terça-feira, 31 de março de 2009

O elogio dos pássaros

Pareces-me muito pequeno.

Deste galho diria que és para aí do meu tamanho. Mas sei que não.

Já te vi de perto. Quando do cimo dos teus catorze anos apontaste um cano de ferro ao meu irmão e o trespassaste de lado a lado.

Vi como pegaste no pequeno corpo que não te enchia a mão e lhe sentiste o calor que se desvanecia. Vi-te olhá-lo nos olhos, a tentares compreender toda a mágoa que a natureza te mostrou naquele último brilho. Vi como te entristeceste, mas não te consigo perdoar... Nem hoje, nem talvez amanhã.

Ainda assim tento.

Mas também não percebo porque me deitas abaixo a casa que construo paredes meias com a tua, e não me deixas ser feliz com uma família, assim, como tu.


Não percebo porque teimas em dizimar os jovens que brincam frente ao caixote de ferro com que percorres o mundo, sem me veres.

E não entendo também porque me enches o céu de poeira.

O meu Sol está tão quente...

Solto-me ao céu ainda azul. Rémiges ao vento, tento esquecer que existes. Mas volto, para dormir nas árvores da tua rua, a tentar perceber porque me tratas assim. Estou contigo no bosque a avisar-te que o teu passeio é seguro. Estou contigo nas manhãs mais belas a animar-te para a vida. E tu não me vês! Como posso perdoar-te?...

Canto para ti, o melhor que sei, melodias para te recordar da Primavera.


Espreito à tua janela.

Porque não aqueces os teus filhos na tua cama? Porque os acordas tão cedo e os levas para outro ninho? És muito estranho...

E tentas imitar as minhas cores, que mudas todos os dias. Mas também não compreendo os teus chilreios de amor, nem a agressividade com que demarcas o teu território, nem porque tens de fechar o ninho que deixas vazio.

Daqui do meu ramo volto a olhar para ti. E amanhã vou voltar a pousar na tua varanda.



Porque não me segues, quando me arrisco a desafiar-te do beiral da tua janela?






© CybeRider - 2009

sábado, 28 de março de 2009

Rigor jornalístico

Ainda não há um serviço de notícias na blogosfera.

Por um lado ainda mal. Caso contrário o mundo poderia ler o que aconteceu ontem num blogue da nossa praça, e compreender como coisas que podem parecer fúteis, como a colocação e comentário de ideias num blogue, podem assumir derradeiras importâncias e eventualmente deixar marcas indeléveis nos seus intervenientes.

Como um amigo me referiu, aquilo afinal é apenas html.

Não vou hiperligar o caso concreto, porque sei que os meus leitores têm a nobreza de não vir para aqui à procura do reality show, e além disso o que aconteceu não foi em minha casa, mas antes numa que respeito.

Para quem nunca ouviu falar de netiqueta isto pode até parecer uma parvoíce. Pelo meu lado que já ando nisto desde o Mirc inicial (com um pc com Win3.11 - se é que isto ainda diz alguma coisa a alguém), cedo me habituei a respeitar a casa dos outros. Tive desavenças e encontros fantásticos que me deram o prazer de viver aventuras memoráveis, no ICQ, no MSN, e quejandos .

Descubro com grato prazer que a blogosfera pode ir mais longe.

Dá-nos a possibilidade de deixar a nossa alma exposta por tempo indefinido. Se por um lado isso nos pode conduzir desde a almejada imortalidade (o que quer que isso seja porque não compreendo o Infinito) ao mero convívio informal, deixa-nos por outro expostos de formas absolutamente imprevisíveis, o que pode gerar sentimentos incontroláveis.

Posso depois disto adiantar que o caso concreto aconteceu em virtude de uma forma muito própria dos membros do grupo partilharem os "bons dias".

Imagine-se por isso o leitor a entrar num estabelecimento onde toma o pequeno-almoço diário e que saúda os presentes, que correspondem com sorrisos e retribuições, e que alguém decide à revelia congratular-nos com a sua opinião pessoal de que aquela forma de saudar é incómoda e que lhe chega a fazer correr mal o dia.

Provavelmente, se for o dono do estabelecimento, arrisca-se a ficar sem clientela. Se for um mero conviva nos seus primeiros dias de frequência, arriscar-se-á à excomunhão.

Imagino com facilidade os impropérios, a que a persistência do estranho dará como consequência decerto algumas cadeiras pelo ar, e o consequente afastamento do causador dos distúrbios.

Em bom rigor jornalístico foi o que aconteceu.

A maravilha que daqui resulta é o facto de nos encontrarmos perante mero html.

A tal falta de netiqueta, muitas vezes causada pela necessidade rápida de nos fazermos notar num ambiente que apreciamos e onde gostaríamos que se lembrassem de nós, leva-nos a criar clivagens que temos de habilmente conseguir não quebrar, enquanto tentamos a custo afirmar o nosso carácter e em simultâneo tentamos atrair os outros para nossa individualidade.

A criação destes laços é um processo complexo, mesmo na realidade quanto mais no mundo virtual!

Devemos lembrar-nos que quem já lá está não está disposto a aturar infantilidades nem muitas vezes a fazer cedências. Somo nós os intrusos (sempre) e como tal é conveniente evitar antagonismos. Se por vezes simples desacordos são bem vindos, a tentativa de quebrar tradições pode ser letal.

Recordo porém que a peixeirada foi toda resolvida sem recurso ao vernáculo corriqueiro, o que acaba por abonar em favor dos contendores e não deixa por avaliar o bom nome da casa.

Estou certo que todos passaram, consequentemente, uma noite descansada.


© CybeRider - 2009

quarta-feira, 25 de março de 2009

Crise? Qual crise?

Não é com particular desagrado que recebo a visita de associações de caridade no meu local de trabalho. Chego mesmo a reservar para algumas um módico cheque anual, porque até acredito que possa ser por uma boa causa e sinceramente nunca me ocorre algo de mais construtivo a indicar. Afinal de contas, a finalidade da sua presença são eles que ma indicam: mais um peditório...

Alguns são caras já conhecidas, cumprimentamo-nos como amigos, que afinal ainda não somos, e sento-os sempre diante da minha secretária (aquela coisa de madeira com papéis em cima, entenda-se).

Depois de uma amena cavaqueira, a que os nossos sorrisos dão melhor entendimento que o próprio teor da conversa, e a escrituração do pequeno papel, acabam por me deixar prosseguir as introspecções e partem sempre com um até breve que a cada vez desejo mais longínquo.

Não foi o que aconteceu hoje.

Mantivemos os sorrisos, a disposição das cadeiras, e expliquei-lhe que afinal andamos todos ao mesmo, variando a indumentária pouco nos distingue, ele como eu com família para alimentar, e no entanto com uma diferença fundamental: para ele não existe saldo negativo: Ou há..., ou não há! Já no meu caso... Cada dia que passa projecta um abismo do qual poderei não saber sair. São os compromissos bancários, o fisco, rendas, taxas camarárias, combustíveis, fornecedores, enfim aquele rol do costume. Falei-lhe da situação internacional que me priva de clientes. Mostrei-lhe as desvantagens de um mercado altamente competitivo, e aí traçámos ainda algumas queixas. O olhar entristeceu-se-nos, cabisbaixos partilhámos mesmo um curto silêncio...

E garanto, que lhe antevi um pequeno trejeito da mão em direcção à carteira. Não fosse o telefone ter tocado...

Despedimo-nos, com um novo "até breve" mais magro que o habitual para ele, menos doloroso para mim. E pensei com os meus botões: "Estás a ficar bom nisto, rapaz! Um dia destes... "


Não há dúvida. A necessidade aguça-nos o engenho!



© CybeRider - 2009

terça-feira, 24 de março de 2009

Derradeira agnose

Espanta-me a astrologia, e a facilidade com que se acredita mais em magnetismos que na existência de Deus.

Num blog por onde passei encontrei um nome feminino charmoso, um colorido ameno, textos com alma. No perfil uma referência: "Touro"...

Imaginei-me a entrar no Labirinto de Dédalo para me enfrentar com a versão sáfica do Touro de Minos. Imaginei-lhe os fartos seios matriarcais, as coxas grossas, o úbere massivo (sim, seios e úbere que tinha de ser um monstro). Qual Teseu, aventurei-me a medo e deixei um comentário tímido a um lugar comum.

Afinal tudo não passava de gigantismos do meu imaginário. Revelou-me um belíssimo gesto humano, ao retribuir-me a visita.

E pensei... Por que raio será tão difícil de ver que as ubíquas ondas de rádio, de televisão, de GPS, têm decerto mais efeito sobre nós que as emergências de Urano? E que afinal as radiações do micro-ondas, do leitor de CD, ou do motor do aspirador, nos constringem mais que os anéis de Saturno?

Por mais voltas que dê, não encontro explicação para esta incongruência fundamental.

Menos ainda para o enriquecimento dos clérigos desta doutrina, nem para as crenças que suplantam relativamente à adoração tradicional do divino. Hoje é mais fácil o exorcismo pelo lançamento dos búzios ou por um jogo de cartas que pelo enfrentar do crucifixo.

Não que me seja mais fácil aceitar a supremacia de uma divindade todopoderosa; afinal se existisse, o termo heresia não faria sentido enquanto causa para a punição dos descrentes (prefiro "incautos"). Mas é toda uma (mais outra) tradição que definha.

Pode parecer desilusor que no meu ajuste de contas passe de agnóstico a isto. Atento ao facto de ter compreendido que este lindo planeta azul é afinal um pequeno grão de areia, em comparação com outros corpos celestes, sou levado a crer - sem urgência de olhar às vítimas do Tsunami ou de massacres africanos - que isso nos deixa numa dimensão invisível mesmo aos olhos minuciosos de um Deus.

E se por um lado a atoarda de que o tamanho não interessa, possa funcionar como catarse para algumas psicoses, neste caso concreto não me ajuda.

Por outro lado, a imagem desse Deus sempre ofuscou as criações verdadeiramente divinas do Homem, acabando por não nos tornar melhores ao afirmar a nossa própria inexistência, que tantas vezes recordamos uns aos outros com reforços do olhar para o etéreo.

Sei por isso que vou ter uma dificuldade. Na hora do julgamento final, terei que Lhe mostrar também a Ele, que não existe. Penso que vou ter sucesso. Apesar dos milénios que Ele me leva de avanço...

Levo anos e anos de prática sofrida daqui.

© CybeRider - 2009

domingo, 22 de março de 2009

Auto-biografia 2 (de 2)

Agradeço às mulheres:

Uma mama na boca;
Uns pares de cuecas à mostra;
Outros tantos em baixo;
Um sorriso à janela;
A descoberta da diferença fundamental;
O prazer dos dias de greve.
Um pontapé no cu;
Um estalo que dei;
Um excerto do Jesus Christ Superstar;
Brincadeiras num corrimão;
Uns estalos que levei;
Livros que li;
Filmes que vi;
Quadros que admirei;
Música que ouvi;
A pornografia;
Os passes de dança;
Uns "não quero";
O primeiro beijo;
Uns "está bem";
Amizades que fiz;
Dias e noites memoráveis;
Lisboa à noite;
Uma Festa do Avante;
A maioria das virtudes;
Um autocarro perdido;
Amizades que desfiz;
Alguns conselhos;
Outros estalos que levei;
Algumas das minhas lágrimas;
Algumas das suas lágrimas;
Outra mama na boca;
Areia no sexo;
O "Não faz mal...", pouco sincero;
O "Mais depressa!";
O "Mais devagar!";
O "Espera. Espera..."
O "Meu Deus!";
A aprovação, com sinceridade;
Outras lágrimas.
A felicidade de amigos;
Um filho;
Os melhores manjares;
O divórcio de alguém próximo;
A minha auto-confiança.




© CybeRider - 2009

Auto-biografia 1 (de 2)

Agradeço aos homens:

O berlinde e o pião;
Pontapés no cu;
A colecção de palavrões;
Os murros que levei;
Alguns murros que dei;
O 25 de Abril de 1974.
A minha primeira greve.
Umas férias no Algarve;
Amizades que fiz;
Os desafios de xadrez;
As minhas brigas filosóficas;
A primeira viola;
Um curso de fotografia;
Poucas qualidades;
Os desportos que pratiquei;
Um passeio a cavalo;
O êxito de Norma Jean Baker;
O livro emprestado;
Outros livros que li;
Filmes que vi;
Quadros que admirei;
Música que ouvi;
O CH3 CH2OH;
O tabaco;
A mala que me roubaram;
A "Introdução à Política Partidária";
Dias e noites memoráveis;
Lisboa à noite;
Mulheres que me tiraram;
Mulheres que conquistei;
A maioria dos defeitos;
Copos que me aturaram;
Um concerto de piano;
O filme que realizei;
Um fim de ano no Bairro Alto;
Conselhos que recebi;
Uma tarde em Belas Artes;
O dia em que andei na pesca ao polvo;
A noite que passei numa traineira;
Os mergulhos no Atlântico;
O acampamento em que participei;
O meu primeiro automóvel;
Um passeio de carro em Leiria;
Todos os meus acidentes de viação;
Amizades que desfiz;
O meu serviço militar;
Um passeio de barco à vela;
Algumas desilusões;
O meu primeiro emprego;
Um passeio de mota no Algarve;
O divórcio de alguém próximo;
Todos os meus insucessos;
O Medo.




© CybeRider - 2009

sexta-feira, 20 de março de 2009

Uma coisa que o dinheiro não compra

INSPIRAÇÃO

Lago que te penso
Prenhe,
Não de torrentes mortas
Mas de segredos
E corres nas minhas veias
Rios de sangue
Onde se afogam mágoas de rebelde
E revoltas ébrias de esperança.

Sacio-me em cada raio de luz
Que te reflecte a cor
Tecida a aguarelas mil
Que não posso prever.

E desejo estar nas tuas águas calmas,
Afogar-me de ti,
Com vontade de morrer nenhuma vez
Serena mansidão,
Latente,
Doce,
Que te não quero saber o fim.
Sinto-te o calor
Do corpo que encerras imerso
E a terna concupiscência
De perseguir-te o leito.




© CybeRider - 2009