quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A bronca da broncocoisa...

Tinóni... Tinóni...

Os faróis a piscar, o veículo amarelo surge. Encostam, deixam passar.

O Jacinto também deixou passar, em branco, a mãe que lhe faleceu no hospital com broncopneumonia. Já se lhe fora um tio e uma prima afastada.

Afastados… Todos, por esse anátema ceifeiro.

Ou é andaço, ou uma terrível coincidência, mas ultimamente parece que não há velho que morra de outra coisa. Vítimas de cancro, de SIDA, de uma perna partida, ou de simples senilidade; desde que haja internamento, é quase certo. Se não foi acidente, foi broncopneumonia. Penso eu, não o Jacinto.

Não lastimou que se fale de gripe XPTO, quando a porcaria que nos leva os velhotes mata muito mais que qualquer outra maleita, e sobre ela nada. Desta ninguém fala, saiba-se lá porquê. Os velhotes vão assim, muitas vezes para melhor, por broncopneumonia. Liberta-se a cama que os desgraçados ocupariam a perder de vista no tempo, e uma data de gente livra-se de uma série de encargos e chatices. Assim como o Jacinto, que sem saber trocar as fraldas à mãe, sem proventos dignos de um desafogo, a lavava à mangueirada no quintal da casota modesta da aldeia. Já o tinham debaixo de olho, a Segurança Social… Assim foi melhor… Que a velha estava a sofrer. O pior foi a reforma. Faz também falta aos outros, para jogarem à carta no banco de jardim até que a vida lhes doa, e precisem de internamento, como necessitam da tal cama no hospital.

E no ciclo do Jacinto, conformado com a forma como a mãe lhe partiu, sem mistério, vive-se, envelhece-se, apanha-se a broncopneumonia e, saberá Deus.

Alguns resistem, ainda pecou o Jacinto em pensamento. O AVC não os deita abaixo tanto quanto se esperaria, e o raio da broncopneumonia ainda se cura, mas estes são de facto poucos. Talvez a medicina tenha evoluído em dois sentidos diferenciados; dum lado os que recupera para ficarem inválidos por uma série de anos, do outro os que despede rapidamente com a tal broncopneumonia.

O Jacinto, não gostaria de ver o assunto estudado, os números apresentados, as estimativas e estatísticas realizadas. Isso dar-lhe-ia uma intranquilidade desnecessária. Não o incomoda o dia em que apanhe uma broncopneumonia, não terá violado nenhum cânone sagrado de uma máfia oculta, inominável, que se queira então ver livre dele, que nem sequer questionou.

A mim sim. Preocupa-me. Daí que comece a ver nisto uma dúvida existencial.

Por isso, se amanhã estiver hospitalizado com uma conveniente broncopneumonia, já sabem...





© CybeRider - 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

A cigarra e as formigas

A meus pés, o carreiro de formigas...

Infestam-me o mundo, nas suas filas indianas, que decerto chegam à Índia, onde nunca estive, mas que imagino. Cheia de formigas também. Como estas, que se acotovelam, como na fila do metropolitano. Imagino-as a atravessar pontes e vales, montanhas e desfiladeiros. Embarcam nas folhas e vão-se pelos ribeiros à aventura. Sem louros a colher, sem História, nem política...

Uma imensa monarquia, talvez um império cheio de rainhas que, de pernas abertas nos tronos, infestam e manifestam sem cessar. Um negócio de família afinal, maior que qualquer latifúndio que conheçamos. Em comum a mão de obra barata, a sujeição irracional, a massificação quase automática como que telecomandada. Recolectores pré-históricos, que não pensam que o mundo acaba, não sofrem da ansiedade da morte, nem das incertezas da velhice.

Uma sociedade complexa. Com hostes que se dividem em tarefas específicas. Talvez não se entendam umas às outras na missão mas, ao contrário de nós, não se questionam. Limitam-se a cumprir o destino que lhes coube em sorte. Sem ambição, nem gula. O altruísmo é automático, derivado do cumprimento espartano.

Não conhecem a cigarra. Fomos nós que lha inventámos. Porque tínhamos de lhes poluir o mundo com uma inveja que não concebem. Com uma moral que não as toca.

Somos nós quem questiona a laboriosa formiga face à preguiçosa cigarra. Nós, que também infestamos o mundo que pensamos que é nosso. Que nos escusamos à comparação com a estirpe de gripe mais violenta. Fugimos à analogia entre a nossa pandemia sobre a Terra e a de qualquer vírus que subavaliamos em intelecto. Não reconhecemos a violência com que debilitamos este nosso hospedeiro, cujo sistema imunológico nos tenta a todo o momento repelir. Oxida-nos os tecidos, invade-nos de natureza, que logo acusamos de doenças, que no entanto não a atingem, a essa Terra-mãe que tudo gera. São essas as suas defesas contra a nossa acção nefasta.

Questionamo-nos as razões de cada missão a que nos propomos. Quantas vezes não encontramos nexo na Ecologia, que nos tenta preservar enquanto não acharmos outro hospedeiro que contaminemos e extorquamos à exaustão. Talvez a Lua... Atrasa-nos o suicídio, que sobreviria se apenas o grupo de recolectores existisse. Sim, continuamos a recolectar tudo o que podemos deste globo, as transformações do que colhemos iludem-nos, como se fossemos capazes de criar. Deuses menores numa acrópole de mentecaptos mecânicos, que se revezam na atitude e no posto, desejando e adorando um pai que nos abandonou há muito.

Deixamo-nos governar pela cigarra. As nossas rainhas não são suficientemente belas, nem têm o monopólio da parição. Perderam assim o poder face ao esplendor do canto e à cristalinidade das asas que aquela ostenta.

A cigarra não tem o poder de avaliar o mérito nem a justiça do destaque magnífico que o formigueiro lhe dedica. Limita-se a alimentar-se do que as nossas hostes laboriosas lhe colocam aos pés em vénias redobradas e salamaleques. Empanturra-se de mordomias, injustificáveis.

Um dia morre.

Mas quando morre uma cigarra é sempre o carreiro de formigas que a carrega, em ombros.

E guardam-na na despensa. E, um dia, banqueteiam-se com ela.



© CybeRider - 2009

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A caixa de música

Pressionei o pequeno troço de metal brilhante. Dei-lhe algumas voltas com os dedos.

Pousei a caixinha de acabamento finíssimo sobre a mesa do boudoir, lacada a negro brilhante, com flores marchetadas por algum hábil artífice. Abri o pequeno fecho da tampa e levantei-a, parte de um cenário coberto a espelhos multifacetados, dispostos em semicírculo. O forro vermelho que cobria o fundo da caixa, tinha cavidades em volta, tinha também outro espelho, circular, ao centro.

A música começara. Uma pequena harpa tocava a melodia celeste que só por si já embevecia. Retirei com cuidado a pequena fada do seu leito e coloquei-a sobre o lago, formado pelo espelho central.

Fiquei a mirá-la, sob hipnose, enquanto revolteava no seu vestidinho de corista, as pernas nuas surgiam-lhe maravilhosas sob o saiote de tule. Os braços em arco sobre a cabeça.

Pim... Pimperlimpipim... Pim, pim... Pim, pim...

Não conseguia libertar o meu olhar do voltear da pequenina figura sobre o seu lago hipotético. Imaginava-me a acompanhá-la, no seu mundo perfeito em que nasceu para bailar nos meus sonhos, adivinhava-lhe o sorriso sereno, da segurança dos passos de dança. Via-a como que saltasse e pousasse em pontas de novo, como que de nenúfar em nenúfar, o que lhe seria possível, sem custo, pela sua virtuosa delicadeza.

Via-me a pegar-lhe na mão e a suster-lhe o corpo elegante no ar, enquanto desenhássemos figuras belíssimas. Eu, do tamanho dela; como via nos bailados clássicos da televisão.

Não bastava a magia da música, tinham de ter inventado uma figura tão linda para dançar, a propósito, para mim.

Tive outras paixões na vida, mas nunca pude esquecer a pequena bailarina, nem a segurança com que volteava no seu mundo, onde nada acontecia sem o acompanhamento da música de corda. Como numa maravilhosa história de amor.

Um dia fechei pela última vez a tampa da maravilhosa caixa. Parti para o mundo à procura da minha própria caixinha de música, onde pudesse exibir os passos graciosos ao lado da talentosa prima ballerina. Vagueei para encontrar o lago brilhante e sereno onde uma fada dançasse em círculos aquele bailado eterno. Gostaria de lhe ter dito quanto lhe invejava a vida maravilhosa e quantas vezes sonhei com o seu sorriso misterioso, tranquilo e seguro. Gostaria depois de a fechar na minha mão, para a poder soltar quando quisesse e vê-la dançar só para mim.

Gostaria principalmente de lhe ter trauteado ao ouvido a música que nunca esqueci. Ela haveria de se admirar e talvez pela primeira vez os seus lábios mágicos se abrissem num espanto, e então, quem sabe, ela me correspondesse a paixão:

Pim... Pimperlimpipim... Pim, pim... Pim, pim...

Quando a voltei porém a encontrar, anos mais tarde, já não emanava a mesma beleza virginal. O vestido de tule estava amarelado, cheio de manchas. As pernas esbeltas estavam raiadas de varizes e máculas escuras. O cabelo desgrenhado já tinha conhecido melhores dias, algumas mechas escondiam-lhe as rugas que o tempo lhe lavrara a cinzel, indeléveis. Reconheceu-me. Apagou à pressa o cigarro e tentou pôr-se em pontas, mas os sapatos estavam rotos. O cheiro a bebida fazia-me antever que mesmo o estereotipado "quatro" lhe seria difícil.

Encostada ao balcão, tirou outro cigarro e ainda me pediu que lhe desse lume. Não lhe dei corda. Mas beijei-a na testa.

Abri a porta ao sair. Como saíra tantas vezes do seu palco radioso. Fechei de vez o pequeno fecho da tampa. Limpei uma lágrima que me saltou para a noite, pelo frio...

Compreendi que nunca poderia fechar a bailarina na minha mão. Nesse dia deixei de procurá-la, e percebi que o que precisava afinal era de uma mulher.

Foi a última vez que abri uma caixinha de música.

© CybeRider - 2009

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Esquerda... Direita... Um... Dois...

Andam a par. Como o sim e o não.

O não que nos afasta do que não queremos. O sim, que nos atrai para tudo o que julgamos merecer.

A esquerda lava a direita e sem a direita a esquerda não se poderia lavar. Repara como se juntam, imagens opostas uma da outra. No entanto são quase simétricas, completando-se neste espaço que é só um. Fazemos nós a destrinça.

Quantas vezes seguramos na direita o que sem a esquerda cairia ao chão. Quantas vezes apanhamos do chão com a esquerda o que a direita recupera, para lhe continuar a dar uso. E todos os possíveis vice-versas.

Nunca abdicaríamos de uma em favor da outra. Não olhamos para a esquerda negando-lhe o valor, nem para a direita como omnipotente. Nem uma está errada nem outra, somos nós quem erra, não elas.

Há quem as junte numa prece, quem as estenda à vez, num pedido de socorro. Nelas confiamos a nossa sobrevivência. Voltamo-las para brincar, dividimo-las em cada dedo que também não negamos. Para nós são sempre um sim. Sempre juntas e carentes.

Com uma e outra afagamos o destino, e distribuímos amor. Comunicamos. Com elas conseguiríamos destruir o Mundo... Sem elas nunca conseguiremos realizar os nossos sonhos mais queridos, nem distribuir o bem-estar, nem concretizar os planos audazes que nos trespassem a ideia.

- Bate palmas!

Uma não faz barulho sem a outra. Sozinhas são inaudíveis, mudas, imperceptíveis. Só ambas fazem sentido.

Apesar disso não se misturam. A da esquerda será sempre "a da esquerda" e a da direita, será sempre "a da direita" também.

Venham falar-me de democracia, como um ideal clubista. Venham falar-me em partidos, e em multidões que se odeiam. Nunca acreditarei que se faça algo de útil sem as duas mãos que se unem. Nunca acreditarei que consiga fazer-me ouvir a aplaudir a uma mão.

Com uma apenas, posso dar um soco, posso disparar uma arma, ou arremessar uma pedra. Preciso das duas para te levantar do chão, preciso das duas para fabricar o pão, para me segurar à árvore de onde colho o fruto, para te salvar de morreres afogado.

Preciso das duas para retirar a mais bela melodia do piano.

Quando me escolhem só uma, deixam-mas atadas. Não estaria completo, porque sempre precisei das duas.

Preciso delas para me lavar a cara. Para me cobrir a vergonha, uma à frente e outra atrás, sem distinção. Com uma apenas consigo esborratar o quadro mais belo e destruir a maqueta que estavas a construir.

As minhas botas continuam a marcar passo: Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois...

E não chego a lado nenhum.


© CybeRider - 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

Manta Beach - Consumo deturpado

O Algarve reserva a magia de atrair vários milhares de pessoas às regiões do seu litoral por esta altura do ano. Para além das praias fabulosas que proporcionam o almejado descanso e divertimento aos que possam usufruir de umas férias merecidas por terras de Portugal, tem também uma vida nocturna cheia de animação, sons e cores.

Novos espaços renascem a cada ano para uma época alta que se espera sustente a aridez económica e social do Inverno. Esta sazonalidade, tão ansiada pelos profissionais do sector turístico e pela restauração, prevista milimetricamente, por quem sabe estar ali a dependência do sustento de famílias e localidades, pode ser desvirtuada por investimentos absolutamente surpreendentes.

Tive ocasião de ser convidado a um desses sugadouros da economia local. O "Manta Beach", na Manta Rota, localidade da freguesia de Vila Nova de Cacela, do Concelho de Vila Real de Santo António. O facto de ser convidado, e consequentemente agradecido, não me pode tornar num sequaz cego à realidade de que um local de culto como aquele, implantado por uma fabulosa máquina de marketing, poderá efectivamente ter um impacte significativo nas expectativas dos prestadores de serviços similares da região, que recordo se enquadra entre Tavira e Monte Gordo; principalmente num ano de crise que já ninguém nega, em que as coisas já seriam difíceis por si. A controvérsia lança-se porém ao apreciarmos o facto pelo lado da ocupação hoteleira, em que este tipo de estabelecimento, com inegável pendor mediático, terá por outro lado um impacte positivo, a avaliar.

À entrada colocaram-me um bracelete amarelo de distinção de classe que não sinto, e presentearam-me com um cartão de consumo e umas lembranças patrocinadas. O ambiente, de casa cheia, estava muito bem frequentado, a noite amena, a música ao agrado mesmo de alguém da minha faixa etária.


Confesso que não me alarguei para além das fronteiras do Vip Lounge e do espaço exterior. Estava lá para me divertir, com amigos, e o teor deste blogue não me permite análise jornalística, daí que não vos possa descrever a roupa da Maya, simpática e omnipresente, nem nomear algumas das outras caras famosas que por lá circularam nesta noite de festa. Para isso existirão os tablóides do costume.

A única extravagância acabou por ser o "Consumo Mínimo" referido no cartão. Nem que seja exagerado. 15 euros, parece-me bastante acessível a qualquer bolsa de veraneio. No meu cartão constava a oferta de uma bebida. Imaginei que teria direito a essa bebida e que poderia escolher bebidas até ao valor de 15 euros antes de ter que pagar mais que esta quantia pelos meus eventuais excessos.

Não é assim.

Na caixa fui presenteado com uma conta que ultrapassava em muito o dobro daquele valor. Ora eu tinha consumido três bebidas que totalizariam 27 euros. Sendo uma de oferta, seria legítimo que eu liquidasse os 15 euros, e o eventual excedente até perfazer aquele montante. Foi-me explicado porém que os 15 euros incluem de facto uma bebida "grátis", mas que todas as outras são pagas à parte. Paguei sem atrito, à laia dos meus bons costumes.

Consultado o meu séquito, verifiquei que a todos tinha acontecido o mesmo facto estranho. Não se tratou, por isso, de um mero engano de um funcionário.

Ora bem, não é pelo valor que me continua a parecer irrisório, mas é pelo conceito moderno e vanguardista de "consumo mínimo"...

Um estabelecimento daquela magnitude não deveria ter de recorrer a estes subterfúgios.

Digo eu...


© CybeRider - 2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ah, Bonaparte! (Parte 2 de 2)

Por esta altura estarão a pensar que não falo a sério.

Pedem-me provas... Pois bem! Não que tivesse de fazê-lo, mas dar-vos-ei as provas que me pedis.

Nasci com vários dons. O primeiro é a Incapacidade Da Ideia Derradeira, daquela ideia com potencial para acabar com tudo. Que, dizem, a imaginação humana não tem limites. Pois a minha tem. Não conseguirei nunca ter essa ideia maldita. Nunca criarei um procedimento ou artefacto capaz de me (nos) destruir.

O segundo é a Incapacidade De Violentar. Assim, não concebo a possibilidade de qualquer acto menos digno para com os que me rodeiam. Para quê? Para viver num mundo de sofrimento? Não creio que houvesse justeza na minha criação, nem que me fosse atribuído um mundo cheio de coisas boas, se eu fosse capaz de o destruir em actos que me envergonhassem perante mim.

O terceiro é a Incapacidade De Subjugar. Devo explicá-lo? Acho que é um dom bastante fácil de compreender...

O quarto é a Incapacidade De Me Glorificar. Mas este não vos fará diferença. A menos que pensassem que vos faria sombra. A minha natureza porém é diferente, não vos causarei obstáculos. Já mencionei a minha incapacidade de interagir com este mundo que me foi destinado, não lhe poderei alterar uma vírgula. Lamento. Peço-vos apenas que não me endeusem. Consequentemente, nunca ouvirão falar de mim.

Surpreende-vos decerto que os meus dons sejam, de facto, incapacidades. Poderá até parecer que misturo conceitos antagónicos. Não é assim. Observai que as capacidades equivalentes estão distribuídas, em porções desiguais, por muitos de vós. É isso que vos torna humanos. Sois os humanos do meu mundo, e tendes a minha compreensão porque os dons que refiro não vos terão eventualmente bafejado.

Cuidai porém, que alguns se fazem passar por mim! A esses, a minha sociedade fecha-os num hospício. Perguntei a um uma vez:

- E vós, senhor? Qual é a vossa graça?

Ao que me respondeu com um pino perfeito.

Se depois de vos confessar isto, duvidas houvessem, pediria que fizessem rapidamente um raciocínio. Que pensassem a quem confiariam qualquer dos bens que, sem ter aprendido por mestres ou manuais, vos afirmei que sou incapaz de violar. Eu tenho a resposta imediata para essa dúvida, se alguém ainda questionasse: a mim!

Dizem-me, porém, que tenho uma doença mortal. E isto deveria ser segredo. Não quero que se saiba que padeço deste mal, que até nem sei se é derradeiro como afirmam, mas já que o disse, e até o aflorei anteriormente... Que não vos cause ansiedade... Padeço de vida! Dizem-me que é fatal. Irremediável. Sinto-a que me consome, a cada dia que passa... Receio, por isso, que o meu mundo possa eventualmente chegar a um fim, e que todos desapareçam. Mas tento resistir. Sei que quanto mais me aguentar, mais tempo tereis para gozar o meu mundo.

Não vos roubarei, nem vos governarei. Isso já há muito quem faça de sobejo, com muito sucesso e pouco senso, mas esses não têm a responsabilidade de ter um mundo só deles, daí que terão o meu perdão. Afinal, que bem poderia eu guardar ou querer para mim, se o que me encanta é a vossa felicidade suprema?... Hei-de admirar-vos sempre o saber, para meu espanto. Nunca vos direi que esse saber de pouco vale, que não alterará o percurso do Universo. O meu pouco saber, o que quer que isso seja, também me é absolutamente inútil, bastam-me algumas habilidades empíricas.

Lamento que alguns de vós nunca cheguem a conhecer-me. No vosso lugar, eu gostaria de saber quem fosse o dono do mundo em que eu estivesse. Mas, talvez seja melhor assim, há coisas que não devem ser reveladas por não aproveitarem a ninguém.

Sempre vos vou pedindo que deixem de pontapear os que julgam sem-abrigo. Um deles, pelo mau aspecto, poderei ser eu, e esse nome nunca me caberá, porque afinal de contas,

O Mundo é meu!




P.S.: Concluo que me estou a evadir da responsabilidade por todas as catástrofes, não necessariamente as naturais, que vos acontecem. Pois bem, como saberão, os dons nunca são atribuídos aos pares. Os meus também não foram. A minha honestidade irrepreensível não me permite que vos oculte a verdade. Tenho um quinto dom! Trata-se da Incapacidade De Ser Competente. A competência transformar-me-ia num tecnocrata que vós não gostaríeis de conhecer. Nessa medida, já sabeis a quem responsabilizar por todos os males que têm vindo ao meu mundo, derivam da minha incompetência em pôr ordem nisto. Esta característica, que também me diferencia de vós, que ambicionais a competência, tem-me impedido de acabar com muitos dos males que condenais à humanidade.

Não o mencionei, porque ainda estou a aprender a lidar com ele.



© CybeRider - 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ah, Bonaparte! (Parte 1 de 2)

Importante foi o dia em que nasci!

Nesse dia criou-se o meu mundo. Quais seis dias e descanso ao sétimo? Não! Foi tudo num ápice.

Eu sei! Afinal, estava lá. Apareceu-me uma mãe, e um mundo inteirinho à minha volta. Alguns de vós apareceram-me aí, espalhados pela vasteza do meu mundo. Outros vieram depois, a somar aos que já havia.

Inventou-se-me tudo o que vos é dado ver, a meados desse dia. Aos que supostamente cá deveriam ter estado, criou-se-lhes uma memória, com parentes e sentimentos, com preocupações e tristezas, como se tivessem de facto existido tais vivências. A alguns inventou-se-lhes uma fé... Nunca aceitariam a realidade.

Nesse dia, num segundo, nasceram, morreram e fossilizaram-se, todos os dinossauros...

A mim, limparam-me tudo o que tinha aprendido. Para mim foi de facto o recomeçar do zero. Daí que não me recorde de vaguear pelo vazio, nem me lembre de nenhum passe de magia que tivesse originado o que vemos.

Essa é a verdadeira maravilha, e o segredo, de toda a criação!

E de repente iludiram-me de que tudo já existia há muitos anos. Criaram-me a História!... Hum... Histórias... Tantas!

Como se fosse possível alguma coisa existir sem eu cá estar! Imagine-se! Quem é que via? Quem é que ouvia? Quem é que tomava conhecimento?

Outros houve ainda... Acho que mos têm roubado, aos poucos, quase sem que dê por isso.

Olho para o meu mundo, para as minhas limitações, para todos aqueloutros que me são impostos, e compreendo que o meu poder de decisão parece relativamente pequeno. No entanto não deixa de ser tudo meu. Assim como quando dou à chave do meu carro, não comando a subida nem a descida dos êmbolos nos cilindros e no entanto eles movem-se. Também os que me rodeiam se movem, para dar vida a este mundo criado de propósito para mim.

Também o meu mundo se avaria. Nem tudo corre às mil maravilhas. Mas... Milagre! Conserta-se sempre por si! Haverá coisa mais fantástica? Nunca tive de reparar coisa nenhuma. É quase assim como se... Tivesse vida! Assim como eu!

Até por isso estamos muito bem um para o outro. Puseram-me cá mas não me incutiram a habilidade de o reparar. Por isso tenho confiança! Sei que todos esses que andam por aí, que povoam o meu mundo e parecem agir de forma caótica e irresponsável, só o fazem para me assustar, para me aumentar a adrenalina, e quebrar a monotonia. Afinal, nada poderá estragar o meu mundo. Eu nunca saberia repará-lo.

Não é um conto de fadas! É a realidade do mundo que se me fez. Não posso trocá-lo por outro, nem todos os que me rodeiam, mesmo sem se darem conta disso, podem evitá-lo. Todos estão dentro deste mundo que é meu.

Gosto de ver como partilho, sem inveja, porque o compreendo, e de forma natural, o meu mundo com todos. Alguns vestem-se de riquezas, e açambarcam cada pedrinha que lhes surja no caminho, outros não conseguem arrebanhar nada. Vivem pobres e infelizes. Não gosto deste aspecto do meu mundo, mas não tenho opção. Foi-me feito assim. Já compreendi que não consigo cobri-los a todos de segurança, saúde e tranquilidade. No entanto observo e faço um esforço para que as minhas ideias piores não os afectem. A indiferença com que me olham, mostra que não sabem que este mundo é meu.

Alguns até pensarão que sou eu que vivo no mundo deles, mas não compreendo essa forma de pensar. Aí começam as nossas diferenças. Eles que não sabem o que são e eu, que sei que eles são meras personagens do meu mundo, feitas à minha imagem e semelhança, para que eu não ficasse aqui plantado sozinho.

Vêm-me com conceitos de justiça que repudio, com ideias de divisão ou concentração de poderes. Hum!... Poderes... Se eles soubessem, que nem eu próprio tenho poderes sobre este mundo, e ele é meu!...

Acho piada quando me limitam a um país e dizem que sou português... Ciente como estou que andei livre pelo espaço antes que me dessem esta esfera para morar. E querem impor-me regras, e limitar-me as fronteiras. Como se pode confinar o dono à coisa? Limitar algo que é de alguém, sem cometer uma tremenda injustiça?

Por isso me nego a aceitar esta rebelião do meu mundo. Não deixo de achar que esta zona geográfica com nome é a minha casa. Deram-ma. Também pudera! Este mundo não foi feito com direito a habitação?... Pois então!... Se tenho o mundo, tenho também uma casa, este espaço rectangular enorme, cheio de gente. Estes têm um linguajar parecido com o meu, pois, fizeram-se-me vizinhos... Escusavam, ainda assim, de me ter povoado a coisa com tanta gente estranha. Afinal ainda só consegui aprender a viver com alguns...

Já não é mau. Podia ser bastante pior. Podiam ter-me colocado junto aos que quisessem acabar comigo... Se calhar alguns querem... A isso chamam eles homicídio!

Posso contar-vos um segredo?...

Se eles me homicidiarem, suicidam-se a eles próprios. Não lhes posso contar... Eles iam ficar tão desiludidos... Talvez até deprimidos, cheios de inveja, por saberem que afinal este mundo é mesmo meu.

Assim, farto-me de rir. Cada um parece mais importante que o outro. Alguns falam-me com voz grossa! Ah! Se falam! Pensam que me assusto... Já não!... Agora que descobri a diferença. Agora que sei o que eles são:

Peças do meu cenário!

Só tenho pena de uma coisa...

Ao ser dono de tudo acabo, eu próprio, por não pertencer a ninguém. E sei que me puseram aqui mas se esqueceram de pensar nisso.

E quanto mais penso, mais me convenço... Isto não é coisa boa...

Alguém deveria tomar conta de mim.


© CybeRider - 2009