domingo, 8 de Novembro de 2009

Hiperglicémico

Cirando por um mundo de feira.

Pessoas de massapão, cães de alcaçuz, gatos de caramelo, pássaros de chocolate.

Os bebés são de marshmallow, têm de ser! Toda aquela fofura, e a tonalidade rósea da pele... Os de chocolate também são deliciosos, e mais fáceis de definir: perguntei a um dos putos doces da rua que nome dava aos marshmallows, ele disse que eram "borrachas"...

Borrachas não é o mesmo. De látex serão aquelas bonecas para adultos, curvilíneas, que se passeiam provocantes e desejáveis. Mas a essas chamam-lhes "borrachos", e vou-me perdendo em conceitos, porque me parecem doces também.

Atravesso a faixa de tarte de alfarroba. As viaturas de rebuçado multicolor interrompem a marcha e deixam-me atravessar pelo tracejado de açúcar em pó. À minha volta o pão-de-ló gigante toma a forma de edifícios decorados na base por troncos de chocolate apetitoso encimados por fios de ovos dourados, nestas tardes de Outono.

O mar de granizado azul estende-se a perder de vista, a enorme rodela de laranja parece brilhar intensa e soberana a enfeitar-lhe a orla ao fim da tarde; como num coquetel requintado, onde os montes que sobressaem são pedaços de frutas saborosas embebidos na delícia, serpenteados por traços de licor de ginja. 

Vejo alguns cumes cobertos de creme chantilly delicado, que parece escorrer para os vales polvilhados de polígonos de compota de tomate, atravessados por linhas de gelatina verde prontas a juntar-se ao doce oceano.

Saltito por entre as poças de açúcar em ponto pérola que caiu do algodão-doce espesso que pairou sobre a cidade de manhã.

Chego a casa, abro a porta de morgado de amêndoa, tenho a roupa embebida em melaço. Que bem me vai saber o duche, abro a torneira que jorra a magnífica calda de pêssego. Não há senão doçura no mundo que vejo e que me proponho saborear.

São as atitudes dos diabéticos, que ao deturpar a culinária, adulteram a confeitaria e tolhem os pasteleiros .


© CybeRider - 2009

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Um jardim no paraíso

Quem quer saber sobre o jardim onde passeio?

Já vos falei da rapariga do fato de treino rosa? Sim, bem me parecia… Mas não vos falei do coreto, nem do rio maravilhoso que se avista cheio de barquinhos de papel, ou não, talvez papel ainda grosso em toros de madeira bruta, a aguardar que a imaginação os lamine. Só vendo de mais perto.

O laguinho com peixes dourados e cágados; pois, com acento, para acentuar a diferença. Os cágados, assim acentuados, são pequenas tartarugas que espreitam entre os nenúfares e que se escondem de timidez ao menor movimento. Quando a água do lago está limpa pode-se vê-los a desaparecer num nadar bamboleante para se esconderem nas rochas do fundo, perante a indiferença dos grandes peixes dourados. A água filtra a imagem dando-nos a sensação de que tudo é bem maior. Os grandes peixes são afinal bastante mais pequenos, mas como poderei explicar de que tamanho são os peixes? Digamos que ficariam mal num tacho de caldeirada mas preencheriam a rigor uma caixa de filetes enlatados, tirando a cabeça e as barbatanas, seria isso.

Ainda sou do tempo… Que sou, de facto. De todos os tempos, mas recordo quando o coreto se enchia de musica e  a turba se acotovelava, adomingada, para escutar as melodias fanhosas que emanavam dos metais. Não me consta que os peixes ou os cágados, assim com acento pois claro, espreitassem entre os nenúfares. Só nós, ficávamos ali impávidos a olhar, com as cabeças de fora, sem chegarmos às copas das frondosas árvores que sombreavam a calçada e as flores surdas.

Não vos falei das fieiras de casinhas brancas, oitocentistas com telhados de quatro águas, que circundam o jardim, nem da forma intensa como a sua cor branca salteada de amarelo tende a subverter o anil da água do rio que ali já é do mar. Nem dos cães, nem das aves que pousam nas tais árvores de copas inalcançáveis, que subvertem o passeio e os fatos imaculados dos que escutam a banda do coreto; os cágados, assim com acento, ficam serenos perante os cágados sem assento, que a pé se besuntam com os dejectos dos cães, vadios mas gentis e independentes, e se maculam pelas aves que os escolhem à minúcia para lhes tingir as vestes. Nem dos assentos raros, onde as mães trocam as fraldas, sujas sem acento, dos bebés que choram a reclamar do tal som fanhoso que emana dos tais metais, nem do exalado aroma, imperceptível pelo perfume que paira das corolas expostas aos domingos de Primavera.


Hoje passei pelo jardim onde o coreto alimenta as pequenas ervas que brotam do lajedo onde os sapatos dos músicos costumavam marcar o compasso. Não há peixes no laguinho, foram substituídos por pacotes de tons metálicos, já sem batatas. Os cágados teriam assento, porque ninguém se senta nos banquinhos do jardim. E o aroma é do peixe grelhado.

À porta do restaurante daquela rua antiga vejo-as a grelhar, as sardinhas gordas que encheriam uma lata, sem a cabeça nem as barbatanas. E fico a pensar se não serão afinal aquelas sardinhas douradas os peixinhos que me levaram do laguinho do meu jardim. 


© CybeRider - 2009

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Quando a fama me vem de longe

Maria Madalena tinha reputação de rameira.

E não é fácil manter uma reputação por dois mil anos. Ao fim desse tempo começou a ter a fama de ser companheira de Cristo, o grande pensador, que reuniu a seu lado doze discípulos, os iluminados que o ouviam atentamente nas divagações, em desprestígio dos iletrados que constituam mero comprovativo de popularidade. Filho de um humilde carpinteiro, não terá também sido fácil ao pai vê-lo deambular pelas ruas, ser perseguido pelas suas ideias que, segundo os relatos, pregava e que também a ele valeram uma reputação, com seguidores até aos nossos dias.

Mas não é de fé que hoje falo. É a reputação em si que me interessa. De onde nos vem a fama imprevista? Que motivos nos levam a pretender manter uma reputação para além das nossas convicções?

Quantas vezes as nossas atitudes mal interpretadas nos designam consequências que nunca pensámos carregar?

Se não me espanta que nos queiramos livrar de certa mácula que passou a público no nosso passado, já me espanta que recorramos a uma pretensa reputação que defendemos para não aderir ao apoio de alguma ideia válida à qual, não fora a reputação, aderiríamos sem hesitar.

O conceito de reputação é ambivalente. Se nos desconcerta quando nos mancha a imagem por ser falsamente acusatória de algo indigno, por outro lado pode ser um trunfo a exibir se for falsa mas abonatória de qualidades que nem temos.

A reputação é o juízo que fazem do que somos. Como tal, sempre imperfeito. Apesar disso, insistimos em defender a que supomos ser boa, aquela que nos abre as portas de certo clube a que desejamos pertencer, mas que não nos aceitaria pelo que somos, apenas pelo que parecemos ser. Por este facto nego-me a aceitar qualquer tipo de reputação como ferramenta. Ainda quando me abrem portas por pretensa reputação, teimo em apresentar provas de que encaixo no convite. Este simples facto deixa-me liberdade para aderir a tudo o que pretenda e conviver com quem queira, sem receio de ferir susceptibilidades. Não sou eu que tenho de me cercear para que o clube me aceite. É o clube que tem de me aceitar exactamente como sou, se assim não for não me serve, sem que sequer questione se servirei eu ao tal clube.

Na diluição social a que a complexidade da vida nos remete, somos levados a puxar de galões virtuais para nos defendermos do desconhecido. Se sempre me baterei pela defesa das injustiças que me cometam, não me revejo numa realidade em que me tenha de suster num conceito ambíguo e falacioso para justificar as minhas convicções, no intuito de daí obter dividendos.

Não pretendo contribuir para a elaboração de algum tipo de reputação digna. Ainda que seja um perfeito canalha, sê-lo-ei seguindo os meus próprios princípios.


© CybeRider - 2009

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Os contos sem dono

Ao olhar para o que escrevi no passado, compreendo que nunca podemos saber até que ponto o que registamos num momento vai, se é que vai, tocar alguém.

Olho para aquilo e parece que foi escrito por outrem. Muitos dos conceitos que afagavam as palavras sei que os perdi, talvez para sempre. Falta-lhes a envolvência com o meu âmago, que talvez só exista no preciso momento em que exponho o que me vai na alma. E no entanto a caligrafia é minha, o caderno também.

E fico a cismar se não terei sido de facto outra pessoa, de que já não recordo a essência, mas que deixou coisas escritas, para eu ler. Talvez numa época antiga em que sei que estive, porém com méritos e fraquezas que entretanto perdi.

Demoro a convencer-me. De repente, compreendo que não sou o meu autor favorito e perco alguma confiança na minha habilidade. Nunca poderei voltar a escrever daquela maneira, as ideias, algumas aparentemente fantásticas, que volto a abraçar com um sorriso. Perderam a força genética para sempre, já não chegam de fio a pavio.

Comprovo que ganhei experiência, mas verifico que perdi qualidades. Este reconhecimento assusta, porque lhe sinto a irreversibilidade. Perdi muito do brilho aventureiro e vanguardista que encobria o temor de inovar.

Algumas ideias atemorizam-me ainda por já não ter memória daquele vilão. Outras apaixonam-me e fazem-me querer conhecer a alma por detrás do pensamento, mas já não a encontro.

Aquelas ideias que escrevi, contos que imaginei, soltaram-se da minha alçada e partiram para um horizonte a perder de vista. É como se ficassem para ali, sem dono. Até que me reconquistem o coração e os volte a chamar meus.

Por vezes as coisas resultam mesmo assim. Não lhes falta o fundamental. Mesmo algumas ideias conexas surgem renascidas, outras não. Extraem-se novas interpretações, novas críticas, novas paisagens. As cores, sendo outras, estão lá, mas o quadro já não é o mesmo, e não mudou apenas a moldura... É o enquadramento da obra, e as personagens, sempre dinâmicas...

É como rever um filme de que se gosta, uma e outra vez. Nunca se vê o mesmo filme da mesma maneira, nem quando já se conhecem os diálogos de cor. Há sempre um pormenor que surge, em que não tínhamos reparado. Os filmes de que não gostamos é que é pior, mesmo assim só me recordo de ter abandonado uma sala uma vez. Esforço-me. Nem sempre consigo, mas esforço-me.

Há vezes em que reconheço a pouca qualidade do que realizei. Noutras acabo por encontrar ali qualidades que desconheço. Raramente...

Nestes devaneios sou levado a pensar que não haverá talvez maior injúria para o criador que a crítica pelo infinitésimo.

Custa-me olhar para uma pintura, e aqui o abstracto ou não é logo por si muito relativo, e dizer apenas que tem umas belas cores. Haverá algo mais redutor?...

Ou admirar uma fotografia e dizer simplesmente que tem uma boa escolha de tons, um belo contraste. Sou até capaz de o ter feito. Talvez quando não conheço o autor e não apreendo a ideia à primeira. Depois disso não. Por uma questão de respeito prefiro ultrapassar essa fase e tentar compreender a ideia para além da imagem. Ligá-la pelo menos ao meu mundo, e dizer de que forma me toca. Ou apreender algo de novo, se possível. Se não tenho tempo ou imaginação para ver mais que o imediato, mais vale ficar calado que tratar o artista como se fosse aprendiz.

Que a experiência do fotógrafo, do escritor, do pintor, do músico, devem ser garantias de que a técnica não é o fundamental, antes o resultado. O maior ou menor cuidado na técnica dependem do perfeccionismo de cada um, e podem obviamente restringir muito esse resultado final. No entanto não deve ser a crítica a esses pormenores que o artista espera ao expor a sua obra.

Se sorrio porque alguém disse que escrevi bem. Sou muito capaz de chorar de alegria se compreenderam o que quis dizer.

Afirmo-o num libertino e egoísta tom de alerta. Revejo-me em muita crítica minimalista. Mas todos estamos no mundo atentos a reacções. Assim, faço-me rir ou faço-me chorar. Quando escrevo nunca me sou indiferente.

E sei que haverá quem se surpreenda com isto.

Mas a obra vale por si. Se não me compreendo hoje, quem sabe, talvez amanhã.




© CybeRider - 2009

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Anatomia do beijo

Há os húmidos; os secos; os repenicados; os apaixonados, os que gostariam de o ser; os de carinho; os respeitosos; os consoladores; os terapêuticos; os indecorosos; os consentidos; os fingidos; os repudiados; os roubados; os glamorosos; os decadentes...

Tantos... E tão poucos.

E se o sentido que têm pode ser vasto, a forma não o será menos. Se os lábios põem na prática o que a mente já arquitectou, muitas vezes é a língua que lhes dá o vigor para iniciar a orquestra dos sentidos.

Mas isso já sabem... Já todos sabem. Porque hei-de vir aqui perder-me em conceitos que toda a gente conhece?... Que asco!...

Ah! Há os que doem...

Que os há! Já ouvi dizer. Há os que sabemos derradeiros, de alguém que parte para sempre, por vezes até para melhor. Partir para melhor... Esta expressão que me causa estranheza. Como se ao quebrar a loiça lhe amplificasse a qualidade. E, no entanto, às vezes que bem sabe!...

E os que dão nos mortos? É estranho que se beijem os mortos... É um beijo para nosso consolo, que eles não sentem... E apesar disso...

Mas adiante, que são os vivos que escrevem História.

Como é o último beijo de quem se separa para sempre, depois de uma relação profunda e cúmplice. Falo daquelas verdadeiras; que sensação vibra em quem sabe que aquele é o último? Quantas vezes de alívio, outras tantas de receio. E pensa-se nisso? Pensa-se que será "aquele" "o último"?... Melhor quem não saiba, diria eu; se soubesse...

Não sei.

Sei que, por grande que seja o alívio, terá de doer um pouco; pelo que não se construiu mas que comprovadamente se destrói. E vem aquela réstia que nos cheira a liberdade. "Finalmente só". Só, inseguro; carente; às vezes. Perdido, mais vezes; diria eu, como disse que diria outras coisas, que afinal não sei. Mas outras vezes apenas saciado, sem vontade de mais.

E que "saciado" pode ser menos que "carente" também não sei. Mas disse-o, se o disse é porque o penso, se o penso é porque o acho. Acho... Um tesouro, mais um. Escondido... Penso... Num beijo; que nunca se chegará a dar, aquele que ficará para sempre pendente, depois do derradeiro. Aquele que esperámos repetir um dia mas que se afundou na esperança. A esperança, essa tal que morre, também ela, sempre solitária.

E dói, mais que nenhum, o beijo do nosso filho; o que aquela senhora bem vestida limpa da face com o pequeno toalhete, sem notar que reparamos... E esse, sei que dói. E talvez doa como nenhum outro. E há-de doer para sempre, porque não lhe é avó mas me é madrasta.

E porque a vingança se apura em tacho frio, ou num mero beijo que se não dá... Há mortos que nunca hei-de beijar; porque não podem limpar, depois, o meu beijo da face pútrida.



© CybeRider - 2009

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Alma de campeão

É raro...

Melhor... É muito raro ver alguém fazer peito à violência, que grassa, com atitudes de bravura individual. Vemos sim todos a escudar-se institucionalmente, mas a assumir exemplos de clara fraqueza na situação concreta, algumas vezes com razoabilidade mas em muitos momentos nem por isso, com que se deparam no dia-a-dia.

Não falo do confronto com meliantes, mas mesmo de atitudes mais mundanas, e principalmente da violência psicológica que nos asfixia.

Não é necessário medirmo-nos à pancada. É mesmo da postura que não se assume que falo, e que consequentemente nos enfraquece.

Nesta mariquice em que se vai tornando a vida colectiva, no super proteccionismo que procuramos de um Estado que não nos conhece mas que queremos, a saber porquê, uma mãe; na timidez que se assume como norma quando é preciso intervir, devíamos apelar mais ao nosso lado biológico de animais com capacidades de defesa, que ainda existam intrínsecas ao nosso ser, e que deveriam estar aptas a surgir quando as institucionais falhassem.

Não somos decerto super-heróis, mas ajudava lembrarmo-nos de que a forma física não devia servir só para cultivar aparência. Deveríamos estar aptos a mostrar que não somos lesmas indefesas prontas a que nos esmaguem com o sapato.

A falta de atitude interventiva torna-nos na vítima potencial, pronta a ser predada pelas feras argutas, e mesmo pelas acéfalas. Não cultivamos a aura que as faria olhar-nos de soslaio e temer pelas consequências de nos obstruírem o caminho. Assim somos como meras ovelhas indefesas face à matilha de lobos, em que só o número de potenciais vítimas no rebanho as pode salvar; pelo facto de, na escolha dos lobos, a sorte caber a algumas em detrimento de alguma sua irmã que será devorada. Esta forma de defesa não é digna de quem se encontra no topo da cadeia alimentar. Envergonha-nos na biologia.

Tivéssemos algum brio, não na imagem mas na essência, e haveria menos barrigudos. Fisicamente mais aptos ficaríamos mentalmente mais sãos. Consequentemente mais auto confiantes, em sequência mais altruístas.

Não estamos apenas a engordar fisicamente. É também a gordura moral que nos vai tolhendo os movimentos, roubando aos poucos a agilidade mental que nos tornaria mais aptos a colher direitos e mais prontos a executar deveres. E tantas vezes vemos direitos a ser exigidos sem que se pense na contrapartida...

E a tenacidade? Pelo contrário! Quebramos à mais pequena adversidade. Sem capacidade argumentativa para ripostar à altura, principalmente por falta de robustez.

Mimados, é o que estamos. Pensamos que merecemos um doce só porque pretensamente nos portamos bem. Mas os lobos crescem em tamanho e em número, e levam-nos a razão, os direitos e o prémio.


Devíamos ter um bocadinho mais de alma de campeão.





© CybeRider - 2009

domingo, 27 de Setembro de 2009

Pequeno e Imprevisto

Este exercício é resposta daqui
.
Neste belo mas aziago dia
Havia por cá eleições
Eu, apesar de incauto sabia
Que em defesa da democracia
Se iriam mover multidões.
.
O que das sondagens se previa
Que o poder absoluto findasse
Trazia dois grandes em agonia
Mas não me causava fobia
Que o meu voto não aplacasse.
.
Para escolher quem ganharia
Vieram da cidade e das hortas
E eu apostava a lotaria
Que iriam fazer porcaria
Mas nunca que ganhasse o Portas.



© CybeRider - 2009

Enfarruscado

Acordei noutra dimensão.

Estendi o braço para puxar o cartão e os jornais que me aqueceram pela noite.

Sete da manhã, pelo relógio da torre. Se é que ele sobreviveu a outra noite, ou talvez esteja a dormir, como eu deveria estar… Para sempre. Chamei o Bartolomeu, que me tem acompanhado nestes derradeiros dias de exílio. Não o encontro... Chamei de novo… Ah! Lá vem ele, a abanar a cauda… Afago-lhe a cabeçorra sorridente, de língua de fora... "Só tu para te rires, meu amigo...".

O jardim está todo lá. E a rapariga do fato de treino rosa, já corre por ali, junto ao canteiro das hortênsias, de auscultadores nos ouvidos. Nunca me viu, como ninguém me vê... A rega não está ligada… Dirijo-me a ela, passo-lhe a três, quatro metros, a contravento, não quero que me sinta o cheiro nauseabundo, que só eu já não sinto. Tomo o meu pequeno-almoço: o cheiro inebriante que ela exala, vai-me durar para uma boa hora.

Há muito que ninguém sorri para mim. Só o Bartolomeu, "não é, meu velho?..."

Acordar noutra dimensão pode trazer-nos dissabores. Começo a achar que também este dia me vai correr mal.

Olho para as minhas mãos. A pele grossa e suja, as unhas partidas de sabugos negros. Podia ir ao mar, mas não quero que pensem que o Adamastor se ergue das ondas. E se fico pior da tosse?... O desalento é grande, arrasto-me pelo passeio, sujo como eu. Condizemos, e o Bartolomeu não se importa. Apanho a beata quase inteira que alguém deixou ali para mim, à porta de um táxi que partiu. É fácil encontrar tudo nesta natureza. Onde tenho o isqueiro?... Revolvo os bolsos. Neste não, que já estava roto, tem de estar neste... Ahhhh! A primeira passa estremece-me de prazer.

Preparo-me para a aventura. O jardim ainda cheira a manhã. Vou ao lixo, passo sempre cedo, porque as coisas grandes são deixadas durante a noite, para que ninguém encontre quem as abandona. O sofá, a mesa, o rádio que funciona quando encontro pilhas, apanhei-os todos assim. A comida é junto ao hipermercado, às duas da manhã. Aí chegamos quase a andar à pancada... Que tenho o meu orgulho, não vou à "sopa dos pobres", esses são os que não têm espírito de aventura, eu sou um sobrevivente. Também não quero ser "inserido", antes que me esqueçam, quero perder os números que já me ligaram à sociedade, há muitos anos, e o nome. Que me esqueçam, para sempre! Moradas... Sim, essas tenho-as todas, cada rua e avenida, cada praceta, rotunda ou cais, todos meus sem que eles saibam.

No desperdício valorizo os medicamentos... Hoje não há.

Olha... Uma bicicleta! Que aconteceu?... Começo a pensar que me estão a pregar alguma partida. Olho à minha volta, mas não vejo ninguém que pudesse querer rir-se de mim. Hoje não. Só vejo os que não me conseguem ver, do costume. Não me recordo de alguma vez ter tido uma bicicleta só minha... Ena! Tem mudanças!

Há-de haver uma explicação para tudo isto, penso; enquanto vou pedalando rua abaixo até ao quiosque dos jornais. Podia ter sido pior, nem os pneus estavam muito vazios. Há-de haver uma explicação... Logo estarei de volta, ao padrão que tão bem conheço.

Tenho de encontrar o Chico, troco-lhe isto por um maço de cigarros e o gajo vende a bicicleta e compra uma ganza. O gajo consegue vender tudo por causa da droga, a necessidade dá-lhe a astúcia. Já eu, não tenho necessidades. Além disso, com a bicicleta, o desgraçado do Bartolomeu esfalfa-se para me apanhar. Outros me seguiram, o Acácio, o Manuel, a Catarina, a Júlia... Só o Bartolomeu responde pelo nome que lhe dei. Os outros partiram, fartos da minha vida podre. Como a família, esses malandros que se me desapareceram para a solidão. Não guardei as moradas nem os telefones, da família; que os cães, esses nunca foram meus, os nomes que lhes dou fazem-nos ser da minha trupe. Os da família querem-me menos que estes soberbos que passam; que nem me acotovelam pelo temor que lhes causo, e para quem um metro de distância me torna transparente. Pensam que não tenho escrúpulos, nem sentimentos. Que sabem eles de mim, se nem me vêem?

Que fome...

Ah... Um jornal de ontem!

Separo as folhas. Quase nem reparava, no nome igual ao meu, ali, em letras garrafais. Hum... Este teve problemas com os negócios... Pois, a fábrica... Coitadinho...

Não devia ler jornais. Fazem-me reviver um mundo que já vou esquecendo.

Pior que acordar rico no dia em que se perdeu tudo, será acordar com pouco ou nada para perder.

Amanhã... Amanhã, não quero recomeçar, outra vez.


© CybeRider - 2009

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Resplandecente

Acordei noutra dimensão.

Estendi a mão para a campainha para pedir o pequeno-almoço. Não estava lá, a campainha… Estranho… Ia jurar que…

Chamei o Bartolomeu, o meu fiel mordomo, que me recebe sempre com o meu roupão nas mãos prestáveis, aquele que costumo vestir enquanto vou até ao corredor apanhar os jornais que o Manuel, o meu motorista, costuma trazer logo cedo. Chamei de novo… Nada…

Espreitei pela janela. O jardim está todo lá. Estranho não ver o Acácio no canteiro das hortênsias. A rega não está ligada…

Dirijo-me à cozinha, por esta altura devia sentir no ar o cheiro das torradas, afinal já acordei há uns bons quinze minutos. A Catarina recebe-me sempre com um sorriso maravilhoso, e a Júlia é uma cozinheira fantástica. Mas hoje a Catarina e a Júlia também não estão ali. Que se passa?

Acordar noutra dimensão pode trazer-nos dissabores. Começo a achar que o dia me vai correr mal.

Olho para as minhas mãos. A pele está fina, as unhas brilham do verniz de ontem. Vou até ao duche, já que o dia vai ser diferente, preparo-me para a aventura.

A água quase fria sabe muito bem. Visto-me, ainda a pensar que o Bartolomeu tem sempre uma boa sugestão para me adequar as vestimentas e os atavios ao estado do tempo. Assim tenho de ter cuidado para não trocar os pares de meias, nem os sapatos. Será que esta camisa me condiz com este par de calças? Olho-me ao espelho. Pareço-me bem.

Saio. O jardim ainda cheira a manhã.

Vou à porta da garagem entreaberta. O Manuel também não está. Que aconteceu?... Começo a pensar que o Bartolomeu, o Manuel, o Acácio, a Júlia e a Catarina me estão a pregar alguma partida. Só tenho ali um carro que nem sabia que era meu. Que coisa… Começo a suspeitar que vamos ter problemas… Não me recordo de alguma vez me ter sentado num meio de transporte tão desadequado… O quê?... Não encontro o botão do ar condicionado.

Há-de haver uma explicação para tudo isto, penso enquanto vou conduzindo rua abaixo até ao quiosque dos jornais. Troco as moedas pelo jornal. Sento-me na cafetaria e peço. O pequeno-almoço, por fim; não das mãos da gentil Catarina, que me saberia melhor, bem melhor… Podia ter sido pior. Podia ter acordado cego pelo brilho do ouro. Que faria sem os meus serviçais?... Há-de haver uma explicação. Logo estarei de volta, ao padrão que tão bem conheço.

Desfolho o jornal. Quase nem reparava, no nome igual ao meu, ali, em letras garrafais. Algo aconteceu com a fábrica. E com as acções… Assembleia de credores…

Ninguém me ligou pelo telefone. Não liguei o televisor… Os meus assessores não me informaram. Demitem-se ou despeço-os?...

Não é bom acordar rico no dia em que se perdeu tudo.

Amanhã recomeço outra vez.



© CybeRider - 2009

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Nem por acaso...

Desdobrei o mapa sobre a mesa ampla.

Fechei os olhos. Estiquei o braço e deixei que o acaso escolhesse o meu destino. Passar da ideia à acção não foi obra do acaso. Chegar lá inteiro talvez fosse. Olhei o mar, companheiro de uma vida. Também ele sempre igual a si mesmo, indiferente aos acréscimos dos homens, que lhe são vil natureza.

A manhã calma propiciou o passeio pela marginal, solitária ainda. Apanhei o pequeno papel. Os pássaros murmuraram-me algo imperceptível. Era um pequeno talão onde a esperança de alguém parou por momentos, na escolha de cinco números e duas estrelas. Estava válido ainda. Não fosse o acaso e teria sido uma esperança em vão. Guardei-o na algibeira com a noção de que talvez o fado me quisesse murmurar algo, assim como os pássaros.

Tentei que o destino dos meus olhos vagueasse ao acaso. Não é um exercício fácil, parecemos direccionar os sentidos para as coisas que nos interessam.

As flores do jardim emanavam o aroma da frescura. Algumas gotas de orvalho estavam suspensas, aqui e ali, ao acaso. E os raios de Sol, que casualmente atravessavam a folhagem das árvores, embatiam-lhes e dançavam na direcção dos meus olhos, tentando feri-los e privar-me daquele pequeno milagre casual da natureza.

Escolhi uma cadeira na esplanada ainda vazia. Pedi a bica. Reparei no casal que passava casualmente por ali; trocavam risos. Senti-me bem. Diria que só por acaso não tropeçaram em mim. Saboreei a pequenos goles as primeiras gotas do café, por acaso bastante quente. Bebi o restante de um trago.

Reflecti então sobre o destino. O que nos reservará o acaso; esse milagreiro pardo que nos traça um caminho ignorado, esperançoso, desilusório, gratificante ou não, expiatório às vezes, inquisitório sempre, desejado, concreto e talvez indefinido?

Não existem acasos na natureza. Nunca houve laranja que brotasse de um galho ao acaso, nem onda que se abatesse em pedra “porque sim”. Não haverá raio que a natureza me mande, ao acaso. A física dirá por que motivo me terá calhado a mim.

Somos nós afinal que o traçamos, esse engulho que nos justifica tudo o que não explicamos. São as escolhas que abraçamos, e os desvios que nos infligem, que nos justificam tudo o que acontece.

No salão de jogo, a virtualidade que nos atribui um terno de seis aos dados não é um acaso. Fomos nós que fabricámos os cubos e lhes marcámos os ícones que simbolizam os números, criámos os números também, para interpretarmos a natureza casual, e acreditamos que aquele ângulo natural em que o vértice ou a aresta do pequeno cubo embate no pano verde e que define qual a face a ficar para cima, há-de determinar o sorriso que o futuro não anteviu. Nós demarcamos as regras, que pretendemos casuais para tudo aquilo que a natureza nunca pariu.

O dia esgotou-se num ocaso magnífico, esse bem real.
Segurei o pequeno papel nos dedos e fi-lo deslizar pela abertura da caixa de correio do prédio incógnito que me passava ao lado.

Também me passou ao lado o sorteio. Nunca cheguei a saber se alguém foi premiado naquele local, onde estive por casualidade.


Por um acaso posso ser um maçador. Estou convencido de que o sou a propósito. E afirmo à exaustão, para que não me esqueça, que o acaso não existe; a não ser como fundamento hipotético na nossa mente. E sempre criado por mão humana, será eventualmente a única criação exteriorizável, mas irreal, genuinamente feita a alguma imagem e semelhança.

E gostava que me corrigissem se, por mero acaso, estiver errado.


© CybeRider - 2009

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

O "Ter" das coisas

Encontrei-me casualmente comigo há dias.

Havia tempos que não me via. Estava sentado num penedo. Agachei-me e perguntei-me o que tinha. Olhei-me nos olhos... Não... O olhar estava parado, fixo num ponto de fuga, a quilómetros de distância. Respondi que não tinha nada, enquanto recordava os meus, que amo, e uma vida por acabar.

Olhei-me com o mesmo olhar vazio, sem emoção que classifique o bater do coração.

Tenho vindo a adequar o discurso, pela constatação clara de que já não importa o "ser" das coisas. Importa-lhes principalmente o "ter". Daí que o saber, aquela faixa estreita onde a crença e a verdade se sobrepõem, pouco importe; porque é relativo, muito relativo...

Às voltas com este transe... O sábio que antes invejámos ao afirmar "só sei que nada sei", demonstrando clareza sobre a enorme variedade de conhecimentos que houvesse para apreender, face à diminuta capacidade do Homem para tal grandeza, hoje é o que apregoa ao vento "só sei que nada tenho".

Por isso a inteligência se mede cada vez mais pelo sucesso, pelas influências apropriadas, do que por formas de pensar. Louco já não é o que se passou do juízo, que se designa, também em contra-senso, por "infeliz". Louco é o que vive sem nada, porque nada soube amealhar, esse sim temido e repudiado por todos.

Consequentemente tenho de admitir que "tenho, logo, existo". Deixo para trás o paralelismo em que a consciência do ser se relacionava com a actividade cognitiva, negando o insano. A afirmação do sábio remete-nos agora, por silogismo, à definição de existência apenas para quem possui.

Esta afirmação completa-se em círculo; pela conclusão de que o sábio, que afirma que nada tem, na realidade estar em rota de negação com a sua própria existência, o que confirma a tese de que o saber é, não apenas tendencialmente inútil, como uma via directa para o ostracismo, para a marginalização, para o degredo.

A sociedade ensina-nos que sem ter não haverá saber, e isso definirá a nossa permanência. O saber, que nos negaria a essência, é-nos assim fornecido a conta-gotas. Na medida exacta a permitir que continuemos a fomentar a ambição, e dessa forma levar-nos a justificar a nossa existência.

Tecidas estas considerações sumárias comigo, resta-me a imodéstia de vos confessar que não existo. O que me torna no imortal mais procurado do planeta. Sou também, por isso, o único sábio ignorante, e aqui aproximo-me do conceito antigo, mas por razões diversas...

Deixei-me a olhar inexpressivamente para o tal ponto de fuga. Afastei-me desse louco que nada tem.

Ao fundo as luzes da cidade atraíram-me como cantos de sereia. A tal cidade... Onde de tudo existe, a mesma onde nada se sabe, aquela onde tudo se conquista.

E fiquei a pensar, numa ambição antiga... Se ao menos tivesse juízo...

© CybeRider - 2009

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

E Setembro ficou mais frio

Arroz de tomate com biqueirões fritos.

Estavam-me a saber bem, na tasca do Alfredo... No ar um certo cheiro a borrego guisado.

Não sei se já vos tinha dito, mas detesto borrego. Ainda para mais guisado. Mas biqueirões fritos... E com arrozinho de tomate...

Olhei para a imagem no suporte de parede, com aquele ar com que sempre olho para as imagens nos suportes de parede, a indiferença, as ideias a batalhar com o que os olhos querem deles. E vi aquele símbolo da minha civilização ocidental ferido. E lembro-me que um biqueirão me ficou a arrefecer no garfo. Sem que eu visse a minha boca entreaberta. Os ouvidos a estenderem-se-me pela sala, a tentarem abafar as conversas dos pedreiros e pescadores que atulhavam aquele diminuto espaço, pleno de cheiro a gente e tabaco, para tentarem abraçar o pequeno altifalante, que me dissesse que aquela imagem mal definida, pior que qualquer filme de Hollywood, era um pioneirismo mal conseguido dalgum filme de série B.

B... do biqueirão que me arrefecia no garfo...

Era tudo verdade, menos a repetição, que o não era. A repetição era a confirmação de que o meu mundo estava a sofrer, mais do que imaginei que fosse possível.

Não me recordo de como se acabaram os biqueirões do meu prato, nem se comi o arroz frio. Mas recordo-me de ter saído da tasca do Alfredo, onde as conversas tinham baixado de tom mas se mantinha o cheiro a gente e a tabaco, e de ter corrido para um espaço em que a televisão fosse minha, para me poder enfiar pelo écran em privado, como quem procura a latrina para descarregar a mais eminente diarreia. Julgo que ainda paguei a conta. Senão, talvez o Alfredo me tenha perdoado; porque nunca mo disse.

E não me lembro de muitas vezes em que a tristeza me tenha motivado a correr mais do que a curiosidade. Sei que a alegria e o desespero me produzem esse efeito. A tristeza... Não sabia.

Aprendi a esquecer que o avião do Pentágono não tinha asas, nem bagagens. Aprendi a esquecer que o avião da Pensilvânia tinha um sistema vanguardista para a época, que permitia comunicações de telemóvel. Aprendi a esquecer que todos os seus ocupantes e os seus pertences se esfumaram na terra que os recolheu. Aprendi a esquecer que quem quer que tenha calculado ao rigor cada milímetro daquela operação se esqueceu que uma hora mais tarde teria aniquilado mais trinta e seis mil pessoas...

Mas nunca mais me esqueci de que a civilização, que me criou um ícone de orgulho que guardo religiosamente em tantas fitas de cinema, tem a triste capacidade de tudo destruir em segundos, e de acabar com milhares de vidas inocentes, por meros fundamentalismos.

E hoje, sei por A de Alfredo mais B de biqueirão, que corro mais depressa. Principalmente, se vir um avião a voar baixinho.


© CybeRider - 2009