sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Quase nada

Preciso só de um bocadinho. Pouco, poucochinho, como se não fosse nada, quase nada. Uma pequena porção de quase tudo mas numa ínfima dimensão, à minha medida. Que pequeno vou ficando; à medida das porções que me calham, diria. Foi por mim que se inventaram os diminutivos, todos eles pequeninos; à medida dos dias que se me vão encolhendo. Como este país, este povo que me olha sem me ver; meu, mas para quem não existo, a não ser para alguns muito poucos, poucochinhos, como eu. 

Também os desabafos se me vão esvaindo, poucos e pequeninos. Há quem desabafe em catadupas de resmas, eu desabafo em poucas linhas, um romance seria impensável. Recordo-me de quando me sento com alguém que me começa a contar algo sobre qualquer assunto e eu a resumir, a pensar qual a razão de tanta pontuação, tanto parágrafo, que pares, não me contes a tua vida desde pequeno, é igual à minha, pequena afinal; poucas linhas, é tudo o que me interessa, diz-me só o que quero saber, que é tão pouco, deixa o resto, é excessivo extravasa-me; mas calo-me, num silêncio pequeno que ninguém escuta senão eu. Um silêncio à minha medida afinal. Não acho interessante que me digas que, dantes, quando bebias se te rebentava a boca e que, agora, quando bebes se te rebenta o cu, espanto-me mas fica-me o apontamento, essa parte que não me interessa pode vir a interessar-me, guardo-o, como um parafuso solto na caixa de ferramentas, uma sobra que poderá um dia segurar algum alicerce de alguma obra, pequenina também, decerto; esboço um sorriso complacente, desta vez ouço; o resto não me cabe na caixa de ferramentas, deixa, não insistas. De repente apetece-me beber, beber até rebentar por uma costura qualquer, até que verta pelos poros, ainda que poucochinho sem ensopar, apenas uma humidadezinha exígua e purulenta, enojante como qualquer coisa desprezível e humana, pequenina afinal.

Vem-me de súbito à memória aquela dor de ventre, aquela em que corro num desespero de condenado e encontro a porcelana mesmo a horas de não passar um embaraço. Sem pensar na insanidade que é o facto de algo tão natural me condenar a esse tal embaraço, atiro-me a ela, à tal porcelana, sem pensar como seria a minha vida sem um pequeno pedaço de porcelana nessas horas inconvenientes; qual marca? Não é Limoges, é simples e plebeia, como eu, será que alguma vez fui Limoges? Se fui já estou no quintal cheio de ração para o cão, passei de moda. Há cães que comem em Limoges, e homens que comem em malga de plástico. O importante para mim é que coma, chega-me.

Nunca posso ter sido Limoges, se o tivesse sido estaria agora melancólico e deprimido, ou apenas partido em cacos, deitado ao lixo, sem servir nem para a ração do cão. Sou mais malga de plástico, que se vai arrastando pelo chão cimentado, por cima de um ou outro excremento, riscada, sebosa, mas que perdura em desafio ao sol e à chuva. De vez em quando levo com a ração em cima e vivo das lambidelas do cão, são elas que justificam que não me deitem no lixo, se o cão morre nada me salva. Plástico à parte, somos assim como a porcelana, uma destina-se ao castigo, outra para aparar os requintados manjares de príncipes. Tudo porcelana e no entanto a diferença inexplicável, será a forma que nos destina? Ou antes o destino que nos dá a forma? Tu és sanita, e tu uma terrina delicada.

Então, senhor António, hoje só leva dois papo-secos, isso não é poucochinho?

Poucochinho sou eu, mas não digo, calo-me e vou andando, de mansinho. Nunca fui capaz de nada grandioso que me livrasse desta pequenez insignificante. Desta humildade mesquinha e tacanha que me impele para as profundezas da simpatia embirrante e peganhenta que me atabafa e me consome, incapaz de me libertar acabo por simpatizar com tudo o que me odeia, e odeio-me a mim próprio por isso. Mas é um ódiozinho imperceptível, insignificante que nem medra nem se consome.

Pudesse eu voltar a ser mulher, que todos o fomos um dia até nos terem separado dessa carne milagrosa, o eterno desejo de recomeço; a inexplicável natureza, que me torna fruto da insanidade que subjaz à ideia de que uma cebola pudesse alguma vez ter parido uma batata; ainda que fosse pequenina seria grandiosa, assim sou quase nada, não tenho essa maravilhosa capacidade de instigar o prazer e a dor conceptuais que todas elas têm. Agora, é tarde demais. 

No fim do tempo há-de bastar-me apenas um pouco de morte, não me deixem muita, só um bocadinho basta, e uma terrinha, uma florzinha, um bocadinho de água para que se mantenha viçosa, basta-me isso e o pequenino esquecimento que me há-de eternizar, é só o que peço.

Não é nada, enfim, quase nada.


© CybeRider - 2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Bicho raro

Há duas espécies de Homens: os que lêem e os que criam.


Houve um livro que quis ler e não li. Odiei-o, não o compreendi. Quase obliterei o autor nesse dia, mas degredei-o por anos. Ele um génio, eu imbecil. Depois percebi, faltava-me tempo e caminho. Ofereci esse livro, que ainda temo, por altura da minha incompetência. Nunca voltei a tentá-lo. Optei por outros e hoje, esse autor que desdenhei, quero que viva para sempre, por ser um dos meus favoritos.

Porque há duas espécies de Homens: os que se arrependem e os que nunca reconsideram.

Durante anos temi pegar numa caneta. Quanto mais lia mais evitava. Deixei de ler. Restaram as memórias obscuras da minha realidade singela, exígua, perante a imensidão de clarividência alheia que me assombrava de fora. Assisti impávido à vida dos outros, como livros abertos que me desinteressavam, as suas realidades exóticas, os seus feitos excêntricos, apontamentos publicitários de uma existência que desconheço. Incompreendido, por não saber copiar, pesaram-me os olhares que sustentei de reprovação e calúnia. O medo de reproduzir assolava-me com frequência, a insónia dominava-me por vezes, pelo temor de não conseguir recordar o que era incapaz de redigir.

Porque há duas espécies de Homens: os valentes e os cobardes.

Compreendi que, para ter memórias, não precisava de ler; precisava de ter vivido. Deixei-me então levar sem resistir. As mentiras em que me refugiei faziam acreditar que vivia. A honestidade tem implícitos a resistência, o exemplo, a discórdia, a acção. Todos incapacidades que assumi, inocentemente, com frequência. Infiel a mim próprio, percorri caminhos paralelos ao traçado que deveria ser o meu, alguns sem retorno.

Porque há duas espécies de Homens: os leais e os que mentem.

Fui comandante inepto, subalterno de incompetentes e servidor de incapazes; nem sempre por esta ordem. Corrompi-me a construir destinos que, por simpatia apenas, construíam o meu. Perdi batalhas e guerras, das que venci não me restou particular orgulho, por não serem maioritariamente minhas; das outras não há registos que me socorram.

Porque há duas espécies de Homens: os que montam e os que se deixam montar.

A cedência a paixões, fraqueza congénita, condenou-me por fim a aceitar o meu destino. A medo encetei um livro e li-o em desespero. A dificuldade de lidar com os conceitos, de voltar a apreender o alheio, o medo do regresso à intrusão na essência de alguém, fui-os dizimando em parágrafos, páginas, capítulos. Entreguei-me por fim, como quem reconhece uma amante e a beija com fervor, sequioso, após anos de contenção. Voltei a temer perder a escrita outra vez.

Porque há duas espécies de Homens: os que amam e os que só conhecem o desdém.

Descuro com frequência os interesses que não me interessam, sinto-me um pária também, por vezes; mas os que me interessam persigo-os com fervor, sem esperança na conquista de adeptos para a minha causa. Uma tenacidade invisível mas indelével impele-me como um instinto, por vezes para o abismo, destino que pelo meu egoísmo atinjo sozinho.

Porque há duas espécies de Homens: os que vivem e os que vão morrendo.

Gosto de caminhar na areia húmida, onde as ondas se abatem; ver essa força imensa recear os meus passos e recuar perante a minha insignificância. Uns dias sou da terra, noutros sou das águas, nestes chego a acreditar que é a terra que me teme e que me deixará cavalgá-la eternamente; é nos outros que reconheço como estou enganado.

Porque há duas espécies de Homens: os que escutam o mar num búzio e os que recolhem búzios no mar.




Por haver apenas duas espécies de Homens, e não me enquadrar em nenhuma, suspeito que poderei ser afinal o único cromo desta caderneta; um exemplar de uma terceira espécie, em vias de extinção mas sem  protector que me valha.


© CybeRider - 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Encontros a dois tempos

Só posso provar que cumpri um encontro.

Foi há muito. Nesse dia longínquo cumpri, estava lá à hora certa no lugar certo. Foi a única vez. Talvez nunca venha a saber quantos encontros terei perdido na eternidade, desses outros também não me lembro, talvez fossem meros desencontros que motivaram que àquele não tenha faltado.

A partir desse dia a minha vida tem sido um somatório de desencontros em que há quem chegue e quem parta. Vemo-nos ocasionalmente, mas uns estão invariavelmente de saída quando chego e outros estão a chegar no momento em que me preparo para partir.

Ainda hoje não consigo combinar um encontro. Se me perguntam a que horas me convém, devolvo sempre a pergunta e, a partir desse momento, sou eu quem tenta ajustar o tempo para conseguir chegar a horas ao combinado. Sempre sem sucesso. Por vezes esperam por mim, para me dizer que estão de partida, outras vezes chego e confesso que afinal não posso ficar. Frequentemente assola-me o desalento de saber que não posso perpetuar o momento. Tudo não passa de uma imensidão de despedidas. O abraço da chegada é já o prenúncio desse momento fatídico. Eles vão e eu fico a vê-los partir, desolado por não ter conseguido cumprir o encontro. Outras vezes são eles que ficam quando eu parto; não olho para trás com receio de que não consiga prosseguir, para o próximo desencontro que marquei, se os vir a acenar.

Há uma zona cinzenta entre cada chegada e cada partida. Ninguém pode partir sem ter onde chegar, nem pode chegar sem ter partido de alguém. A ser sincero teria de confessar que me atrofia e me deprime; o cinzento não me satisfaz, mas o branco e o preto são exacerbos a que não me posso permitir, meras cogitações quantificantes do que será sempre incomensurável. Apesar disso é esse cinzento que se assemelha à simbiose de um encontro, quase perfeita, apesar de ser mera imitação

Aos bons e aos maus encontros acorro com igual desvelo. A curiosidade pelo futuro próximo leva-me a reunir esforços de pontualidade que me surpreendem quando os reconheço. E o desfecho é invariavelmente o mesmo, nada permanece nem se altera de forma tão indelével que me reponha a esperança nas marcações que, algumas a meu pedido, me impõem. Tudo se mantém num infindável marasmo de incertezas vãs onde abunda a futilidade de momentos cuja história é hoje potencialmente forte mas exígua na efectiva exequibilidade, principalmente por tudo o que fica por dizer, por falta de tempo e pelas incertezas próprias de um futuro que não domino. 

Há quem afirme que tenho um encontro marcado a que não posso faltar. A ser verdade, não fui eu que o marquei; como sempre, deixei à outra parte a veleidade, desta feita em desafio. Dizem que, quando lá chegar, não poderei partir, assim tempo não me faltará. É um encontro verdadeiro com hora e local certos, embora de momento os desconheça, mas palpita-me que vou lá estar. A concretizar-se será, certamente, o segundo encontro que conseguirei cumprir.

E esse é, de todos, o único a que gostaria de poder chegar bastante atrasado.

© CybeRider - 2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Tráfego

Ainda é cedo.

Tão cedo que o Sol me fere a vista e sinto exalar-se-me uma poeira como se a manhã quisesse esfumar o que resta do meu sangue de morcego. Só nesta altura do ano ainda é de dia a esta hora. Já vejo tanto disparate; percorro a distância até ao outro bloco onde tinha deixado o automóvel. Não preciso de ir tão longe para ouvir os berros daquela que grita todos os dias e horas com a sua prole, não sei como os vizinhos a aguentam, ouço-lhe claramente os despautérios e ainda não lhe consigo tirar a limpo as feições para, se me encontrasse com ela noutra rua, mudar de passeio ou de caminho. Talvez seja a vista que está também a amorcegar, qualquer dia só me guio pelos sons; terá de bastar. Ah, ei-la; agarra o gaiato por um braço enquanto as palavras matraqueiam a cabeça do infante e os meus ouvidos, que de repente, pela hora, ganharam superpoderes. Em horas normais já não destrinço com nitidez o que me dizem; principalmente se não me convém. Umas coisas ficam-se antes dos ouvidos, outras não atingem a ideia; isto sim que é da idade.

Rodo a chave, pega, tenho de contornar o condutor que está parado frente a um lugar vago no estacionamento, mas que teima em ocupar a faixa de rodagem, imóvel, mas principalmente inamovível. Não me vê. O olhar sonda-lhe o infinito, talvez com a mesma dificuldade que eu sinto, dou-lhe o benefício da morceguidade e sigo. Não vou dizer que era uma senhora, seria impróprio. A mesma impropriedade que seria dizer que os fulanos que me assaltaram de novo o covil ontem, como há oito meses, eram marcianos. Ficava-me mal. Afinal eu sou morcego e não quero que me descriminem por isso. Se fosse um homem eu teria tido, contra todas as probabilidades, uma piadola a preceito; arriscando um par de murros que me deixasse os dois olhos negros. A esta hora também pouca falta me fariam, continuo ligado ao sonar. Assim, não digo nada. Sigo, a pensar nos marcianos de ontem. Apanharam um com as mãos na massa. Perguntaram-me se me faltava muita massa mas, do pouco que havia antes, já tinham levado quase tudo da outra vez. Desta reforçaram a ideia, com consequente menos proveito. Não quero mal à Márcia por isso, que culpa tem ela do destino destes seus marcianos? Continuo em voo rasante; a esta hora só consigo voar baixinho. Já se me atravessaram três no caminho, subtraindo a minha prioridade. Estes eram todos homens, mas também não vou dizer isso; devia antes fazer como nas notícias, inventar todos os detalhes e deixar a certeza dos sujeitos todos pelo indefinido: condutores. Outra vez, não digo nada. Mas isso fazia-os todos homens, e alguns bem sei que são ratos. A prioridade é assim como a minha rua, tão minha que nem lugar para estacionar me deixam. Morcego como sou penduro-me das árvores; deve ser o que eles pensam, com razão.

Tenho pressa. Para me levantar a esta hora, tenho mesmo muita pressa. Só o dever me impele a sair da toca tão cedo, principalmente depois do dia de ontem em contacto com o lado negro da força. Que me levantasse mais cedo? Isso aumentaria a injustiça da coisa! Amarelo, prego a fundo. Morre-se na estrada... Não falo de sinistralidade, falo dos que se levantam cedo e empastelam a paisagem num marasmo atroz, se tivessem de voar como eu caíam da terra abaixo, sem potência que os levantasse. Sai! Sai! Tenho pressa! Na verdade voo sempre em silêncio, imperceptível. Já me esqueci da última vez que usei uma buzina em desespero ou esbracejei com alguém, já não tenho idade para andar por aí com dois olhos negros trocados pela razão que os justificasse. Amarelo, prego a fundo; que também temos todos os defeitos dos marcianos e mais esse, nós os morcegos que voam de manhã cedo, baixinho e com pressa. Olho os galos da alvorada, debicando aqui e ali sem destino certo. Odeio-os por um instante e descomprimo num sopro, como se quisesse fazer esvoaçar aquela alma inocente que estacou à minha frente para deixar passar um peão fora da passadeira; há tempo para a simpatia, entre os humanos. Eu sou um morcego, com muita vontade de cumprir e voltar à toca. Tenho pressa. Verde, e o velocímetro a trinta... Três carros à minha frente, quase que dava para tentar o salto. Chamavam-me doido. Nunca me compreendem, fico-me. No retrovisor dois olhos injectados de sangue, os meus, quase cegos pela luz. As poucas horas dormidas não completaram a metamorfose, ainda sou meia crisálida. Vermelho, paro outra vez. Numa cidade grande já tinha saído do carro e rebentado os miolos em vermelho; em silêncio, sem gesticular como sempre faço. Aqui fico-me, outra vez.

Um passo solto para a esquerda aflora a passadeira de costas para mim no exacto momento em que vou a passar; não me poupa ao "cabrão"; fico-me outra vez, a pensar que deveriam também os peões ter cornos com piscas, como hipotéticos marcianos, facilitava e poupava-me à injúria de me magoarem por eventuais ofensas de quem me atura; injustiças...

Os morcegos não voam a esta hora, sou um estranho no meio do mundo que não entendo. No meu mundo o normal parece ser tudo ao contrário, com a terra por cima e o céu, negro, por baixo. Ninguém me convence que a normalidade não é com a terra por cima... Por agora quero virar para a esquerda e todas as setas apontam para a direita, não conheço quem as pôs, só a simbologia, que agora me obriga como a todos os humanos a viver com a terra por baixo, a ampará-los como os vasos às plantas. Isso não pode ser normal.

Se eles tivessem o gosto que tenho por se pendurarem duma árvore até que a noite viesse e pudessem voar, teriam pressa, daquela de ver mais mundo antes de ficarem com a terra por cima. Mas aqui e agora ninguém voa. Só eu, baixinho ainda, sempre em silêncio e sem que ninguém veja:

Amarelo, prego a fundo. Falta-me percurso para completar a metamorfose.


© CybeRider - 2011

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Caixinhas

Assim que nasceu puseram-no delicadamente numa caixinha.

Adoraram-no, mimaram-no, deixaram-no crescer. Já vinha de longe o costume de encaixotar as preciosidades.  Encaixotá-las e escondê-las das vistas alheias e dos perigos emergentes do meio, como se se pretendesse guardá-las para sempre. Ao longo de milénios foram aprimorando esse sentido de apreciar mais e mais os seus rebentos, guardando-os em caixinhas, umas um pouco maiores outras um pouco menores, à medida das possibilidades, mas sempre com o mesmo intuito. Faziam uns com os outros o mesmo que faziam com os seus ridículos haveres; guardavam tudo em pequenas caixinhas, maiores ou menores, mais ou menos bonitas, à medida das suas possibilidades, à medida exacta do que cada um podia carregar, ainda que não fosse para levar para parte alguma. Já ninguém questionava a razão de viverem em caixinhas, de onde saíam apenas para desempenhar papéis que lhes eram atribuídos e pagos pela comunidade que trocava desempenhos, sem nada criar que não tivesse como objectivo a construção de novas caixinhas, meros guarda-jóias.

Aprenderam a deslocar-se em caixinhas também, algumas serviam-lhes mesmo de habitação. O ciclo repetia-se, nascer, encaixotar, crescer, encaixotar, reproduzir-se, encaixotar.  

Neste desvelo não percebiam que a singularidade se perdia, a ausência de contacto motivava o individualismo e fomentava a prepotência de cada um a uma anti-sociabilidade atroz. Convencidos da sua singularidade consideravam-se superiores a todos os seus iguais, que viviam noutras caixinhas, ainda que as suas diferenças fossem apenas fruto da sua própria imaginação. A massificação, que produzia incessantemente batalhões de clones, levava a que todos fossem redutíveis a um denominador comum. Não eram afinal as preciosidades que se consideravam; eram, sem que o sentissem, meras vulgaridades sem valor com o intuito subliminar de se autodestruírem nessa corrida insólita de conquista de caixinhas.

Na sua busca pela diferença ele percebeu que a sociabilidade artificial em que vivia era ilusória e decadente. Numa tentativa desesperada de encontrar uma explicação para a sua miserável existência compreendeu que todos os seus amigos eram, como ele, anti-sociais, individualistas, iludidos por uma pretensa preciosidade que ninguém tinha. Deduziu que todos os seus actos honestos não recebiam o agrado de quase ninguém, por serem incompreendidos, por vezes,  mas simultaneamente demasiado singulares,  tão comuns que não sobressaiam do ordinário, como tal incapazes de causar impacto. Incapaz de se vender, ou por falta de génio talvez, foi-se fechando cada vez mais na sua caixinha, resignado, rodeado de virtualidades inúteis e desumanas, enquanto assistia ao soçobrar do mundo à sua volta.

Um dia encontraram-no imóvel, dentro da sua caixinha; levaram-no, fecharam-no noutra caixinha e enterraram-no num pequeno espaço do subsolo saturado de pequenas caixinhas, ocultas dos olhares devassantes, todas cheias de preciosidades, como ele.           

© CybeRider - 2011

Click do the dear Zé 

sábado, 30 de abril de 2011

Dos bichos que bocejam

Tentar descrever o bocejo em palavras não é um exercício fácil.

Se tivesse de o explicar a quem não o conhecesse, que diria? É um estado de alma em que se abre a boca a uma dimensão extrema, de forma involuntária, reprimindo um Ahhhh incomensurável, à medida que o ar se solta fugazmente do peito de uma forma anestesiante e pacificadora. Não ficava explicado. Há outros bichos que bocejam, a quem o Ahhhh é impossível, mas para os quais terá o mesmo efeito repositor e inebriante. O bocejo dos roedores, por exemplo, é terrífico; abrem as mandíbulas expondo os incisivos ameaçadores e inimagináveis, como se não se coibissem de mostrar ao mundo o potencial vencedor se o mundo acabasse amanhã à dentada.

Comparativamente, o bocejo dos humanos é ridiculamente embaraçoso, temos uma dentição exígua para qualquer confronto. Talvez por isso seja de bom tom tapar a boca quando nos acorre esse impulso. Que pensariam os cães e os gatos se nos vissem nesse desconchavo? Perdiam-nos logo o respeito e saberiam imediatamente quem deveriam ser os verdadeiros senhores do mundo. Resignados à sua condição, bocejam à nossa frente perante a nossa indiferença, injustiçados por uma realidade estranha que nos coloca como dominantes nas suas vidinhas aparentemente simples e pacatas.

Será uma necessidade fisiológica tão importante como qualquer outra. Quanto tempo poderemos ficar sem bocejar? Não me consta que alguém tenha bocejado com a ponta de uma navalha apontada à jugular, nem que comandante algum tenha bocejado ao mandar as tropas à carnificina. Nem quando o professor nos pergunta a questão fundamental para avaliar o nosso desempenho.

Bocejar será um privilégio que nos faz sentir reis por um segundo. Por um instante não sentimos a ameaça que pende sobre a nossa cabeça, nem o medo que nos tolhe a um canto, nem a culpa pelo que fizemos ontem, nem a inquietação pelo dia de amanhã. Naquele hiato ficamos sós e supremos. Nada nos pode atingir, sente-se uma invulnerabilidade incompreensível e inquestionável. E há um misto de resignação e de tédio, semelhante ao do conquistador que abarcou o território imenso e sinta que nada mais lhe reste a realizar.

Logo após, volta o estado de alerta; por vezes a mera acção de nos virarmos para adormecer, se pertencermos ao grupo dos mais felizes; outros terão de despertar para a luta, e continuar o combate.

Por isso, o bocejo será um acto demonstrativo de uma inteligência subconsciente, pelo que tem de aquietador e necessário à manutenção de uma sanidade mental que nos limita como seres separados do contexto, definindo por instantes a nossa absoluta individualidade.

Dito isto prometo respeitar profundamente qualquer animal que boceje, e verifico que quase todos o fazem; todos os mamíferos, carnívoros, herbívoros, omnívoros; as aves e os peixes. Falta-me descobrir como interpretar algumas semelhanças comportamentais relativamente aos répteis e aos batráquios... Terei de continuar a investigar.

Os insectos, os aracnídeos e os moluscos não creio que bocejem. Não me merecem por isso, e até prova em contrário, a mesma consideração. Terei de encontrar outras razões para respeitá-los que não esta, tão fundamental.  


© CybeRider - 2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O elogio do erro

Não me apetecia, não me tem apetecido.

Sei o que me apetecia, talvez por isso: escrever tudo cheio de erros. Escrever num código só meu. Desculpa triste, escrevo sempre num código só meu. Tudo cheio de erros. Gosto dos meus erros, são sintoma de liberdade quando não tenho medo deles. Depois refinam-se e passam despercebidos. Como quem acha uma nota no chão e lhe põe um pé em cima. "Devolve-se a quem provar pertencer-lhe". Olha-se para um lado e para o outro, a medir a humidade, a ver aquela nuvem mais escura e a criar a ideia de que vem aí chuva, passageira.

Depois deixa-se cair a chave. Plim. Arrebanha-se tudo, a fazer valer o dobrar da espinha. O gesto refinado, a não admitir o erro. Do outro lado o Sol, as caras cinzentas, incapazes de ouvir um plim. "Afinal pertence-me a mim". Os olhos vagueiam para a noite, a desejar o sonho ímpio dos inocentes, todos errados. A inocência perde-se quando se eliminam os erros. Passa-se a ser um sequaz do justiceiro, cheio de certezas e dedos espetados. Perde-se a misericórdia. Perde-se a noção do belo.

O belo em si é um erro, perfeito, como é qualquer erro, capaz de nos fazer virar a cabeça e perder a noção da realidade, essa coisa que não se compadece com erros, que nos impele sempre para a imperfeição da posição irrefutável, mas sempre à mercê da imensidão do que não dominamos, a excepção fundamental que confirma a regra, esse erro abrupto que nos oprime qualquer certeza. O belo é imerecido porque é um erro supremo que ninguém merece, por ter sempre alguma certeza, até isso justifica a sua essência errada e errática.

O erro não é intencional, ao contrário do mal que nunca é um erro. O mal é uma escolha, mais ou menos reflectida, mas nunca um erro. No entanto, erradamente, condenamos o erro quando deveríamos condenar o mal. O verdadeiro erro pode ser fruto de incompetência, distracção, incontinência, desmesura. Quando toleramos a génese, admitimos que fundamente a causa, mas apesar disso continuamos a condenar aquilo que inicialmente admitímos, sem querermos ver que deveria ser a verdadeira causa a perseguida. Assim, andamos com medo de errar, tentando fazer tudo certo ainda que mal.

Tememos a revelação dos nossos erros, pela injustiça do seu julgamento. Só poderemos ser livres quando nos exprimirmos por erros sinceros, pleonasmo; num código individual, imperceptível até que se refine, nessa altura compreendemo-lo, e passa a ser linguagem comum, alimento de debate e de inovação. Uma linguagem bela, profundamente errada é certo, mas universal.

A constatação de que errar é humano, faz-me acreditar que tudo o que fazemos é belo, tanto mais quanto mais errado for, desde que o não façamos por mal. É divina a nossa acção no mundo. Compraz-me que este exercício possa ser o erro que me tolha, porém palpita-me que errei, e acertei assim na impureza do hediondo, imperfeito, maléfico, intencional, desumano.

As certezas são sempre terríveis, ímpias, como os sonhos dos inocentes.      

© CybeRider - 2011