Evito a expressão "nunca mais".
Se por um lado me daria a tranquilidade de melhorar o mundo à minha volta sem intervenções intempestivas, por outro lado priva-me de voltar a lugares que, não sendo perfeitos, me ensinam o caminho para a tranquilidade.
O "nunca" é o obstáculo maior de vencer. Se por um lado nos livra das atracções mais perigosas e de aventuras desmioladas, por outro é a barreira aos sonhos que pressupomos inalcançáveis.
Por isso me custa a sair. É uma palavra que tenho de mastigar, tomar-lhe o paladar, como quem degusta um manjar exótico.
Já o "mais", sinónimo de adição, proliferação, virtualmente abundância, podendo ser de evitar quando nos referimos ao pernicioso, é capaz de uma atracção quase irreflectida. Quando nos perguntam "queres mais?" raramente nos surge a imagem de um malefício, a menos que tenhamos atingido o ponto de saciedade, o que para muitas situações é em si um objectivo por cumprir.
Quem nos quer mal não nos costuma colocar a questão, que surge na continuação de um acto. O mal é algo que se distribui, normalmente sem perguntas directas e que se pressupõe, à partida, intrinsecamente aceite pelos contemplados.
Quando se juntam as duas é que adquirem contornos verdadeiramente maquiavélicos:
"Nunca mais" é um ponto sem retorno. Um autêntico mergulho no infinito, perdem-se os limites, abandonam-se referências, para passarmos a dedicar todas as nossas energias numa inacção que não terá fim à vista. Todos os meios ao nosso alcance servirão para ajudar à causa, ainda que isso nos traga tristeza e depressão.
O abandono de um vício é por isso algo que considero incomensuravelmente difícil. Registar, de forma indelével, que algo que dá prazer tem de ser, por vontade própria, abandonado para sempre, provoca decerto uma angústia atroz que só poderei conceber por uma força superior de razão. Esta "razão" mais não é que a racionalidade a que deveríamos apelar quando nos socorremos do nosso bom-senso.
Nessa medida, se já me custa articular a palavra "nunca", a expressão "nunca mais" tem para mim o peso de uma "palavra de honra" à antiga. Utilizá-la significa a aquisição de certezas absolutas que já referi não ter, como tal e por via das dúvidas, prefiro esquecer-me de que existe.
E não deixa de ser caricato que acabe, assim, por concluir que o que me impede de utilizar essa expressão seja mesmo a falta de senso, que nunca mais tenho...