Voltou para alertar as gentes de que nunca haveria um deus que lhes perdoasse os pecados. Ele jamais o faria.

Cedo, para se integrar na espécie, se alimentou dos animais que amou e das plantas, como qualquer humano comum. Não trouxe sinais distintivos nem nome que o identificasse. Não foi especial, porque veio sozinho sem pretensões de comando. Desde tenra idade conheceu a paixão e viu que isso era bom.

Aprendeu a comunicar com uma linguagem que nunca conheceu completamente em nenhuma das suas variantes. Nenhuma correspondia totalmente à que tinha em si, por isso a sua tarefa seria tão mais árdua. Também cedo compreendeu que tudo o que dispunha era de uma parca e vulnerável humanidade. A única diferença que trouxe dos outros mortais foi a sua própria individualidade. Tentou confirmar se outros teriam uma, em muitos casos chegou a pensar que não.

Com tão poucos poderes nunca reconheceu ter salvado alguém, nem permitiu que alguém se recordasse de por ele ter sido salvo. Não pôde por isso curar os doentes, nem dar a conhecer que tivesse alguma vez semeado o bem à sua volta. Chorou muitas vezes sozinho perante as suas incapacidades; nas poucas em que se permitiu fazê-lo em público foi por coisas triviais. Nunca contou ao mundo que aquilo a que chamam galáxias são o imenso público que, sem crítica, pena ou aplauso por qualquer hipotética glória, assiste ao improviso que decorre neste pequeno palco esférico e azul.

Não trazia consigo promessas de imortalidade ou de paz porque não eram sua intenção. Para os compreender cometeu heresias contra si e contra os falsos deuses panfletários, os únicos propalados, e também algumas pequenas violações às leis dos homens, talvez, que são complexas as leis dos homens. Acabou por se tornar quase tão humano como eles. O mal e o bem, por conceitos terrenos já muito debatidos, não lhe ocupavam de sobremaneira o pensamento, aprendeu-os à laia humana de forma a praticá-los ou evitá-los como era corrente ver fazer. Tentou sempre evitar acto que envergonhasse eternamente a humanidade pois que esta lhe pertencia. Cumpriu este desígnio com determinação apesar de constatar que os seus, agora congéneres, não tinham muitas vezes esse cuidado.

Cedo também comprovou a falibilidade das suas forças. Repudiado desde criança por não ser um ás nos desportos, e por padecer das doenças comuns dos mortais pela natureza que o trouxe, nunca esperou reconhecimento nem pediu lições ou directivas aos céus, porque o único pai que teve era de carne e osso.

A primeira recordação que tinha da frágil compleição da sua estrutura física para cumprir os desígnios da sua mente, aconteceu por volta dos seus catorze anos. A necessidade do relato seguinte justifica-se por ter sido um marco que o acompanhou toda a vida e que lhe ensinou o arrependimento:

Por essa altura já ele amara platonicamente outras crianças como ele, sem que alguma vez o tivesse expressado ou tivesse sido correspondido. Amélia era uma criança doce, pacata e de trato fácil, vestia de forma convencional e a sua voz, maviosa e segura, contrastava com o semblante tímido injustificado, por ser dona de uma beleza invulgar. Ela teria a idade dele num corpo de mulher feita. Ele sempre se furtara a perceber a maneira carinhosa com que aqueles belos olhos negros o envolviam, assim como o sorriso especial que ela lhe dedicava quando por vezes lhe dirigia algumas palavras tímidas. Um dia porém, encontrava-se ela na presença de outras amigas, por alturas do intervalo das práticas mundanas do templo, numa sala apinhada de outros praticantes como eles, quando ele ia a passar por Amélia ela sorriu-lhe daquela maneira singular à qual ele correspondia, mais por simpatia que por interesse. Num gesto arrojado que Amélia terá forçado contra a sua habitual sobriedade, ela resolveu em tom de brincadeira, e talvez para criar entre ambos um efeito de proximidade, atingi-lo com um pontapé no traseiro. Perante o gesto imprevisível, a reacção dele, impulsionada pela presença da vasta audiência, foi explosiva. Ao ver que o seu braço se libertara, tentou sem sucesso conter o movimento elástico com que a sua mão, para seu desespero, se abateu na face da única criança que declaradamente até então o amara, como só naquele instante ele percebeu, sem ter alguma vez sido correspondida. Pesaram-lhe para sempre as lágrimas que de imediato brotaram dos olhos de Amélia, mais pelo sabor amargo da injustiça que da dor, bem como a memória da sensação gélida que subitamente lhe acometeu o peito. Quedaram-se alguns segundos em silêncio, olhos nos olhos, e nunca voltaram a trocar uma palavra desde aí.

Foi também por essa altura que confessou a seu pai o desprezo que trazia pelos bens materiais, sem que alguma vez aquele tivesse compreendido a sua atitude. Essa posição, que lamentou algumas vezes por tudo o que o impediu de fazer pelos seus poucos discípulos, levou-o a um destino por vezes frugal que acentuou a forma imperceptível como passou pela humanidade. Desde o início compreendeu que a sua vinda fora de novo um infeliz desperdício, perante a ignomínia que encontrou e a incapacidade de meios para propagar a sua doutrina.

E foi por isso que na fase inicial da sua adolescência conheceu o ódio, ao culpar pai e mãe pelo seu regresso, que invariavelmente lhe custaria a morte física, que olhava como qualquer humano com respeito, por constituir o limite derradeiro desta sua nova acção no mundo. Aprendeu a seu tempo a amadurecer as emoções. Compreendeu por fim que os seus pais carnais, meros receptáculos do poder divino, pouco tinham afinal a ver com o seu aparecimento de cuja culpa era ele o único titular.

Anos mais tarde, numa experimentação singular, resolveu unir a sua à vida de uma mulher, limitando desta forma a vida de alguém terreno à pouca exuberância da sua de natureza sobre-humana. Conseguiu, entre outros, o milagre de que ela nunca o culpasse por isso. Cedeu a vícios dos comuns mortais, mais em desafio à vida que pelo desconhecimento de malefícios. Desta forma estabeleceu os seus próprios limites aos excessos por ter verificado que as diversas formas de prazer rapidamente o seduziam.

Dos outros milagres que realizou, há relato de ter deixado um descendente, fruto de ter conhecido em sentido bíblico, para compreensão do conceito. Por uma ocasião terá transformado o vinho em água.

O estranho episódio carece de explanação mais cuidada. Tenhamos em mente que as crenças dos homens, têm como cânone de pureza divina o exemplo de um acólito, versado em empirismos e presente na terra em momento simultâneo à sua primeira estada, que teria em dada ocasião transformado água em vinho; acto reprovável, conhecidos que são os efeitos que as drogas produzem na mente humana, levando os sujeitos aos actos mais tresloucados.

O milagre que se relata aconteceu por volta dos seus cinquenta e três anos de idade e não teve testemunhas conscientes que o possam comprovar. Por ocasião de um farto banquete que um seu discípulo se propôs ofertar-lhe, que consistiu em três travessas de enguias fritas, uma de choquinhos, acompanhadas de outras duas de batatas fritas e uma de salada, tudo isto para duas pessoas, quis a má sorte que ao servir a última das cinco garrafas de vinho, quatro de verde e uma de tinto, o precioso líquido sanguíneo tenha gotejado em abundância nas suas calças. Perante o riso do discípulo e do dono da casa de pasto que chegou a referir que o discípulo teria de ressarcir pela peça estragada, ele, ciente do mau agouro que aquele facto lhe traria ao ambiente doméstico, terá passado os dedos sobre as nódoas sem que um ou outro dos presentes notasse, tendo-as feito milagrosamente desaparecer. Pelo que se diz não há testemunha que o ateste, sendo que as calças, que ainda existem, facilmente o comprovam.

Consta que deixou pequenos e esparsos relatos escritos ao longo da sua existência, que muito poucos leram e menos criticaram, desconhecendo-se o actual paradeiro destes valiosos documentos. Sabe-se que num neles afirmava que perante o niilismo pandémico que grassa na mente humana não lhe restará outra solução que não seja regressar dentro de dois mil anos, já que tal como da primeira vez, quando foi confundido com o outro que lhe roubou todo o protagonismo, também esta tentativa foi um rotundo insucesso.

Do seu destino sabe-se muito pouco, não sendo descabido afirmar que possa ainda vaguear entre nós.



© CybeRider 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Espelho d'alma

Por duas vezes, duas, no espaço de um mês, sou confrontado com um maluco a atravessar a passadeira no momento em que o semáforo abre para mim, nem o mesmo maluco, nem a mesma passadeira, na minha cidade. Por duas vezes, duas, fico parado à espera que cada maluco atravesse. Tenho pressa, a vida é muito curta e sei que o tempo se pode acabar aqui, por isso ninguém tem, ninguém pode ter, mais pressa que eu, só deus se quiser salvar uma vida, matar um leproso ou um órfão faminto, por compaixão. Penso que podia ser eu um daqueles malucos se ficar um bocadinho, só um bocadinho, mais maluco, talvez já ali à frente, no próximo cruzamento que tenha um semáforo, não o mesmo, outro, que aquele já está ocupado por deus que me espera. Se me demorar mais um pouco encontro-o, ou ele a mim. Sei que, se me demorar mais um segundo morro, aposto que morro. O outro maluco babava, arrastava os pés, inclinado para a frente num ângulo impossível, o olhar vazio em frente, não me viu. Este desenhava corações no ar, enquanto falava com os pássaros numa linguagem que só eles entendiam, olhou-me como se eu fosse um pássaro, mas não falou para mim. Voei pela janela e peguei-lhe numa mão, para que andasse mais depressa puxei-o com força, antes que as forças me faltassem e desfalecesse. Deus. ao fundo, gritava-me que não o puxasse, que me castigaria matando dois pássaros. Por duas vezes, duas, o motorista atrás de mim, nem sempre o mesmo, e verifiquei bem que não era o mesmo, que ainda me lembro bem do outro, tanto quanto me lembro bem deste, buzina e dirige-me impropérios, nem sempre os mesmos... Não temo mafarricos, pois se só deus tem o poder de matar os pássaros. Ainda tenho calma, nem sempre a mesma, mas ainda tenho esse nível de maluquice. De cada vez acabo por avançar, depois de cada maluco a salvo, e fico a pensar que afinal o maluco sou eu, talvez nem sempre o mesmo, mas sou eu decerto. Naquele minuto precioso fico mais perto do próximo semáforo, onde deus me aguarda em silêncio. O semáforo está vermelho, paro. Ele continua ali de pé. Só eu o vejo, porque sei que ali está por mim. Olha-me como se eu fosse um pássaro e por momentos fico curioso em ouvir as batidas do meu coração, não ouço. Talvez tenha ficado lá atrás, transplantado no último mafarrico, que falta lhe teria feito poder ter o meu coração. Quis ali e além ser um polícia, cheio de galões e medalhas, e ter um cassetete de borracha muito longo e um outro de aço, mais curto, para que todas as minhas crianças e as deles me vissem ali e além ganhar o próximo semáforo, logo ali à frente. Mas não sou e o meu coração não o ofereço sem que me dêem provas de que o merecem. O semáforo abre e Ele começa a atravessar pela passadeira. Sou o primeiro da fila. Carrego no acelerador a fundo e passo-Lhe por cima, ainda motivado pelo som estridente da última buzina e pela memória da outra, e com todos os impropérios ainda presentes. Presto assim um serviço à humanidade, para consolo de todos os que me seguiam na fila. Foi esse o último dia em que alguém morreu na terra.

© CybeRider 2015

Espelho d'aço

Por duas vezes, duas, no espaço de um mês, sou confrontado com um maluco a atravessar a passadeira no momento em que o semáforo abre para mim, nem o mesmo maluco, nem a mesma passadeira, na minha cidade. Por duas vezes, duas, fico parado à espera que cada maluco atravesse. Tenho pressa, a vida é muito curta e sei que o tempo se pode acabar aqui. Penso que podia ser eu um daqueles malucos se ficar um bocadinho, só um bocadinho, mais maluco, talvez já ali à frente, no próximo cruzamento que tenha um semáforo, não o mesmo, outro, que aquele já está ocupado. O outro maluco babava, arrastava os pés, inclinado para a frente num ângulo impossível, o olhar vazio em frente, não me viu. Este desenhava corações no ar, enquanto falava com os pássaros numa linguagem que só eles entendiam, olhou-me como se eu fosse um pássaro, mas não falou para mim. Por duas vezes, duas, o motorista atrás de mim, nem sempre o mesmo, e verifiquei bem que não era o mesmo, que ainda me lembro bem do outro, tanto quanto me lembro bem deste, buzina e dirige-me impropérios, nem sempre os mesmos... Ainda tenho calma, nem sempre a mesma, mas ainda tenho esse nível de maluquice. De cada vez acabo por avançar, depois de cada maluco a salvo, e fico a pensar que afinal o maluco sou eu, talvez nem sempre o mesmo, mas sou eu decerto. Quis ali e além ser um polícia, cheio de galões e medalhas, e ter um cassetete de borracha muito longo e um outro de aço, mais curto, para que todas as minhas crianças e as deles me vissem ali e além ganhar o próximo semáforo, logo ali à frente.

© CybeRider 2015

Espelho d'água

Por duas vezes, duas, no espaço de um mês, sou confrontado com um maluco a atravessar a passadeira no momento em que o semáforo abre para mim, nem o mesmo maluco, nem a mesma passadeira, na minha cidade. Por duas vezes, duas, fico parado à espera que cada maluco atravesse. Tenho pressa. Penso que podia ser eu um daqueles malucos se ficar um bocadinho, só um bocadinho, mais maluco, talvez já ali à frente, no próximo cruzamento que tenha um semáforo, não o mesmo, outro, que aquele já está ocupado. Por duas vezes, duas, o motorista atrás de mim, nem sempre o mesmo, e verifiquei bem que não era o mesmo, que ainda me lembro bem do outro, tanto quanto me lembro bem deste, buzina e dirige-me impropérios, nem sempre os mesmos... Ainda tenho calma, nem sempre a mesma, mas ainda tenho esse nível de maluquice. De cada vez acabo por avançar, depois de cada maluco a salvo, e fico a pensar que afinal o maluco sou eu, talvez nem sempre o mesmo, mas sou eu decerto.

© CybeRider 2015

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Da liberdade dos outros - 3

O luto faz-se de raiva, de revolta, de blasfémia, mas principalmente de libertação. Nesse caminho acaba muitas vezes por nos deixar em pontos longínquos, muito afastados do local de partida e sem retorno. Como as confissões.

Confesso! Que a liberdade dos outros me incomoda profundamente.

Poucos são os que me amam, menos seguramente que os que estão dispostos a odiar-me. Essa liberdade deles é um ultraje,  ofende, magoa, porque sei que nunca me hão-de olhar nos olhos e ainda assim me condenam. No entanto não consigo conceber que a erradiquem. Preciso dessa liberdade como se fosse a minha. A liberdade que têm a usufruir da ignomínia, da ignorância, do desprezo e da calúnia. Sem ela. como poderia eu aprender esses sublimes pecados?... Como poderia torná-los meus para meu próprio delírio?

Somos seguramente dos mais interessantes humanos. Os europeus são únicos em muitas formas de sentir, e nós, que ainda agora aprendemos a dar os primeiros passos de uma realidade que outros já vivem há muito, e somos já nessa mesma aprendizagem rasteirados todos os dias, somos ainda mais peculiares.

Confesso! Incomoda-me a vossa liberdade de amar sem me incluir, de conviver sem me convidar; aquela que vos permite rir e chorar por coisas que já não compreendo e por outras que nunca percebi.

Confesso! Incomoda-me a liberdade de adorarem um deus numa crença pura e devota, porque a invejo de não ser minha. Tanto quanto me incomoda a vossa liberdade de não acreditar em nada nem em ninguém; porque essa forma de mortalidade em vida me deveria ser exclusiva, por ser um veneno que mata a esperança.

Confesso! Incomoda-me a liberdade que tendes de discutir constantemente o sexo dos anjos com a mesma intensidade com que enfrentais qualquer epopeia desconhecida. Estranho que se confunda a liberdade que de facto temos com a que deveríamos ter, e que isto se torne passível de dúvida. O luto a que me refiro não é por vítimas humanas que se perderam, esse poderá ser outro; é pela tranquilidade que partiu nessas dúvidas.

Poderíamos ter seguido normalmente com as nossas habituais dores e incertezas. Ao invés deixámo-nos atingir nos nossos valores. Não eram um objectivo do agressor. Não tínhamos o direito de os colocar na sua mira! No entanto foi exactamente isso que fizemos.

Agora enveredamos por este carreiro de bárbaras questões em que leviana e hipocritamente afirmamos que o que tínhamos era demasiado, quando deveríamos há muito ter percebido que em boa verdade nunca foi suficiente.

O que morreu no atentado, muito para além das pessoas de génio invulgar, que usaram de forma serena mas temerária os dons que tinham, para deleite de alguns e maledicência de outros, mas principalmente como forma de ocupação laboral; e de que imoralidades não serei capaz para assegurar eu a minha; foi principalmente um rol de valores de que muitos nunca chegámos a usufruir e que estão em risco de se perder para sempre, por os questionarmos inconscientemente com tamanha veemência.

Até por isso, confesso! Incomoda-me essa liberdade na forma de velar os mortos, em que só depois da carne começar a arrefecer as suas ideias comecem a fazer sentido.

Eu próprio, assim, estarei sempre em atraso.


© CybeRider 2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Da liberdade dos outros - 2


E podíamos muito bem ter ficado por ali. Era uma teoria bonita, tranquilizadora; podia muito bem significar que o mundo estava temporariamente invadido por uma teimosia, ou insanidade passageira, e que afinal a solução de tudo isto dependia apenas de alguém encontrar o Gandhi  numa esquina, e tudo entraria nos eixos... Pois... Ora eixos... Berlim-Roma... pois... não... adiante. Ora temos Coreia, Argélia, Eritreia, Vietname, Yom Kipur, Cambodja, Afeganistão, Irão-Iraque, Malvinas, Líbano, Golfo, Chechénia, Kosovo, Etiópia, Afeganistão, já tinha dito?... Iraque... Enfim, loucura pandémica. Parece ser usual de quem detém o poder usar e abusar da liberdade que tem e restringir a dos outros. E causas? Podemos procurá-las por esse trajecto, que nunca faltaram.

Por isso, se não dá para andar para diante, que ficava muito complexo, vamos retroceder pois, serenamente,  a Gandhi e meditemos; pernas cruzadas; braços a tocar os joelhos em pose descontraída, tronco direito, polegares unidos aos indicadores respectivos, e respiremos calmamente... Vejo... vejam lá se não vêem!…  o verde da floresta, muita gente, uma estátua do coiso… e elefantes. Ora elefantes... é, é o Sidarta Gautama, o buda! 

Uma referência histórica aponta para que a mãe de Sidarta Gautama terá visto em sonhos um elefante que lhe oferecia uma flor de lótus, na simbologia lá deles uma coisa muito pura e virtuosa, na véspera do nascimento do puto. Pronto. Imagem idílica, a coisa da maternidade, a maminha na boquita, menos um indu a morrer de fome. O sacana do buda, aquele da visão, é aliás gordo como a merda. Os olhares embevecidos e que se trompique lá a porcaria da liberdade que até para explicar, entender e aplicar é uma chatice e os mártires de Paris e do Boko Haram, e do ISIS, e a Jhiad e as intifadas...

Branco... o elefante era branco.

E as vítimas do onze de Setembro que nunca ninguém diz o raio do ano mas que nunca me hei-de esquecer, como já ninguém se lembra do António nem do Marcelo, hão-de esquecer o raio do ano. O outro Marcelo, pá! E o Tomás, desse também já ninguém se lembrava naquela altura, quanto mais agora! Era a tesoura, a tesoura... Diabo que os carregue. E o Augusto Cid, ham?... ainda bonzito, há dois ou três dias, ali na televisão, todo rijo, ali a evitar chamar uma data de nomes ao outro idiota que sentadito ao lado dele teimava, teimava... O Augusto Cid, o das caricaturas no jornal, no jornal... Que disse sempre que aquilo do Sá Carneiro tinha sido atentado, e se calhar foi; sei lá!...

E sei lá se o onze de Setembro foi assim como contaram... Se foi atentado contra as torres ou contra a inteligência de quem se lembra... E em Paris? Porra! Eu estive na tropa!... conseguia lá dar um tiro com um raio de uma G3 que acertasse num melro só com uma mão?... Uma mão?! E o coice?... Aquilo com munição real até dava uma cambalhota se não lhe agarrasses bem, ali!... com as duas mãos e com força! Quanto mais uma Kalash que até rebenta betão. Sim, que eu bem vi, rebenta betão! Ou que não desfizesse o raio de uma melancia?... E os outros que iam de cara tapada e de metralhadoras em riste mas levavam documentos, pá! Mas está tudo doido?...

O elefante branco passou a ser um símbolo sagrado. Diz quem sabe que era prerrogativa do monarca oferecer um elefante branco como agradecimento por grandes feitos, ou talvez por pequenos feitos, ou mesmo por defeitos; porque quem o recebia ficava inundado de boas venturas e honras e também de mijo e caca que o raio do bicho era grande que se fartava e não consta que fosse ao balde.

Mas essa era efectivamente, olha... efectivamente, não gosto. Palavrota pretensiosa, assim como um elefante branco, pretensioso. Um elefante branco é coisa nunca vista. Tão raro aliás que tinham de o pintar de branco antes de oferecer, daí que se tenham passado a considerar, desde essa época longínqua, todos os elefantes sagrados; apesar de os fazerem carregar até há bem pouco, digamos até mesmo ali antes da Portucel começar a produzir eucaliptos, grandes barrotes e os manterem amarrados a grilhetas, porque a liberdade das coisas sagradas também é muito discutível, basta pensar nos tigres, nos pandas... Mas onde é que eu ia?... Ah sim, aquilo do elefante branco era de facto uma chatice, porque comia que se desunhava, tinha de ser muito bem tratado porque a sua morte ou a recusa da oferta era indigna para o visado, que não tinha liberdade para isso; em suma era morto, ou abatido, se quereis; não por Kalashes, que não havia, mas à catanada que também não deve ser agradável à vista, nem nossa nem dos elefantes que, se vomitassem, então sim, ainda daria maior tragédia. E é aliás uma morte que à vista não engana ninguém. Além de que em terras de escassez como sempre foram as daquelas latitudes e longitudes, até mesmo ali antes de termos começado a dar-lhes aquelas paneleirices pequenitas para fazer telemóveis, e as outras maiores para fazer automóveis, e pormos aquela gente toda a trabalhar, e os putos… os putos… aquela ternura no olhar, imagem idílica, a coisa da maternidade, a maminha na boquita. Canojo! Cruzes credo!...  E tudo porque senão passavam fome, aquilo era uma terra miserável e com doenças.

E isto dos elefantes brancos para falar… ah, é verdade, da liberdade dos outros. É que estranhamente, aquilo que se passou em França, aquela coisa desagradável do Charlie Hebdo, que agora toda a gente sabe o que é mas que nunca para cá da Taprobana, a nossa, que pelo GPS é ali desde Badajoz, se tinha ouvido falar; acaba por ser um enorme elefante branco que o Maomé entregou pela mão dos fanáticos religiosos, para quem ache que foram os fanáticos religiosos, ou pela mão de deus para quem ache que foi um acto tresloucado de dois, vá três, malucos que queriam protagonismo e cegaram, mas que não queriam realmente ser encontrados, e que dizem as más-línguas e “que se fodam as más-línguas”, obrigado César Monteiro, que já não assististe a isto, que foram colocados naquela situação por um complexo ardil, pela secreta liberdade do poder político instituído, mas atenção que isto não fui eu que disse! E se disserem que fui, eu digo logo que é mentira e palavra-de-honra que o digo;  oferecido às democracias ocidentais. E que entretanto o Obama; o Putin; o  Xi Jinping; o Naruhito, que na terra dele nunca é referido pelo nome mas apenas por sua majestade o imperador, que não tem grande liberdade afinal porque quem diz alguma coisa é o outro, se estão pouco lixando e ainda acabam ao estalo mas lá na guerra deles; enquanto estes e os ditadores petrolinos acabam por se encontrar agora a braços com a necessidade de aconchegar com toneladas de feno e muito amor e carinho esta besta enorme de conceitos neo-revolucionários, sem saberem ao certo se come trigo, milho ou aveia; víveres esses que alguém que eles embalam para dormir...  aquela ternura no olhar, imagem idílica, a coisa da maternidade, a maminha na boquita...  o mexilhão! dizem os roedores de orelhas grandes, terá de pagar por incomportáveis só para uns, e que por isso já se convidaram aqueles que costumamos vulgarmente incluir na outra lista dos libertinos, vocês sabem quem eles são, para a festa diante do grande espanto de todos os espectadores face à grandiosidade da enorme besta alva e virtuosa toda enfeitada.

E é isto.

Charlie?... Está bem, podem chamar-lhe Charlie, é um nome bonito, lembra o outro dos pés tortos, aquele… que era palhaço.



© CybeRider 2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Da liberdade dos outros - 1


Não quero falar da minha. Seria um atentado falar de algo que não conhece limites. A minha liberdade pode levar-me a tudo, até ao meu próprio fim. Tenho de me conter e medir bem o tamanho do precipício antes de tentar qualquer salto. Disse algures que a minha consciência é uma ditadora louca, e que por isso esta convivência não é pacífica.

Por isso falo da dos outros, aquela que por definição humana não posso transpor, ainda que a minha me empurre constantemente para isso. A dos outros é sempre cobiçada pela minha, ilimitada, gulosa, carente e infinita. Qualquer limite que me imponham é por isso uma barreira. Esta barreira aprende-se a respeitar, a bem ou a mal a revolta fica-lhes bem, a vós que tendes a vossa liberdade que não quereis que eu transponha. Mas tende cuidado, que se me permitirem posso nem reparar que vos ofendi. A aprendizagem começa desde cedo, é lenta e eventualmente eterna, tanto pelo menos quanto a extensão da eternidade individual que nos estará destinada.

Consciência será travão da liberdade apenas quando essa aprendizagem foi interiorizada e apenas nessa estreita medida. Lentamente vamos passando dos actos às palavras, se o instinto de sobrevivência nos impelir no bom sentido, ou das palavras aos actos, se nos deixarmos dominar pelas glândulas e esquecermos os importantes ensinamentos. Esta é a maré também da vossa liberdade, aquela que tendes em relação a mim.

Aqui podeis começar a questionar-vos quem sou eu para definir o que é a liberdade, mas a resposta é óbvia. Sou aquele que a tem toda, como tal devo ser capaz de falar sobre isso. Cabe-lhes cerceá-la e estabelecer-me limites. Ela é, na minha sobrevivência, a minha melhor serva, obedecerá a tudo o que a incite e, ilimitada como é, poderá tornar-me aos vossos olhos bastante perigoso ao ponto de terem de me pôr termo. Essa é a vileza da vossa liberdade, que terei de tolerar e ter em conta para meu próprio bem, enquanto o entenda.

Dos limites que me tendes imposto, há dois que me tenho obrigado a não transpor por supor que me deixariam à margem da vossa sociedade, o de vos instigar a pôr em causa a vida de alguém e o de não estragar objectivamente o vosso património físico ou moral. Creio mesmo que para estes já fizestes leis que vos protegem. Fazem parte do vosso jogo que terei de aceitar se quiser ser aceite.

Porém, “quando alguém nasce, nasce selvagem” e o humor é uma selva onde, por ninguém ter o direito de me levar a sério, tenho eu incondicionalmente o de me esconder sem possibilidade nem hipotética moralidade vossa que me ponha em risco de ser perseguido. Esse é o pináculo máximo da minha liberdade que defenderei até ao limite das minhas forças. Ainda que não saiba quem é Charlie, sei que qualquer atentado a este princípio me levará a decretar-vos uma guerra sem guarida.

Entendei!



Livre é também a água que se entornou do copo.

© CybeRider 2015

Dos filhos de um deus menor

Neste mundo conturbado
Onde reina a imperfeição
Tenho de firmar um postulado
Retirado desta conclusão
Se nos mata a cristandade
E nos condena o Corão
Qualquer religião é injusta
Aprendamos à nossa custa
O que digo aos botões meus
Mal está esse general
A que tantos chamam Deus,
Pois que só conta nas hostes
Para dirimir bem do mal
Com os descrentes ateus.

© CybeRider 2015

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Dos mártires que tonificam

Antes de poder chorar os mortos temos de lutar pela liberdade dos vivos, não por vingança mas por justiça, ainda que esta saiba normalmente a pouco, principalmente quando é a própria a calar a boca dos que se atrevem e a fazer temer por enquanto, a quem quiser criá-lo, que possa existir neste país um Charlie, hebdo ou não.



Imagem da net

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A maioria


A maioria é profícua.
A maioria não trabalha.
A maioria não conduz.
A maioria sabe ler e escrever.
A maioria não lê nem escreve.
A maioria escreve mal.
A maioria fala mal.
A maioria porta-se bem.
A maioria nunca comeu lagosta.
A maioria vive infeliz na bruma.
A maioria coscuvilha.
A maioria apaixona-se.
A maioria não sabe amar.
A maioria já viu o mar.
A maioria já viu um morto.
A maioria nunca viu morrer ninguém.
A maioria nunca matou ninguém.
A maioria não acredita na sua própria morte.
A maioria acredita em dogmas.
A maioria acredita que a sorte há-de bafejar.
A maioria não pede desculpa.
A maioria acredita no perdão tácito.
A maioria desconhece o mal.
A maioria é pobre.
A maioria nunca dormiu na rua.
A maioria nunca viveu de caridade.
A maioria nunca matou para comer.
A maioria não sabe tocar um instrumento.
A maioria engana-se.
A maioria é dócil.
A maioria é perversa.
A maioria tem pensamentos inconfessáveis.
A maioria tem certezas.
A maioria tem medos.
A maioria tem nojo.
A maioria tem doenças.
A maioria é mal-educada.
A maioria é silenciosa.
A maioria acha que escolhe bem.
A maioria está mal informada.
A maioria escolhe mal.
A maioria desconfia dos outros.
A maioria acha que é incógnita.
A maioria tem preconceitos.
A maioria não pensa por si.
A maioria não pensa por mim.
A maioria não me conhece.
Eu não conheço a maioria.

© CybeRider 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Maravilhosa estupidez

Recomendação:A reflexão que se segue é profundamente iconoclástica, pelo que se recomenda a presença de um adulto avisado para a sua leitura, caso o ilustre leitor o não seja.

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Todo o acto humano é estúpido.

Já me arrependo de iniciar esta análise pela estupidez inerente à sua criação bem como às suas estúpidas conclusões, que deveriam ser de uma evidência lapaliciana, e é uma estupidez também que este adjectivo não esteja dicionarizado para a caracterizar.

A inteligência de qualquer feito só o é mediante valorização e aceitação individual ou colectiva da estupidez que lhe deu origem, e só após apreciação dos seus efeitos que se querem estupidamente benéficos. Daí que qualquer projecto seja à partida uma idiotice, e seja necessário um esforço estúpido e muita boa-vontade para colocar toda a estupidez possível na sua execução, até que se torne em algo de aceitável e concreto.

Genial, é toda a estupidez que perdura no tempo até que seja refutada por outra estupidez mais visionária. Olho para as pirâmides de Gizé, geniais, e tremo com a dimensão de tamanha estupidez. Imagino o sofrimento inerente à grandiosidade da obra e o sangue suor e lágrimas que tal enormidade terá gerado. Não contente, recordo a Grande Muralha da China, vinte mil quilómetros teria, de pedras cuidadosamente alinhadas ao longo de séculos. Pequeníssimos nadas, quando afinal pensamos no planeta recém dobado a alcatrão e fio de cobre.

O conceito de inteligência é apenas isso, um conceito, uma utopia que serve de medida de aferição a toda e qualquer estupidez que nos ocorra. Só assim se pode justificar que tudo o que criamos seja sempre defensável por maior ou menor grupo de adeptos. O bem e o mal são conceitos estúpidos, porque para tudo existe causa, para tudo existe perdão. O bem de alguém causará sempre o mal de outrém, como o mal de alguém terá sempre contrapartidas benéficas avaliáveis na circunstância, normalmente com frutos pretendidos estupidamente por uma minoria insana, digo eu, na minha mesquinha parvoíce.

Que nada é objectivamente bom ou mau, a não ser para uma maior ou menor parte, a quem o acto ou intenção afecte, mas nunca em termos universais, como tão bem se provou na Europa há meia dúzia de décadas, e se verifica pelo mundo em cada dia que passa. A  beneficência, por outro lado, cria a injustiça de uma falsa esperança aos que, independentemente do seu potencial, acabarão na mesma por morrer de fome, maleita ou intenção de outrém, por exclusão ou falta de tempo; e ainda assim as religiões, e ainda assim Cristo milagreiro. 

Toda a pesporrência é estúpida, consequentemente toda a sociedade, o mundo inteiro, porque governado e apropriado, está inquinado de uma estupidez implícita e indelével. Não poderíamos viver de outra forma, dizem, que o homem é um bicho social. Outra prova da estupidez que afloro. A aglutinação é um disparate,  não  teríamos nem um terço dos problemas se não  tivéssemos   insistido neste modelo. Deixemos os totalitarismos que, pelo que acabo de dizer, de imediato não convêm, para pensarmos nos modelos que colhem aparentemente a vontade da maioria dos interessados, as democracias, assentes na vontade de maiorias, fundam-se num princípio bastante básico que, resultando noutras espécies, parece ser  estupidamente desadequado para os humanos, o de que a "união faz a força", o mesmo princípio que enforma qualquer acção de mobilização. Acontece que a força será o mais rudimentar e irracional mecanismo que deveria mover qualquer ser pensante. Por outro lado, a lógica, fruto do intelecto, qual celestial ambrósia, que se ambiciona mais como troféu que alimento, não tem qualquer força anímica.

Perante uma maioria contumaz que espera sempre o apoio, num qualquer patético testa-de-ferro, para aparar  qualquer contrariedade previsível, imposta à força do número mais que pelo pensamento, não pode surpreender que o desfecho não seja senão a catástrofe.

Esquecemo-nos que a liberdade derradeira é individual, impossível de aplicar num grupo heterogéneo, para o qual insistimos em tentá-la sempre sem sucesso. Defensores de todas as emancipações e críticos de todas as bitolas, não acatamos que os excessos de uns são o sofrimento de outros, que em sua defesa alegam uma pretensa etiqueta como barreira intransponível mas impossível de  impor a uma turba insurrecta e egoísta, contra a qual não haverá razão que se imponha.     

Embarcamos na estupidez de criarmos só para nós, como se não houvesse mais mundo, e acreditamos, religiosa e devotamente, que o nosso é o mundo verdadeiro, o único que existe, e é só nosso, sem nos inquietarmos com o facto de não existirem normas universais que nos conformem, normas que repudiaríamos, decerto, por acharmos que somos todos diferentes, ao mesmo tempo que achamos também que somos todos iguais.

Pensai no direito à vida; e onde consta o direito à morte? Não será este um activo que nos é humanamente sonegado?...  No entanto inventámos também o dever de morrer, por causas ditas nobres, sem que nos inquiete não existir um dever inverso paralelo. E tudo nos parece legítimo.

Maldita natureza que nos concede a capacidade de julgar sem prévia autocrítica. Maldita humanidade que premeia mais a coscuvilhice e o fútil estrelato decadente que o mérito do artífice incógnito. Não admira que os outros animais nos olhem por vezes com surpreendente estupefacção.

Estupidamente simples de perceber será o facto de não termos caminho. Embrenhados na estupidez de conceitos labirínticos perdemo-nos em voltas que nos trazem sempre aos locais de partida, continuamos a querer inventar a roda, continuamos a pasmar-nos com os Ovos de Colombo e parvoíces quejandas. No saber singelo, "de boas intenções está o Inferno cheio"; máquinas de flatulenta parvoíce, não ambicionemos o céu pois que não nos compete.

Não surpreende, por isto, que de tudo se possa fazer humor. Sempre que evidenciamos as características objectivas de qualquer acto humano, é bastante fácil que tudo se torne risível e desadequado.

A justificação para todas as derrotas resulta da recusa em aceitarmos a nossa solidão interínseca e a derradeira realidade, talvez a única coisa inteligente que nos enforma, o facto de nascermos e morrermos sempre sós e estúpidos.





© CybeRider - 2014

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Maricas

Estávamos em 1967.

Um Verão escaldante. O Chico dos retratos tinha o cavalo de cartão pintado e a máquina de fole para caçar veraneantes e eu era um dos putos que descalços esvoaçavam entre os calhaus da terra batida que formava a zona de acesso à praia da Caparica. Tisnados como tições, por passarmos ali as manhãs como lagartos, divertíamo-nos entre banhos com correrias, gritarias ou a dar chutos na bola. Não sabíamos jogar à bola; brincávamos à bola, que não é a mesma coisa. Um dos putos que brincava comigo era o filho do cabo-de-mar de serviço à praia naquele dia. Recordo o momento como se fosse hoje e até do nome dele me lembro, mas evito a menção porque agora, ao fim de quase quarenta e sete anos, já lhe posso perdoar. O referido agente aproximou-se de nós quando eu mostrava um tesouro aos meus amigos, um pedaço de papel amarrotado que me retirou suavemente das mãos. Um cromo do Eusébio, que me tinha saído, se bem recordo, num rebuçado; no tempo em que os rebuçados davam cromos. Olhou para o cromo e para mim e com um sorriso malicioso perguntou-me que raio de maricas era eu para andar com uma fotografia de um homem enfiada nos calções. Perante a chacota dos outros mariolas resolvi conter o "cabrão" que nos saía com facilidade, talvez com receio da chapada que não se faria esperar e, furioso, arranquei-lhe o papel das mãos.

A vergonha não durou tanto que não andássemos dali a pouco aos pontapés à bola outra vez, mas as palavras nunca as esqueci. Não me chamaram maricas muito mais vezes, ao longo dos anos fui trocando o cromo do Eusébio por fotos de namoradas, e ele deixou de jogar à bola, coisa que eu nunca cheguei a aprender. Mas de quando em vez, lá aparecia o Eusébio na televisão e lá me lembrava daquele fatídico dia em que tinha sido maricas por andar com uma fotografia do meu ídolo na algibeira. Talvez por isso não idolatrei muito mais ícones pela vida fora. Talvez também porque não conheci ao meu primeiro ídolo outras referências, que as teria, mas também por sentir que o Eusébio valeu por si próprio, como eu gostaria de valer por mim. Aprendi assim a viver com essa mariquice, essa e a de me comover com a grandiosidade das coisas mais simples.

Por isso tenho dado por mim surpreendido com alguma comoção que tenho sentido ao ouvir as palavras mais simples nos testemunhos dos amigos do Eusébio. Talvez mariquices dum país em que, de tanto nos fazermos fortes, aguentamos como titãs outras coisas de que qualquer maricas se queixaria em pranto.

Há um Eusébio em cada português, menos ágil, mas ainda assim campeão de resistência à adversidade.

Hoje porém a maioria é de maricas como eu.


© CybeRider - 2014

terça-feira, 19 de março de 2013

Uma verdade conveniente

Que pode um aprendiz dizer sobre a vida?

Tenho vindo a descobrir a significância das coisas insignificantes. A minha última epifania é que nascemos de coisas ordinárias, um saco de supermercado, uma bilha de água, às vezes dum pneu furado. Dirão que não. Que nascemos de uma mãe e de um pai, mas essa constatação é já a da natureza a formatar o disparate, mera tentativa de dar nexo ao caos.

A insignificância do nosso início é tão notória que nem sabemos ao certo como viemos cá parar, e no entanto temos o arrojo de achar que devemos estar destinados a algo sublime. E nisto arrisco se haverá alguma situação em que não tenha sido o acaso a colocar a nossa génese em factos absolutamente inocentes e imperceptíveis. Recuo décadas, avanço quilómetros para outras latitudes, e vem-me à ideia o casamento por conveniência, instituição venerada que entretanto tem caído em desuso, apenas para verificar que não. Mesmo aí teria de haver algo de casuístico e diminuto a colocar certas pessoas em incerto trilho.

Esta é a grande diferença entre nós e os outros animais. Por mais que observe os pássaros, os cães ou os peixes, não encontro tamanha variedade de razões tão pueris, para o enlace de dois seres num destino comum, o do nascimento de um filho.

Caso curioso é o daqueles miúdos que nasceram de um porta-chaves. O caso é tão óbvio, e tão embaraçoso de divulgar, que ainda não tive coragem de o revelar ao progenitor que mo contou com a maior naturalidade, sem compreender que me estava a lançar a chave do segredo da existência de uma boa parte da humanidade, eventualmente de toda desde que nos passámos indevidamente a apropriar do termo "racionais".

Contava-me que conheceu a actual companheira, a mãe dos filhos, numa noite, numa festa de estudantes, num bar algures por Amesterdão. O facto de ele, de ascendência inglesa, nascido na África do Sul, estar a estudar na Holanda é, a meu ver, absolutamente irrelevante para a minha conclusão. Facto importante é que no final da noite se prontificou a dar boleia a uns amigos da ocasião que foi distribuindo, pelos diversos destinos, na sua carripana. Como ele mesmo diz, nunca mais a teria visto se não fosse o facto de no dia seguinte ter encontrado, caído entre os bancos dianteiros do carro, este referido porta-chaves, o mesmo que eu lhe entregava agora, por ter encontrado caído entre os bancos dianteiros do meu. Objecto insignificante, uma pequena bota em couro, agora velho e seboso, com uma argola de metal meio corroído e meia dúzia de chaves tilintantes. Só depois veio o romance, talvez do sorriso grato dela e do olhar mais atento dele, conjecturas derivadas exclusivamente do meu pensamento.

Não fora isso e hoje, Dia do Pai eu, que não sei de onde nasci, estaria a relatar outra história, muito menos interessante, de um outro filho que nasceu de um enorme urso de peluche. Para mim muito mais complicada de aceitar e de contar, e no entanto também verídica e naturalmente conveniente.

© CybeRider - 2013

domingo, 10 de março de 2013

A Fonte da Juventude

Noto que a cada dia acordo mais jovem.

A juventude é um conceito complexo, na minha definição preferida, o período em que as mudanças fisiológicas se aquietam e as sócio-culturais se afirmam. Minto; antes o período que separa a leitura do convite à vida, da diligente circunspecção de que talvez tudo tenha afinal princípio, meio e fim. Sim, esta, confesso. Que erro brutal, o da natureza, em pôr um cérebro imortal num corpo de vida curta, deixando-nos a utópica tarefa de o tentar remediar.

Mais jovem, sem dúvida, apesar das rugas e das cãs; não é como esperava e contudo... Estranho o espelho, a cosmética, a medicina que nos prolongue o bater do coração, o desporto que nos conserve a tonicidade dos vinte anos; tudo recursos que iludem. Nada transporta à juventude, daí a busca incessante por esta fonte milagreira. E que vontade haveria? A liberdade de rir da piada fácil, anedotas pela primeira vez, incontinência pelo imediato, riso que disfarçava lágrimas, audácia do disparate só pensado depois de dito, sem certeza de justificação sustentável, supérflua; a fragilidade escondida na rebeldia de um grito, a incerteza do futuro, a dependência do dá-me sem a promessa do empresta-me, a inocência da confissão pública sempre tacitamente absolvida, a aprendizagem despreocupada sem objectivo definido; a única certeza, a eternidade?

Mais jovem, como no tempo em que me estendia de costas na areia de uma qualquer praia do sul, a vincar um meridiano. Acima o frio polar, longe; à direita oceano e américas; à esquerda, rússias, chinas, orientes médios e longínquos como austrálias; abaixo mais mar e áfricas ricas de poucos ricos e muitos pobres. Em frente o azul infinito, dava-me a certeza de que não haveria melhor lugar do que o meu. E talvez não haja, porque aqui nos tornamos afinal mais jovens, perdidos algures entre essa esquerda e essa direita, para onde me recordo de estender os braços, mas ficando sempre no meio.

É com um aperto de levar às lágrimas que vejo pais, avós, filhos e netos a lutar pelos mesmos lugares na fila da sobrevivência que engrossa a cada dia que passa. Extorquidos, os mais velhos, do pouco que já tinham amealhado para quando as forças lhes fossem faltando, que lhes foi tirado como se fossem doces das mãos de crianças, competem entre si pela dignidade que reste; vejo-os tentar agarrar-se à réstia de liberdade que se esfuma porque estava esquecida, reagir com mais agilidade ao imediato, como se tivessem reconquistado a destreza de antigamente, vejo-os disfarçar com riso o pranto, surpreendo-me com a súbita coragem em soltar o que a garganta já não consegue conter, talvez o pensem depois, sem certezas de encontrar a justificação que o sustente, que seria agora mais necessária. De novo o regresso à fragilidade antiga, aos gritos de rebeldia; o futuro de novo incerto, a submissão à dependência do dá-me sem a promessa implícita no empresta-me. A confissão pública já não carece de absolvição, porque também não é inocente, e a aprendizagem passou a ter um objectivo concreto. O regresso à juventude tem um preço pago nestas ténues diferenças; a maior porém, é que perderam definitivamente a certeza de que seriam eternos, essa nunca se recupera a partir de certa idade, e as anedotas são todas antigas.

Estou mais jovem a cada dia que passa. Compreendo finalmente que juventude e idade não têm rigorosamente nada que ver uma com a outra, e para o provar até posso quase afirmar que nem me faltam as borbulhas; se bem que vistas de perto, não são de acne; são de sarna, apanhada nesta fonte, para me coçar.

© CybeRider - 2013

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ponto Cardeal


in memoriam, 07/7/1931 - 21/12/2011

É nos dias de chuva que vejo melhor ao longe. Espreito pelo cristal onde as gotas se vão comendo umas às outras e vejo Cacilhas ali a trezentos quilómetros.

Nunca fui muito paciente. Para mim uma nau faz-se num dia. Por isso aquela que comprei em mil pedaços de pau dentro de uma caixa bonita, um sonho que tinha desde criança, ficou por acabar. Comecei a juntar umas coisas com as outras, já preparado para a colocar naquele oceano imenso, o suporte de mogno com uma chapinha amarela, e ficou nem meia nau. Iria quando muito de Cacilhas ao Ginjal, e soçobraria deixando-me numa aflição sem colete salva-vidas que, como confirmei, não vinha no pacote. Vem-me à ideia que podia tentar manobrá-la na direcção oposta, até à Lisnave, talvez não conseguisse chegar lá inteira mas, lá, haveria de aparecer algum operário de mãos ferrugentas que com um sorriso ma tirava das minhas e me construía uma a sério, num só dia, apenas para me ver inclinar a cabeça para ele, até lá acima, com um sorriso de orelha a orelha e no olhar aquele brilho espantado que só as crianças têm quando vêem um gigante habilidoso executar um acto de magia. Que todos eles eram assim.

Seria um cacilheiro, como o Renovação ou o Norte Expresso, com uma portinhola para a escada descendente ao compartimento do motor, onde me podia sentar a inalar o cheiro a gasóleo queimado, no calor de fornalha que abafava, enquanto as gigantescas guias das válvulas daquele motor imenso matraqueavam com sopros e batidas a viagem de travessia num ensurdecedor compasso de reggae por inventar. Lá abaixo os olhos do maquinista, sobressaindo do rosto negro de óleo que tingia no mesmo tom a sarja do macaco azul, subentendidos na escuridão trémula, entrecortada pela iluminação das esparsas lanternas espalhadas pelo salão infernal, e os dentes fluorescentes quando se apercebia que tinha o habitual espectador no balcão superior. Na ponte haveria de sobressair a roda de leme e ao lado o telégrafo em latão polido, de mostrador redondo, em gomos de palavras incompreensíveis, adiante, atrás, meia-força, toda-a-força, devagar, como se comandasse algum halterofilista louco, de onde o comandante enviasse as ordens à sala de máquinas para nos fazer chegar sempre sãos e salvos ao destino. Não faltaria o engraxador que me enfarruscava as orelhas com as mãos empastadas de graxa sempre que eu não lhe conseguia fugir, nem os cobradores de tez curtida e quico à marinheiro, com a malinha de trocos, em couro, a tiracolo.

Numa viagem improvável vou nele ao cais de Alcântara. Lá fora estará o Oldsmobile Cabriolet, o táxi do Sr. Augusto Macedo, à tua espera, onde o vi tantas vezes. Desta vez será em estilo e, ao contrário das memórias que melhor guardo desse local, não hão-de haver as lágrimas contidas que nunca viste, e eu só mais tarde comecei a reparar, da minha mãe, sempre que partias, e hei-de lembrar-me bem de ti e reconhecer-te imediatamente. Irei beijar-te e finalmente agradecer-te as moedas que me atiraste da ponte do Santa Maria, ou seria do Infante D. Henrique, lembras-te?... E eu, ora de joelhos no chão ora a correr pelo cais, a catá-las como se fosse assim que faria uma fortuna para que te orgulhasses de mim. Depois os lenços a acenar, os outros prantos que não entendia, e o enorme navio a zarpar e a encolher, encolher, até ser um ponto no horizonte. 

Não te levei a sério quando me alertaste tantas vezes para que um dia haverias de partir na tua grande viagem. Sabia que já tinhas partido em algumas, já esquecidas no tempo, mas recordava que de todas sempre me tinhas trazido um brinquedo, e que esse dia era sempre um dia de festa.

Por isso, desta vez, vou continuar aqui, como nessas outras vezes, à espera de ver o teu navio surgir no horizonte, com a minha nau por terminar entre as mãos.


© CybeRider - 2013

domingo, 27 de novembro de 2011

São cruzes, senhor.

Ligado à máquina...

É sempre um passo difícil, largar a aflitiva realidade e mergulhar neste isolamento ansiolítico, e podia pensar-se que seria um refúgio, mas não é.

Lá, é simples, as coisas derivam e escolhemos as interacções, consoante casualmente nos atinjam ou pretendamos atingir. Aqui, invariavelmente, tudo nos atinge e temos de abrir caminho pela pesada tralha que nos sujeita à aparente passividade. Na verdade há tanto a tirar de cima que chego a pensar se, depois de cá vir, conseguirei sair do lodaçal que me sufoca.

De súbito invade-me a ideia de como seria se ficasse aqui para sempre, assim como os volumes que me olham do cimo destas prateleiras. São cruzes, quase todos, marcam a localização de entes que partiram mas que podemos visitar para uma vénia, um derradeiro adeus, uma flor na campa. Ficaria aqui sentado, ligado à máquina que se alimenta a chouriço e casqueiro, até que o pó me cobrisse, entupisse o aparo e estagnasse a corrente; o braço a mexer invariavelmente, com uma tremura lânguida, as letras imaginárias; os olhos semi-cerrados; e mais nada, até ao fim da eternidade. Por isso temo sempre o regresso. Ainda que consiga desligar o braço a tempo, há sempre algo que acaba por ir parar à prateleira e que fica ali a olhar para mim, à espera da tal vénia, de um acenar saudoso ou de um aroma a crisântemo que lhe eleve a alma, e torço para que não seja eu a cruz que ali falta.

Até por isso recorro com frequência a um subterfúgio, deixo-a ali a dar ao braço, enquanto vagueio por outros sítios que me trazem melhores recordações; nessas alturas fico atento à criatura, que não venha no meu encalço, que não descubra o que ando a fazer, enquanto a vejo dedicada, imersa na imensidão de escombros, a tentar desenvencilhar-se, e parto para a prateleira das recordações, onde as cruzes são etéreas. A memória é uma amante traiçoeira, sempre pronta a afirmar tudo o que me convenha para o bem e para o mal, uma pretensiosa meretriz que se aproveita da minha necessidade para me encher de convicções de que também se empanturra. E no entanto é essa mentirosa que me conforta, que me aperta a bochecha entre os dedos de uma velha e que me sussurra ao ouvido:  "que linda bochechinha" , e ali fico a sonhar, a sentir um leve ardor na bochecha e a recordar dias em que as cruzes não faziam sentido. E de repente todas as velhas me parecem dignas de me ter apertado as bochechas, vá-se lá saber porquê.

Duas mãos firmes nas minhas costas empurram-me num baloiço, o meu joelho esfolado; sempre tive um joelho esfolado. Agora cai-me um dente de leite, vejo-me ao espelho com um  sorriso desdentado, mas não sou eu, é a criatura. Eu nunca tive dentes de leite, ou tive? Fico confuso, a memória a rir-se de mim e eu, como de costume, estatelado ao comprido, com um fio de sangue a brotar do joelho. O sangue é sempre meu, até o do perú do natal e o do porco da matança.

Olho para a criatura, maquinal, frente à sua página, debate-se, atolada. Enquanto tricota, confiro-lhe a solidez do relato, verifico a escolha dos caminhos mais fáceis de que se socorre; vem-me à ideia que procurará uma saída airosa que justificasse a sua independência de mim. Não a censuro.

Faz hoje cinquenta anos que convivo com ela, sei, sempre soube, que um dia me há-de abandonar à minha sorte, e eu talvez nunca venha a saber se as memórias são minhas ou dela. Tolerante, ou simplesmente interessado, acabo-lhe de novo com o sofrimento, ocupo-a, tiro-lhe a caneta da mão, tranquilizo-a. Arrumo na prateleira outra cruz, que trás com ela, dos destroços onde nos tínhamos enterrado. Nesta simbiose encontro-me velho e tenho até vontade de lhe agarrar na bochecha descarnada e de lhe dizer ao ouvido: "que linda bochechinha", mas contenho-me; ela saberia o tamanho da minha hipocrisia.

Sou sempre eu quem salva a criatura fleumática, sem especial prazer, apenas porque preciso dela para transcrever o sorriso desdentado ou as lágrimas saudosas que algumas cruzes me provocam, pontualmente, à medida que vou interiorizando, com um aceno tímido e uma pressentida fragrância a crisântemo, que nunca as poderei voltar a visitar.  


© CybeRider - 2011

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Quase nada

Preciso só de um bocadinho. Pouco, poucochinho, como se não fosse nada, quase nada. Uma pequena porção de quase tudo mas numa ínfima dimensão, à minha medida. Que pequeno vou ficando; à medida das porções que me calham, diria. Foi por mim que se inventaram os diminutivos, todos eles pequeninos; à medida dos dias que se me vão encolhendo. Como este país, este povo que me olha sem me ver; meu, mas para quem não existo, a não ser para alguns muito poucos, poucochinhos, como eu. 

Também os desabafos se me vão esvaindo, poucos e pequeninos. Há quem desabafe em catadupas de resmas, eu desabafo em poucas linhas, um romance seria impensável. Recordo-me de quando me sento com alguém que me começa a contar algo sobre qualquer assunto e eu a resumir, a pensar qual a razão de tanta pontuação, tanto parágrafo, que pares, não me contes a tua vida desde pequeno, é igual à minha, pequena afinal; poucas linhas, é tudo o que me interessa, diz-me só o que quero saber, que é tão pouco, deixa o resto, é excessivo extravasa-me; mas calo-me, num silêncio pequeno que ninguém escuta senão eu. Um silêncio à minha medida afinal. Não acho interessante que me digas que, dantes, quando bebias se te rebentava a boca e que, agora, quando bebes se te rebenta o cu, espanto-me mas fica-me o apontamento, essa parte que não me interessa pode vir a interessar-me, guardo-o, como um parafuso solto na caixa de ferramentas, uma sobra que poderá um dia segurar algum alicerce de alguma obra, pequenina também, decerto; esboço um sorriso complacente, desta vez ouço; o resto não me cabe na caixa de ferramentas, deixa, não insistas. De repente apetece-me beber, beber até rebentar por uma costura qualquer, até que verta pelos poros, ainda que poucochinho sem ensopar, apenas uma humidadezinha exígua e purulenta, enojante como qualquer coisa desprezível e humana, pequenina afinal.

Vem-me de súbito à memória aquela dor de ventre, aquela em que corro num desespero de condenado e encontro a porcelana mesmo a horas de não passar um embaraço. Sem pensar na insanidade que é o facto de algo tão natural me condenar a esse tal embaraço, atiro-me a ela, à tal porcelana, sem pensar como seria a minha vida sem um pequeno pedaço de porcelana nessas horas inconvenientes; qual marca? Não é Limoges, é simples e plebeia, como eu, será que alguma vez fui Limoges? Se fui já estou no quintal cheio de ração para o cão, passei de moda. Há cães que comem em Limoges, e homens que comem em malga de plástico. O importante para mim é que coma, chega-me.

Nunca posso ter sido Limoges, se o tivesse sido estaria agora melancólico e deprimido, ou apenas partido em cacos, deitado ao lixo, sem servir nem para a ração do cão. Sou mais malga de plástico, que se vai arrastando pelo chão cimentado, por cima de um ou outro excremento, riscada, sebosa, mas que perdura em desafio ao sol e à chuva. De vez em quando levo com a ração em cima e vivo das lambidelas do cão, são elas que justificam que não me deitem no lixo, se o cão morre nada me salva. Plástico à parte, somos assim como a porcelana, uma destina-se ao castigo, outra para aparar os requintados manjares de príncipes. Tudo porcelana e no entanto a diferença inexplicável, será a forma que nos destina? Ou antes o destino que nos dá a forma? Tu és sanita, e tu uma terrina delicada.

Então, senhor António, hoje só leva dois papo-secos, isso não é poucochinho?

Poucochinho sou eu, mas não digo, calo-me e vou andando, de mansinho. Nunca fui capaz de nada grandioso que me livrasse desta pequenez insignificante. Desta humildade mesquinha e tacanha que me impele para as profundezas da simpatia embirrante e peganhenta que me atabafa e me consome, incapaz de me libertar acabo por simpatizar com tudo o que me odeia, e odeio-me a mim próprio por isso. Mas é um ódiozinho imperceptível, insignificante que nem medra nem se consome.

Pudesse eu voltar a ser mulher, que todos o fomos um dia até nos terem separado dessa carne milagrosa, o eterno desejo de recomeço; a inexplicável natureza, que me torna fruto da insanidade que subjaz à ideia de que uma cebola pudesse alguma vez ter parido uma batata; ainda que fosse pequenina seria grandiosa, assim sou quase nada, não tenho essa maravilhosa capacidade de instigar o prazer e a dor conceptuais que todas elas têm. Agora, é tarde demais. 

No fim do tempo há-de bastar-me apenas um pouco de morte, não me deixem muita, só um bocadinho basta, e uma terrinha, uma florzinha, um bocadinho de água para que se mantenha viçosa, basta-me isso e o pequenino esquecimento que me há-de eternizar, é só o que peço.

Não é nada, enfim, quase nada.


© CybeRider - 2011