Havia muito tempo que não seguia um conselho naquele sentido.
Procurei-a por recomendação.
Uma vantagem das confidências é recebermos em troca conselhos dos confidentes; nem sempre acertados, mas alguns dão-nos que pensar, outros seguimo-los por terem aquela lógica imbatível que nos leva por si ao tapete no primeiro assalto. Este foi assim. Consequência de uma desvalorização de auto-estima a cada dia que passou, do incremento em perscrutar a atenção alheia sobre a minha condição, ainda que ciente de que ninguém poderia pelo olhar desatento avaliar o meu sofrimento, ou mesmo as minhas mazelas.
Entrei. Olhei-a nos olhos e disse-lhe de imediato que, apesar de não nos conhecermos, e sem mais delongas, estava disposto a tirar a roupa de imediato. Olhou-me com um sorriso e respondeu-me que afinal estávamos ali para isso. Não protelei. Despi-me e ela pediu que me deitasse. Senti as suas mãos percorrerem o meu corpo, milímetro a milímetro.
O toque de profissional experiente.
Procurei-lhe o olhar quase a medo, a tentar disfarçar o receio de lhe ler alguma crítica que me incriminasse, alguma insatisfação pelo que ali expunha que me pudesse diminuir à sua observação conhecedora. Estou certo que a minha tensão arterial subiu em flecha, sentia palpitar as veias temporais. Não estou certo se me terá mexido no cabelo; diria que sim, mas os pensamentos voavam demasiado depressa, o receio do desconhecido aumentava a cada fracção de segundo.
Sobreveio-me por instantes a culpa. O juízo apriorístico de que a minha presença ali tivesse como causa algum vício maligno, ou que fosse o resultado de algum comportamento desadequado.
O seu olhar era calculista, desprovido de qualquer sentimento que eu pudesse sondar. Exactamente como eu desejara. As suas mãos continuavam a percorrer-me a pele, já não lhes sentia o frio. O meu temor porém mantinha-se, o seu olhar permanecia insondável.
A minha intenção de pretender apenas satisfazer a minha necessidade, encontrou perfeita sintonia no interesse dela, absoluta e inequivocamente profissional. Dois perfeitos estranhos. A nenhum interessava que aquele momento pudesse ser mais que um mero encontro fortuito, irrepetível.
Vesti-me, paguei.
Afinal, não tenho com que me preocupar, trata-se de uma afecção benigna, talvez causada pelo Inverno estranho a que a minha pele não se terá ajustado.
Receitou-me alguns medicamentos e tratamentos a cumprir a rigor. Tenho nova consulta dentro de uma semana.
Mas já estou melhorzinho.
© CybeRider - 2010