Outro dia, outras gentes.
No meio dos outros que variam e derivam à minha volta faço muitas vezes os mesmos percursos. Mesmo as grandes superfícies acabam por ser tradicionais, neste meio-termo de cidadezinha de província em que a minha se torna de Inverno. Já conheço a maioria daqueles que me fanatizam, talvez, sem saberem que afinal sou eu que sou fã deles. Se soubessem o quanto custa arrancar-me aquele sorriso que lhes entrego de graça, saberiam como preciso deles para manter a minha sanidade. Saberiam que são saudades verdadeiras o que sinto quando passo pelas duas tabacarias, pela farmácia, pelos dois supermercados, estes quase iguais, mas com caras diferentes às caixas que ocupam, essas pessoas de quem preciso.
Gosto de pensar que me fanatizam quando me perguntam se quero o habitual. O habitual sorriso deles, a afagar-me a alma, quero. O habitual meio-minuto de olhar terno, quero. O habitual olá-então-está-bom, quero. De saco meio-cheio das habituais coisas boas, acabo por pegar também no pacotinho de tabaco e lá venho feliz da vida, mantendo por minutos o sorriso daquela menina loira, estrangeira, linda, com o seu sotaque na voz doce, como um beijo que eu talvez não mereça, mas que me concede; privilégio que a família, lá a milhares de quilómetros, não tem. Ou da patroa, que me viu poucas vezes mas que me trata por seu querido, como se vivesse ali comigo um minuto de um romance intenso sem se preocupar com eventuais ciúmes do marido, que respeito por mim e por ele sem conhecer, palavras que ouço já sem embaraço mas que estimo pela teatralidade que me impele para uma personagem de outra história, como se fossemos ainda dois adolescentes belos a partilhar um segredo, eu e ela, e sonhos que ainda pudéssemos ter por concretizar.
Não sei resistir à loucura álacre destes estímulos que viciam. É sempre inebriado que acabo as compras, sem querer saber ao certo se eles irão dali para casa, ou para os copos com os amigos, como posso ir eu. Para mim eles pertencem ali, cada um no seu quadradinho, eternos e absolutos. Desde a gordinha mais eficiente e simpática que um estabelecimento comercial pode desejar, que com um profissionalismo exemplar e uma inteligência no olhar que nos trespassa, me enche os sacos de plástico com as compras enquanto procuro as moeditas para a quantia certa no fundo meio roto da carteira, sem saber ao certo se aquela que me salvaria a honra de consumidor exemplar não terá já executado a sua fuga premeditada; ao rapaz de cabelo à moicano que insiste em separar sempre o saco dos detergentes do dos produtos alimentares e que executa as contas a uma velocidade assaz alucinante. Sim, escolho-os pela aptidão que me satisfaz no momento, ou às vezes só por uma estranha saudade, mesmo quando a tabacaria esgota o tal tabaco e tenho de levar do outro, ou ainda que tenha de passar o dobro do tempo na fila. Fanatismo é isso mesmo, ainda que quem não o sinta possa não compreender.
Se eles verdadeiramente me fanatizassem a mim um pouco, só um pouquinho que fosse, talvez pudessem imaginar tudo o que sinto por todos eles…
© CybeRider - 2011