sábado, 28 de fevereiro de 2009

O aquário

Dou mais uma volta, agacho-me, ponho outra pedra na boca.

Há outros. Andam por aqui, às voltas, como eu.

Vermelhos, azuis, verdes, a maioria cinzentos - bolas... Acho que não posso falar das cores, ainda alguém diz que não gosto deles, que me considero... - grandes, pequenos. (Cuspi a pedra.)

É tudo tão bonito lá fora! Aqui andamos todos às turras. À espera que a comida, como de costume, nos caia do céu; hoje ainda não veio. Tem havido atrasos... Mas quando cai fica tudo bem. É um "fartar vilanagem". Nunca como muito. Fico com digestões difíceis. Mas gosto de ver os comilões, encher o bandulho, pode ser que assim não me comam a mim.

Acho que andamos todos com vontade de saltar pela borda. Mas só de pensar nisso parece que me falta logo o ar.

(Ponho outra pedra na boca...)

Olha! Um tubarão frade... Estes é que a levam na boa. São tão grandes que nada lhes toca. Nadam por aqui, às voltas, como quem quer formar um cardume, mas acabam por nadar sozinhos na sua magnificência. Não adianta esperarmos ajuda. Aquele corpanzil dá-lhes pouca agilidade. Há quem diga que são inofensivos. Acho que consomem muito oxigénio. (Volto a cuspir a pedra). Ouvi relatar casos de cardumes em transe por terem ficado com pouco oxigénio no cérebro.

Têm cá aparecido muitos peixes-palhaço. Esses é que ainda vão animando isto com o seu colorido. (Lá estou eu com as cores...) Dá gosto vê-los, às corridas, aos saltos, enquanto a comida não chega.

Invejo o peixe-lua. Feio e lentinho, não se importa com coisa nenhuma. Fica ali a meia-água, abrindo e fechando a boca. Sem se queixar, sem comentar...

Espantam-me os atuns. A velocidades incríveis. Cardumes maciços que voam por aqui sem olhar a pormenores. Batem sempre no vidro, mas continuam a correr, malucos, como se nada fosse.

Têm cá posto também muitos peixes-escorpião; demasiados. Têm um veneno muito intenso. Podem paralisar-nos em segundos. Há que nadar mais ao largo... Não fazer muitas ondas, até porque se as fizermos entornamos o resto da água e ninguém se safa, que já vai havendo pouca.

Olho para o céu, logo ali a centímetros. Tão prateado... Parece uma folha de alumínio. Se calhar é...

Vou até ao vidro. Por vezes vêm aqui dar pancadas, como se pensassem que podemos sair. Ou para brincarem connosco... Parecem dizer que lá fora é melhor. Não sei... Nunca lá estive. As pancadas fazem-me dor de cabeça. De resto, tenho medo que me falte o ar...

Vou até ao fundo. Está sujo... Não nos limpam isto, nem mudam o areão. Como é que se pode viver nesta pocilga? Alguns de nós é suposto comerem a porcaria dos outros. Não sou desses especialistas, limito-me a olhar enojado. Até quando?...

Um dia destes ainda descruzo as barbatanas. Vão ver!

Amanhã!

Se vierem os tubarões-martelo, pode ser que com umas marteladas...


(Ponho outra pedra na boca...)


© CybeRider - 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O melhor do Mundo

Deve ser uma sensação e tanto!

Acho sobretudo que para chegar lá é preciso estar bem preparado.

Estamos demasiado habituados à mediocridade, ao mediano. Temos sempre termos de comparação para a esquerda e para a direita e para cima e para baixo.

O melhor perde esses azimutes.

Depois de se ser o melhor só se pode decair, o que é uma sensação má. Resta-nos viver na melancolia das recordações, polir as medalhas, contar as proezas aos netos e ganhar umas curvas de cintura.

Mesmo o mais egocêntrico dos mortais não passa sem esses paralelismos. Olha o mundo à sua volta e estabelece os seus padrões. Diferente é ser "O Padrão".

Há de facto uma coisa em que sou o melhor do Mundo. Claro que tinha que me vangloriar, não é fácil carregar este peso. Confesso sem modéstia que sou o melhor do Mundo a ser eu próprio.

Qual Cristiano Ronaldo? Qual Michael Phelps e as suas brocas? Ninguém conseguiria viver comigo como eu. Aprecio como ninguém o bem-estar dos copos que bebo e saro como me apraz as mazelas dos trambolhões que consequentemente dou.

É nesta medida que posso avaliar o que sente um verdadeiro campeão. A luta diária por manter a pontuação, o tiro certeiro em cada prova, o pisar do travão na curva certa, as lágrimas dos piores momentos, o cortar da meta em primeiro lugar -mesmo que não tenha conseguido alcançar os outros concorrentes- é que mesmo aí, na recta final, ninguém se deixa ultrapassar por mim como eu próprio.

E as tolices que me vejo a fazer para conseguir chegar onde chego... Ah! Tantas coisas para contar...

Garanto que se todos me considerarem uma desgraça, ainda assim, ninguém se sentirá mais desgraçado do que eu.

Mas vibro em cada campeonato. Com medo constante que alguém ouse tirar-me os louros e me faça sentir a inveja de saber que esse alguém seria um "eu" muito melhor, com os meus defeitos, as minhas limitações, as minhas parvoíces. E ganhar a medalha por isso...


Agora que estou lá, só me falta mesmo encarar a minha decadência. Não é fácil, digo-vos.


© CybeRider - 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Os seus documentos por favor

Não critico as profissões alheias. Se são pagas acredito que façam falta, e pronto.

Chego a perceber que alguém queira de facto vir a ser polícia, para além dos sonhos de infância. É como ter um carro de bombeiros na garagem, ou vestir-se de mulher nas horas vagas.

Não partilho destas taras, terei outras, mas compreendo-as.

Quanto às profissões, são muitas vezes uma questão de oportunidade, ou falta de imaginação, mais do que escolhas. Destas imposições resultam diversas incapacidades, é também um facto; destes factos somados resultará talvez a maioria das críticas transversais à nossa sociedade.

A imagem negativa que temos da polícia é normalmente a de um bando de tecnocratas ou opressores que se limitam a fazer-nos a vida negra por "dá cá aquela palha". Esta relega qualquer ideia positiva que também sabemos, no entanto, que existe.

O que deveras me preocupa é a minha própria reacção à figura fardada que, colocando-se alarvemente à minha frente, no meio da estrada, me interrompe momentos de puro prazer ou labuta, de braço esticado e me faz encostar.

Penso logo: "- Isto não vai correr bem!" - e normalmente não corre...

Ou passei o radar que não vi numa zona de 50 a meio de um descampado; ou acaba por me descobrir a falta do selo novo do seguro que deixei no porta-luvas quando o recebi por não ter estado ainda válido para colar no vidro; ou atendi a porra do telemóvel porque aquele cliente que me paga dois ou três salários por ano à empresa não é de deixar à espera.

O facto de ser um pecador inveterado não deveria no entanto justificar a grande repulsa que sinto daqueles momentos. Por isso resolvi ir mais fundo. Não sou um criminoso porque tenho carro, penso em abono dos bons costumes e crença ingénua nos cânones sociais. Os pecadilhos que cometo não me irão deixar sem pão na mesa; não chegam a isso. O que será então?

Que força misteriosa me faz pisar o travão a fundo e gastar um centímetro de pneu cada vez que detecto o tal carro civil mal disfarçado na berma, mesmo que vá a cem à hora numa zona de noventa? Se prevarico não devo pagar?

Nunca fiquei feliz por ser parado pela polícia. Talvez na mesma medida em que não ficarei por ser parado por um ladrão. Aquele, de abordagem muitas vezes atabalhoada e confusa detém o poder de me privar de coisas que aprecio, tal como o outro.

O ladrão porém fá-lo sem injustiça, é o caçador que procura a presa que por acaso podemos ser nós. Temo-o tanto como ao leão que se puder me arranca um braço. Da mesma forma, não lhe reconheço racionalidade nem espero compaixão; talvez sobreviva se o conseguir saciar. É perigoso, por circular dissimulado à nossa volta, mas é também uma força selvagem que não controlamos.

Com o polícia a coisa é diferente. Reconheço-lhe racionalidade, em certa medida. Mas sei que o poder que lhe é conferido não visa o meu perdão por algo que, sem afectar ninguém, violou uma norma escondida num calhamaço qualquer que não li e que até pode mudar amanhã. Sei que vou pagar o primeiro pequeno erro como se fosse o enésimo. O pequeno "fora de prazo" com dias de trabalho árduo para repor o que me tirar.

Fico dividido, entre confiar na entidade que me deveria proteger, ou fugir do tirano que me oprime e que me pode privar da minha liberdade se lhe faltar ao conceito, ainda que pessoal, que ele tenha de "respeito". Que acontece, caso eu tente apelar a um eventual bom senso.

E sei também que ou é isso ou cinco anos de tribunal.

Acabei de escrever isto e resta-me concluir que, se o fiz, é porque gosto da Polícia.

Redimido, estou a pensar seriamente apresentar-me todos os dias na esquadra e, em confissão, explicar as minhas acções, ainda que as encontre inocentes, e pagar livremente um "X" por todos os desaires que me mostrem ter cometido.

Assim, sim! Vou tornar-me um cidadão exemplar! Afinal o segredo é simples:

- É tudo uma questão de dinheiro! Se o entregarmos à polícia já os ladrões não o levam.



© CybeRider - 2009

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Net rápida

A Teia

Começou por um fio
E uniu um com outro
Dois pontos do vazio

A frio teceu e viu
Soltar a rede que cresceu
Sem as amuras do navio

Puxou de fio a pavio
Esticou cada filamento
Tudo num corrupio

Cada canto ela mediu
Com precisão geométrica
Quase a causar arrepio

E eis que por fim surgiu
A armadilha mortal
Que a aranha construiu

Mas dessa besta fatal
Nasceu para grande espanto
Uma forma afinal
De manter em cada canto
Cada presa dessa teia
A tocar outra que tal
© CybeRider - 2009

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O burro avariado

Ia a travessar Olhão, deparei-me com uma fila de trânsito. Pouco comum aquela hora.

O castanho da pelagem contrastava com o negro do alcatrão.


O animal cigano jazia imóvel. O dono, a polícia, os passantes, olhavam incrédulos.


Não é como no National Geographic, nem quando os leões os comem. Aqui toca-nos a alma. Estamos mais habituados a ver a divindade ressuscitadora das mãos humanas que a morte de um animal de tracção assim na rua.


Ficou deslocado. Como num engano. Era um adereço de outra cena, talvez de uma planície alentejana, nunca da cidade. A realidade a mostrar-nos o surreal de Dali. O píncaro da esquizofrenia.


Já fiquei com um carro avariado na estrada, nunca com um burro. Há de facto muitas coisas para as quais não estaríamos preparados se se nos acabasse a tecnologia. Bastantes tão fundamentais que a nossa própria sobrevivência estaria em causa.


Coisas banais para os nossos avós são-nos herméticas. Coisas que a humanidade tinha como seguras e fundamentais há milhares de anos hoje desapareceram nas brumas do tempo.


O meu bisavô talvez tivesse sabido lidar com o animal avariado. Naquele tempo os transeuntes não olhariam com tal estranheza o acontecimento; lamentariam a sorte do homem, não a do burro. A estrada não seria negra de alcatrão. A sombra não seria de um prédio de vários pisos, talvez de uma alfarrobeira. A polícia não teria comparecido, até por não ter tido o telefone a tocar; mas se passasse seria a cavalo ou de bicicleta.

Hoje, ali, todos pareciam perdidos.



Quanto ao dono do burro, ainda me questiono se teria direito a veículo de substituição.



© CybeRider - 2009

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Estupidez não é essência

Inteligência

Ser inteligente é ser
Como toda a gente.
Nem mais nem menos diferente
Do homem que planta sozinho
Uma árvore no caminho
Para depois colher os frutos,
Que revolve os calhaus brutos,
Deles faz brotar a vida
Como quem cria um filho
E consegue pôr-lhe um brilho no olhar
E transmitir-lhe a medida indefinida
Da felicidade por chegar.

É olhar de frente e dizer.
Apontar sem fugir.
Ser humilde e dar,
E tolerar.
E fazer acontecer o que
Conseguimos dentro de nós
Realizar.

Ser inteligente é ser
O animal que quer viver
E conhecer.
Vencer e convencer sem derrubar.
Deixar algo de bom
Para alguém recordar.

É a conquista
Sem derrotar ninguém.
É acreditar no que se alcança
Ao ensinar a uma criança
O que acreditamos ser bem.
E nunca baixar os braços.
Manter
As convicções que nos enformam,
Mesmo que soframos o escárnio
Daqueles que nos ignoram.

Ser inteligente é ser
Feliz só por viver
E viver para poder ser
Feliz por viver
Mesmo onde ninguém quis.

Ser inteligente é ser.
© CybeRider - 2009

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Pesadelo horrível

Dei por mim rodeado de polícias. Tinham-me apanhado em flagrante delito a retirar notas falsas de uma máquina multibanco. Haverá crime mais hediondo?

O facto de as notas de 5 serem cor-de-rosa e as de 500 serem verdes indiciavam à partida uma marosca que não apreendi; era tudo um ardil. Não estranhei nem a presença das de valor mais alto, mas recordei uma coisa sobre os meus sonhos: são definitivamente a cores.

Por algum motivo a máquina avariada debitava notas pela inclusão de uma sequência banal de dígitos. Se bem me conheço, após o gáudio daquele enriquecimento sem justa causa, restava-me ligar aos serviços do banco e devolver a maquia que não era minha por mérito. Mas fui apanhado antes de provar as minhas intenções e acordei assim que destrincei as incongruências.

Juntar "notas falsas" e "multibanco" num sentido de proveito próprio, coloca-me à partida no topo de uma lista de marginais a quem a sociedade passa a cuspir na cara se lhe derem azo a isso. Não importa se o multibanco é algo que todos utilizemos no dia a dia e que as notas falsas nos possam vir parar às mãos no troco mais inocente. Se isto chega a notícia sou logo lapidado em público.

Assim como juntar "Charles Smith" à palavra "arguido" o torna de imediato num dos malandros mais execráveis. Para mim é, por enquanto, apenas um sujeito que ficou a dever quinhentos paus (eram mesmo escudos, há quinze anos, ou mais) a um amigo meu. O Mundo é mesmo um laguinho de patos.



Nem de propósito o telefone toca. A polícia está junto ao meu carro... Mau...

Afinal tinha deixado a janela aberta ontem à noite. Antes isso...

Tinham recebido um telefonema. Que mistério... Como eu estava em pijama, foram-se embora. O carro lá ficou mais uma hora... De janela aberta.

Há pouco tempo podia deixar as chaves à fechadura da porta de casa que ninguém assumiria isso como um caso de polícia. Isto agora do carro é logo um acontecimento. Um carro de janela aberta, bem estacionado há algumas horas... Ai, ai... Que excentricidade!

Ainda por cima ninguém me pôs nada lá dentro; ao menos o valor que me sonegaram os polícias do sonho, mas não.

Vá lá que não era um descapotável senão vinha nas notícias. Já vejo as parangonas: "Carro estacionado sem capota em zona habitacional".

Mas a realidade é assim. Mistura-se com as nossas fantasias, por vezes com uma oportunidade assustadora. Quando é ao contrário somos malucos. Assim, se não formos provavelmente ficamos.


© CybeRider - 2009