segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Puro fanatismo

Outro dia, outras gentes.

No meio dos outros que variam e derivam à minha volta faço muitas vezes os mesmos percursos. Mesmo as grandes superfícies acabam por ser tradicionais, neste meio-termo de cidadezinha de província em que a minha se torna de Inverno. Já conheço a maioria daqueles que me fanatizam, talvez, sem saberem que afinal sou eu que sou fã deles. Se soubessem o quanto custa arrancar-me aquele sorriso que lhes entrego de graça, saberiam como preciso deles para manter a minha sanidade. Saberiam que são saudades verdadeiras o que sinto quando passo pelas duas tabacarias, pela farmácia, pelos dois supermercados, estes quase iguais, mas com caras diferentes às caixas que ocupam, essas pessoas de quem preciso.

Gosto de pensar que me fanatizam quando me perguntam se quero o habitual. O habitual sorriso deles, a afagar-me a alma, quero. O habitual meio-minuto de olhar terno, quero. O habitual olá-então-está-bom, quero. De saco meio-cheio das habituais coisas boas, acabo por pegar também no pacotinho de tabaco e lá venho feliz da vida, mantendo por minutos o sorriso daquela menina loira, estrangeira, linda, com o seu sotaque na voz doce, como um beijo que eu talvez não mereça, mas que me concede; privilégio que a família, lá a milhares de quilómetros, não tem. Ou da patroa, que me viu poucas vezes mas que me trata por seu querido, como se vivesse ali comigo um minuto de um romance intenso sem se preocupar com eventuais ciúmes do marido, que respeito por mim e por ele sem conhecer, palavras que ouço já sem embaraço mas que estimo pela teatralidade que me impele para uma personagem de outra história, como se fossemos ainda dois adolescentes belos a partilhar um segredo, eu e ela, e sonhos que ainda pudéssemos ter por concretizar.

Não sei resistir à loucura álacre destes estímulos que viciam. É sempre inebriado que acabo as compras, sem querer saber ao certo se eles irão dali para casa, ou para os copos com os amigos, como posso ir eu. Para mim eles pertencem ali, cada um no seu quadradinho, eternos e absolutos. Desde a gordinha mais eficiente e simpática que um estabelecimento comercial pode desejar, que com um profissionalismo exemplar e uma inteligência no olhar que nos trespassa, me enche os sacos de plástico com as compras enquanto procuro as moeditas para a quantia certa no fundo meio roto da carteira, sem saber ao certo se aquela que me salvaria a honra de consumidor exemplar não terá já executado a sua fuga premeditada; ao rapaz de cabelo à moicano que insiste em separar sempre o saco dos detergentes do dos produtos alimentares e que executa as contas a uma velocidade assaz alucinante. Sim, escolho-os pela aptidão que me satisfaz no momento, ou às vezes só por uma estranha saudade, mesmo quando a tabacaria esgota o tal tabaco e tenho de levar do outro, ou ainda que tenha de passar o dobro do tempo na fila. Fanatismo é isso mesmo, ainda que quem não o sinta possa não compreender.

Se eles verdadeiramente me fanatizassem a mim um pouco, só um pouquinho que fosse, talvez pudessem imaginar tudo o que sinto por todos eles…


© CybeRider - 2011

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Conto de Natal

Havia uma altura do ano em que tantos tinham o mote para o que havia de ser a redacção mais emotiva do ano, a habitual exposição dos momentos mais ou menos mágicos, das suas consoadas de meninos, aos olhos coscuvilheiros de colegas e mestres.

Uns, sem imaginar que o barrigudo de vermelho provinha da publicidade americana a uma bebida proibida pelo regime, outros que acreditavam também num Jesus, Menino, que trazia prendas, e aqueles que já saberiam por esses dias que teriam de inventar tudo outra vez.

Para mim, ainda acreditava na magia das bugigangas que o céu haveria de trazer e que seriam pedaços de paraíso que espalharia pela cama naquela das noites mais bonitas do ano, se me portasse bem. Nessa altura nunca teci juízos acerca da importância que poderia ter, para a Dª. Graciete, a tal redacção natalícia, nem para ela nem para o tal regime que nos privava do tal refrigerante e de outras coisas mais prementes que eu, ainda sem teima, desconhecia por inexperiência, mais que desatenção. Ainda não tinha ouvido que o Natal seria quando um homem quisesse, por isso aquele relato escrito me parecia um dever, talvez mesmo cívico, mais que uma fonte estatística para o mestre e um sensor económico-social do regime que refiro, aqui já em exacerbo do meu espírito crítico, talvez. Há muitos anos que deixei de saber se ainda se faz a redacção por essa altura. Este ano porém a coisa já me seria mais fácil.

Ainda a tentar recompor a minha fé nos homens, ainda a tentar remendar a compreensão para com os marginais à força ou por falta de tino, ainda a tentar repor, com similares raros e sem história, objectos que me acompanharam uma vida, e cujas memórias que encerraram constituíam uma fonte de inspiração, alarvemente subtraídos por quem apenas viu objectos e o único valor que para mim não tinham, fui abordado por um homem com fome.

A fome é pungente, principalmente quando o sistema que acreditamos que a poderia combater é tão subvertido como vamos tendo a noção de que o é. Pactue-se ou não com a caridadezinha inútil mas exorcizante, perante o facto há sempre a alternativa mais fácil, mas que deixa sempre uma farpa, e a mais complexa que pode não encher barriga nem aquietar as almas mas que difere de cruzar os braços em forma de manguito. Num dia em que optei por esta, saiu-me em sorte este estrangeiro que não vi até que se tornou impossível não ver, ao lado do meu almoço extinto, de chinelos apesar da chuva e meias ensopadas, e com o olhar de quem já perdeu a esperança no apelo automático a que a repetição já vai levando também a contundência.

Aos filhos fazemos muitas vontades, por ele levantámo-nos da mesa, naquela casa onde o outro era um indesejado, e fomos. Três homens à chuva; afinal quatro, a contar com o velho de muleta que tinha ficado a aguardar do lado de fora pelo dinheiro que os únicos clientes daquela sala teimaram em não lhe dar. Pelo caminho recebi votos de “bom natal” por cada impropério que me ocorria a maldizer o dia em que aqueles dois tinham saído de uma terra longínqua para outra onde tantos meus conterrâneos na mesma circunstância saberiam pelo menos compreender o que lhes dizia, contra o adequado português de iniciante que aqueles tinham aprendido. Por momentos cheguei a imaginar que mau teria sido o meu começo se a Dª. Graciete me tivesse iniciado pelas palavras que aqueles dois repetiam na perfeição.

Pior foi o confronto com as febras e arroz, o melhor prato do snack-bar onde entrámos, à parte da tarte de vegetais que também não lhes agradava. Aí, compreendi o pedido de frango que eles repetiam, mas que era mais longe e com mais chuva. Todos os outros pratos quentes tinham carne de porco. “Somes muçulmano”… Búlgaros do raio que os partisse! Lá se decidiram pelas febras. O funcionário, mais simpático que a senhora que veio da cozinha a dizer que não os queria ali, mas a quem as minhas duas, vá três, palavras sibilinas acalmaram, ainda perguntou se eu queria que ele juntasse esparregado, mas eu disse-lhe que não, já que era para deitar fora, que fosse só assim; sei lá o que é que os “muçulmano” iam achar daquela coisa verde peganhenta.

Repetiram o “bom natal” que eu recusei por na religião deles aquilo ter significado nulo. Mas aprendi que eles deveriam ter a minha religião, porque a deles ainda lhes enche menos a barriga que a minha.

Ah! E também que Maomé e Salazar tinham mais em comum do que eu pensava.

© CybeRider - 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O valor de um amigo

Faltei-lhe ao casamento.

Não, já não foi ontem. Foi há muitos anos.

Ainda me pergunto como fui capaz. Afinal, já nos tínhamos comprado um ao outro com tantas confidências. Pequenos negócios a início, como que a testar a fidelidade entre cliente e fornecedor. Riscos maiores depois, aos poucos, enquanto crescíamos no poder da idade. Tínhamos mesmo investido já, um no outro, algumas vezes a fundo perdido, aquela paciência e atenção que só dedicamos aos melhores. Ambos sabíamos que um bom cliente, como um bom fornecedor merece, de vez em quando, uma atenção.

Escolhemos os amigos como produtos exóticos, ou como bens em segunda mão. Com propriedade, diria. Todas as cautelas são poucas, como se soubéssemos antecipadamente o valor do que estamos prestes a depositar nas suas mãos. Pouco, decerto para muitos; imenso, quando se trata das nossas próprias emoções e sentimentos, ainda que possamos não ter uma justa consciência disso.

Até não gosto particularmente de casamentos. À parte do banquete habitual, pouco há ali que me comova. Quando se trata de um amigo porém, de um dos verdadeiros, daqueles com quem já temos uma larga experiência negocial de trocas e destrocas de atmosferas, aí existe de facto um dever. Pode tratar-se de um momento difícil, encoberto naquela teatralidade de festa e exuberância. Daí que o recorde. Falhei-lhe num momento vital. Não deve ser apenas nos bons momentos, afinal, que o amigo deve estar presente. Nestes, de incerteza, também.

A vida trata de nos suprir, como numa imensa montra, com os potenciais amigos que podemos ter. Nunca nos dá um exórdio que nos diga por onde aquela pessoa passou, se terá defeitos decorrentes de uso prolongado, ou se será eventualmente perniciosa para a nossa integridade após ingestão, como um fruto tropical que nunca tenhamos visto. Daí que o risco possa ser grande, mas haverá algo que nos aproxima, mais um mistério talvez, e que nos leva àquelas trocas em espécie que referi no início. Com a habituação acaba por vir a confiança e a recíproca lealdade.

Recordo-me que envidei todos os esforços para que naquele dia não faltasse. Dizem que não há ninguém insubstituível. Para ele, e para um compromisso profissional inadiável, eu fui insubstituível naquele dia, e optei. Nesse dia o poder do dinheiro falou mais alto e comprou-me por um valor irrisório, em abono de um futuro, por definição sempre incerto.

Compramo-nos e vendemo-nos aos amigos numa potencialmente infindável troca em espécie. Não há dinheiro que possa substituir essa troca. O dinheiro tem no entanto uma estranha capacidade expurgante; quanto mais se recebe mais solitário se fica. Não sendo necessariamente uma contrariedade, não deixa de ser uma condição. Há um equilíbrio ténue e insofismável entre o que podemos ganhar e aquilo a que podemos dar-nos ao luxo de perder em cada arbítrio. 

Encontrámo-nos uma única vez algum tempo mais tarde. Partilhámos uma hora de almoço em que me contou imensas anedotas, em disfarce de tudo o que poderíamos ter dito. Ouvi-o atentamente. Não houve uma troca autêntica, antes uma declaração unilateral de despedida, encoberta pelas piadas que senti com amargura, incapaz de lhe responder, por compreender a profundidade daquela demonstração de superficialidade para mim irreconhecível. Mudou de casa pouco tempo depois, ao que soube.

Não há maior pobreza que não ter senão, e apenas, o dinheiro; mas pior ainda se for pouco.

Apesar disso duvido que no meu lugar ele não tivesse feito a mesma coisa. Teria havido porém uma diferença abissal:

Eu era muito pior que ele a contar anedotas.


© CybeRider - 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A feira e o circo

Nasci em plena feira.

Contam-me que tudo era muito caro, apesar de haver brinquedos, farturas e algodão doce, tinha de me contentar com pouco. Nem sempre pude ter os brinquedos que via nos outros meninos. O meu pai era feirante e a minha mãe limpava a tenda e mantinha-nos a logística.

Foi assim durante muitos anos. Tudo funcionava muito bem. Cada feirante visitava as tendas dos outros e pagava para poder ter o que quer que fosse. Havia barracas para tudo, houvesse dinheiro e nada faltaria. A rotação do capital mantinha o sistema. O meu pai pagava pelas farturas, pelos carrinhos de choque, e por algum brinquedo que os trocos sobrantes pudessem comprar. Por sua vez os outros feirantes pagavam pela força de trabalho do meu pai, e assim éramos todos felizes, pelo menos pensávamos que sim. Nesse tempo não havia tantos palhaços nem acrobatas, pelo menos ali na feira. Era tudo gente ordeira e cumpridora, muito ignorantes é certo. A educação também era muito cara, só alguns lhe podiam chegar, e essa era a fundo perdido daí que, pelo retorno invisível a curto-prazo, fosse preterida em benefício da labuta diária. Cresci habituado a ter de comprar bilhete para tudo. Se queria uma volta de carrossel tinha de tirar bilhete, se queria dar um tiro na tenda dos alvos tinha de tirar bilhete, se queria assistir ao espectáculo da mulher barbuda também.

Um dia chegou o circo à feira. Era um adolescente nessa altura, mas ainda me lembro. Todos ficaram muito felizes. As pessoas gritavam, aplaudiam, sei lá...

Nesse dia vi coisas que nunca tinha visto, os meus olhos espantados abriam-se perante a visão de animais exóticos, palhaços multicolores, acrobatas que me pareceram absolutos super-heróis. A princípio foi uma grande confusão, mas com o passar dos dias comecei a perceber que o circo era uma coisa boa. Pagava só um bilhete e tinha acesso a todas aquelas maravilhas. Podia admirar os palhaços, sentado na bancada comum, assustar-me com os ursos e com os leões, apaixonar-me livremente pelas trapezistas, sonhar com as habilidades dos ilusionistas, espantar-me com as manobras arriscadas dos acrobatas.

Mudei-me definitivamente para o circo. Os meus pais também eram admiradores confessos. Mudámo-nos todos. A minha mãe, que antes era responsável pela logística, continuou a sê-lo mas arranjou igualmente um número só dela, também no trapézio. O meu pai era um artista no arame.

Permanecemos assim durante muito tempo. Cresci e tornei-me num saltimbanco multifacetado, palhaço nuns dias, malabarista noutros, menos hábil ilusionista, mas lá tentava a minha sorte. Continuava a pagar bilhete para assistir ao espectáculo, mas era mesmo assim. Todos pagávamos para que todos pudessem assistir. Não havia borlas, mas havia justiça, e de vez em quando tínhamos direito a um algodão doce. Um bilhete, de valor idêntico para todos, dava-nos acesso a todas as diversões. Nada nos era vedado. Foi o mais próximo que estive de um autêntico sentimento de liberdade.

Havia o conforto daquele imenso toldo a proteger-nos da chuva e das intempéries. Deixei de andar com os pés nus e gelados dentro das poças de lama suja.

Um dia disseram-me que tinha de pagar para usar a pista dos carrinhos. Era um estranho, um palhaço, este tinha umas pinturas tenebrosas que não me fizeram rir. Tive medo, ele não era o dono do circo. O circo era nosso. Fiquei muito triste, porque de repente percebi que alguém estava a tentar roubar-nos o circo e acabar com todas as maravilhas que levámos tantos anos a construir. Se vamos começar a pagar por cada coisa de que necessitemos, mais vale que nos tirem já o toldo de cima e me desfaçam as ilusões.


© CybeRider - 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Aprendiz de feiticeiro

-Escreve mais!

E eu escrevia. Mais uma linha, mais um conto e o consequente ponto. Mais um pesponto e uma cruzeta, mais uma volta e meio laço, mais um enlace e um nó, preso à garganta, como um atilho gasto e untuoso; uma forca, era mais isso.

Apertava-me o mundo ao torso, ligava-me à seiva dos vivos, a caminho para a morte anunciada, mas por verificar.

-Escreve mais!

E a caneta deslizava, como se tivesse vida, como se corresse a pedir socorro enquanto se esvaía pela alvura sem saber que vinha alguém atrás para interpretar o derrame, mas sem ganas de lhe estancar a sangria.

Eu corria atrás dela, a admirar-lhe as piruetas, antes mesmo de conseguir que os meus pensamentos me gritassem:

-Escreve mais!

Mas num tom diferente. Este, mais ditatorial, menos paternalista; soberano.

E lá ficava o relato do dia em que o Jorge me tinha contado como tinha encontrado a mulher à espera nas Caraíbas, enquanto ele pensava que ela tinha acreditado que ele tinha ido passar o fim-de-semana com o Pedro, para relaxar com a pesca na albufeira. E o Pedro a olhar para ele atemorizado, lá nas Caraíbas, no local mais improvável para encontrar algo que ainda não se tenha perdido.

Um parágrafo adiante, já o Jorge sem mulher, repetia-se a história. Desta vez foi o isqueiro que lhe apareceu na mesa do bar, também nas Caraíbas, que fixação a do Jorge. O isqueiro que tinha perdido, ali pegado à mão do Pedro, ao lado da Marguerita...

Adiante. Segue-se o Jorge, sozinho nas Caraíbas...

A pensar na mulher que pensava que não tinha perdido e que acabou por perder; o isqueiro que tinha perdido e que acabou por encontrar; o amigo que tinha um dia encontrado mas agora, pelo isqueiro, perdido para sempre; e no Pedro, esse, que tinha afinal encontrado a mulher que ele, o Jorge do conto, perdera antes ainda da primeira ida para as Caraíbas.

-Escreve mais!

E a caneta a esvair-se, no único destino que lhe poderia ser fatal: aquela folha lívida de espanto, expectante pelo que lhe ia sendo aos poucos revelado. A minha mão criminosa a delatar, a tecer considerações promíscuas sobre o que não me pertencia. Sempre a intrusão sentida a impelir-me a consciência a ditar-me a um adequado silêncio a que teimava em negar-me.

E eles a pedir que escrevesse. Mais... Mais... Mas os olhares perdidos sobre as suas vidas, que observo e relato, levavam-me a crer, enquanto a caneta se desfazia em reviravoltas, que afinal não eram pedidos sinceros. Porque haveria alguém de desejar que eu contasse mais contos e somasse mais pontos aos que já lhes assinalavam as faces circunspectas?

Mas por nada importar a ninguém se impunha a minha necessidade, sempre amante do efémero.

Um dia um amigo perguntou-me:

-Porque escreves tu?


E fiquei a pensar como seria a minha vida se não tivesse aprendido.




© CybeRider - 2010

sábado, 17 de julho de 2010

O primeiro voo do albatroz

Ao Mário Rodrigues que encontrou um aviãozinho de papel


Um dia peguei nele e deixei-o sozinho no meio do mundo.

Já não havia a minha força a embalá-lo e a subtraí-lo à chuva. Voltei para as coisas, simples, pequenas e fugazes, como penugem, a recordar-me que todo o significado da minha vida estava ali para trás, a cada metro de cada quilómetro que ia somando a noite à distância, se pudesse ter olhado para trás já não o veria, nem conseguiria prosseguir. O caminho árduo que conduzia ao meu destino embaciava-se agora com frequência. Finalmente parei, a uma distância que, por segurança, já tornava difícil o retorno. Parei, esfrangalhado.

Foi assim que ele abriu as asas e voou, pela primeira vez. Foi dos dias mais tristes da minha vida, e no entanto a felicidade teria mais lógica, a irracionalidade é por definição inexplicável. Ainda sinto que fui eu quem o empurrou do penhasco, embora todos me digam que não, que aquele acto de pura loucura foi o que havia a fazer, que isso era o bem, a norma, afinal . As asas, essas, eram só dele. A fé no seu voo terá sido minha, minha... Que nem sou um homem de fé. Onde arranjei a coragem? E se ele, a meus olhos implume, não tivesse conseguido? Que tremenda imprudência! A única, a fundamental. Todas as outras são brincadeiras a comparar com aquela cedência que cumpri sem reflectir. Se reflectisse ele não voaria, talvez nunca, e um dia já não saberia voar sozinho.

Mudou-se o centro do universo, que antes via agarrado ao meu umbigo,  mas agora só posso imaginar. As primaveras deixaram de ser só uma vez por ano, mas os invernos também. No entanto recordo que também eu abri um dia as minhas asas frágeis e me atirei desse penhasco, esfrangalhando, como compreendo agora, tudo e todos.  

É a sina de quem não conseguiu transformar o mundo num lugar seu, de quem se limitou a construir um pequeno quadrado inóspito e dependente. Culpei-me, naquela paragem forçada, por cada passo mais imprudente e por cada decisão mais conformista e inerte. Se, se, se... Tantos ses que me davam a possibilidade daquela partida precoce poder ter sido adiada, e todos a colocarem-me no cerne daquela consequência. Nenhum sofrimento por antecipação que me tenha ocorrido me aliviou sequer um pouco do peso que, embora não se compreenda, acaba por se carregar, porque deriva de termos falhado na conquista suficiente do reino onde a nossa lei seria a medida da protecção que queremos para o nosso clã, que entregamos assim aos verdadeiros senhores do universo, e às suas questionáveis leis, que nos submetem também a nós.

Compreendo que é essa vassalagem que me consome, como nem consumiu Abraão ao entregar o seu filho a um deus. É uma troca injusta porque nada tenho a pedir que me sirva, nem protecção divina que houvesse, porque toda a que quero é só para ele, nada justifica tamanho desequilíbrio. Naquele momento entreguei ao incerto o somatório de tudo o que fui e a continuidade que justificará, para o bem ou para o mal, o pó em que me tornarei. 

Passa um ano e outro, cada um não me apazigua a saudade que sinto de cada vez que ele inicia um novo percurso, ainda no momento da partida; nem o temor do momento em que o vejo tentar cada nova aterragem por que anseio, ainda bambaleante, depois de cada longa permanência perscrutando o céu infinito, que apenas adivinho.

Voltando ao ponto de partida, é a penugem que já não consigo olhar. Tudo permanece como que a aguardar que o tempo se inverta e que ele volte para brincar com as quinquilharias desvalidas que para mim são autênticos tesouros, fechados naquela arca, que chegou a ser um quarto, agora mero poleiro, de onde desejo, com frequência, perder a chave de vez.

A esperança que resta é de que a sua liberdade, que muito me apraz, lhe dê, a ele ou aos descendentes, a possibilidade de zelar melhor pelos seus e pelo seu universo, para que não tenha de abandonar um dia no meio do mundo alguém que seja parte integrante de si. Mas sei que peço o inexequível.

Sendo essa provação absoluta e incontornável, sei que no dia da dele, esteja eu morto ou vivo, também assim me realizo.


© CybeRider - 2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Reencontro no Verão

Não via o António há imensos anos. Encontrámo-nos por circunstancialismo de intenções. Lembro-me dele quando partiu, deixando para trás tudo o que afinal não lhe pertencia, e quase tudo ao que ele pertencia também.

Fomos os melhores amigos e mais figadais inimigos, numa amizade perfeita. Partilhámos as mais intensas alegrias e conspurcámo-nos de vilezas que nunca foram maus-tratos, antes apontamentos pedagógicos de vida. Um dia levou-me, sem pecado, a namorada. Casaram, éramos muito jovens, faz muitos anos. Se não me falha a memória foi desde essa altura que deixei de o ver.

O António, diante dos meus olhos, é uma pálida sombra do António que conheci. O riso franco é-lhe bastante mais raro, carrega o sobrolho com mais frequência, desapareceu-lhe do semblante um certo brilho que nos cativava com facilidade. Ganhou a desprimor imensos quilos. Cheio de cabelos brancos, é como se o tempo o tivesse coberto de pó e aguardasse agora, grosso modo e mutatis mutandis, um espanador que lhe reponha o lustro de antigamente. Deixou de contar anedotas. O olhar, antes penetrante, tem agora matizes melancólicos ou talvez nostálgicos e vagueia-lhe ocasionalmente durante a nossa conversa, como se já lhe tivessem passado diante todos os temas do mundo. Mantém o tique de ir acariciando os dedos enquanto vamos falando, num acto masturbatório, imperceptivel.

Ainda lhe sinto uma fidelidade genuína. Por isso recebo como um bofetão a afirmação de que tem uma casa de putas; sinto-lhe um nervosismo repetente, um pequeno engasgo, na espaventosa afirmação, como se já o tivesse dito tantas vezes mas nunca lhe saísse a limpo. Tento o: mas logo tu um gajo casado e pai de filhos. Tento afinal: repor esta noutra realidade, atrasar o relógio para uma verdade que não seja aquela. Tento: dissuadi-lo do que afirma ser genuíno, como se quisesse eu que no meu mundo aquele facto fosse uma mentira, um pesadelo. Não, António. Tento o: tu não podes estar a afirmar que participas nessa aberração social que potencía a degradação humana. Digladiamo-nos em palavras, ele tenta convencer-me de que estou a ver mal as coisas, pede-me outro prisma que transforme as cores do que acabamos de constatar: a minha repugnância conservadora face ao seu conformismo vanguardista. Por momentos revivemos uma franja de passado. Outra dialéctica, em que desta vez só eu sinto como se lhe vivesse na pele, ele tenta sair da minha, o que também é inovador. Por momentos agonio-me. António… Sinto que o abandonei, sinto-me culpado das suas escolhas. O coração matraqueia, um, dois, três, respiro fundo.

Seguro as entranhas agarradas à frivolidade do inconcebível, divirjo para o dinheiro, garante-me que é o mais mal sucedido dos chulos. António… Quase não te encontro.

Que tenta que elas fiquem com ele o mais tempo possível, que elas não o poderiam fazer sozinhas, que ele é quem conhece os clientes e lhes sabe também os gostos, que é ele quem determina qual a que os irá servir nos seus desejos mais secretos pelas indicações programáticas e disponibilidade casuística, que só ele poderia justificar o porquê, que tem uma carteira de habituais, que é ele quem as dispõe e que as entrega, que as enfeita e que as encanta, que as leva aos cuidados necessários quando algo corre mal, que as defende dos vilões que querem lambuzar-se sem pagar, que as recupera no fim do prazo, que as protege de meliantes que as provoquem enquanto esperam na rua, que lhes resolve acidentes e incidentes, que não as ama, que lhe são meras ferramentas, mas que o dinheiro é quase todo para elas e para a logística, que lhes lava as costas e que as enxuga depois do banho, que é ele quem trata das suas meninas, com quem pode até dar uma voltita ocasional, sem desprimor pelo casamento sólido, que o filho pensa que tudo o que ele faz é limpo e exemplar, que nunca quereria que o filho lhe seguisse o exemplo, que ama a companheira e o miúdo acima de tudo o que na vida reste.

Por momentos penso que o António tem a melhor profissão do mundo, com aquela estranha casa de putas que ele acarinha sem amar, mas caio rapidamente na realidade; a sua voz é afável, não lhe imagino a boçalidade nem a força interna tenebrosa que reúna para enfrentar os dissabores que descreve, e de repente vejo que talvez seja afinal, aquele ofício, o pior de todos para ele. Pergunto-lhe se precisa daquilo para viver. Atira-me ao tapete com a afirmação de que o faz para manter a dignidade, que a vida assim quis, que não sabe fazer mais nada.

Pergunto-lhe onde passa as férias, mas afinal não tem, pergunto-lhe pelos fins de semana, mas afinal também não, porque não pode abandoná-las nem às marcações nem aos horários nem ao cunho pessoal que dá ao negócio, nem ao telefone; claro que não. É afinal a lealdade que lhe conheço, aqui levada a extremo. Pergunto-lhe o que diz à família e aos amigos e é aí que lhe perco de vez os olhos, que ficam pelo chão de repente profundo e negro.

Ele responde, não sei.

Não compreendo, em boa parte, o António. Mas acabo por compreender, a muito custo, no meio do discurso intrincado, que um meio de vida pode não ser, afinal, senão uma casa de putas que o destino nos entrega para gerir, e cabe-nos fazê-lo da melhor forma que pudermos.

© CybeRider - 2010