segunda-feira, 15 de junho de 2015

Anamnese decadente


As memórias são como convivas duma festa.

Das pessoas, umas, depois do convívio, aparecem de mão estendida ou dão-me dois beijos na cara, outras partem sem um adeus. Muitas, voltei a vê-las, visitei algumas, outras visitaram-me, outras gostaria de ter visitado ou que me tivessem visitado a mim. Algumas queria não ter voltado a ver, mas voltei. Outras não vi nunca mais.

Exactamente como as memórias. Calculo que cá por dentro andem em festa, as boas e as más, numa frenética orgia indecente. Algumas aparecem e dizem-me que estão prestes a partir, estendo-lhes a mão ou dou-lhes dois beijos na cara, e vão-se. Outras digo-lhes que fiquem, que tomem outro copo; pretexto para encher o meu e beber pelos dois. Depois vão-se e eu fico, a derreter o gelo do copo, com o coração mais quente, ou por vezes mais apertado. Às vezes fico a pensar nelas, se não seria melhor deixar de persegui-las, deixá-las morrer em paz.

Que a partida das memórias é pior que a partida das pessoas de uma festa. As memórias, quando partem de nós, morrem de vez.

Ainda que venham despedir-se, algumas ficam ali pelo jardim, escondidas num arbusto qualquer à espera que me esqueça eu delas, antes de serem elas a esquecer-se de mim. Mas já vi partir algumas que não voltaram. As que me esquecem deixam mágoa, mas das que me esqueço não me lembro.

São feitas de muitas coisas, umas de acontecimentos, outras de rostos e dentes e unhas, pernas e saltos-altos, bengalas e monóculos, ou óculos e expressões. De quantos decotes já me esqueci?... Memoráveis, partiram; sem aviso, sem um adeus, sem dois beijos na cara. Estranho que as refira porque não me recordo delas e no entanto sei que existiram e que as mantive por algum tempo, mas não sei como posso afirmar isto se me morreram de vez. Lábios carnudos, mãos doces e ásperas, algumas a magoar-me os ossos outras prestes ao fanico, queixos enrugados, cabelos longos a esconder formas sedutoras, olhos azuis, castanhos, verdes, negros, vermelhos também, podia jurar que vermelhos também, uns abertos de espanto, outros semicerrados de dúvida, outros de dó, indecentes, uns fechados de riso, outros a afogar-se em lágrimas, umas poucas de alegria mas tantas de tristeza, corpos disformes a ameaçar-me pesadelos, desdentados, implorantes, vozes.

Vozes… e palavras, algumas ameaçam voltar para me assombrar os sonhos. Temo que algumas possam vir sussurrar por detrás de alguma porta. Nesse dia talvez não passe eu de uma simples memória de mim.

As memórias não envelhecem, vão-se dissipando, tornam-se de vívidas a translúcidas sempre com a idade que tinham quando lhes peguei ao colo e se me agarraram ao pescoço, que é sempre assim que se entranham, pelo coração, nunca pela cabeça.

Há as mais negras, tétricas, de sangue e morte. Ali embrulhadas umas naqueloutras mas estas, quando aparecem, vêm sempre sós e avassaladoras. Algumas não vêm para se despedir. Aparecem para me afirmar que ali estarão por mim, de pedra e cal, como algumas pessoas. Garantem que nunca partirão até ao fim dos meus dias, quer eu queira quer não. Curiosamente, no caso das memórias, nem sempre são as que quero que me visitam com esta garantia, são as outras, sempre sarcásticas e traumáticas. Por mais que lhes grite: ide-vos! Ali ficam a atormentar-me, um dia após outro, até que se escondem num qualquer arbusto do jardim. E posso pensar que partiram, mas sei que acabarão por voltar, dessas nem eu me esqueço, nem elas de mim. Quase poderia jurar que quando voltam se avivam, mas sei que sou eu que as agiganto, sem dar por isso faço-as crescer ao meu tamanho, depois espero pelos dois beijos na cara, mas dão-me um soco e derrubam-me. Fico para ali caído a esbracejar ou agarrado às tripas a tentar fazer delas coração. E quanto mais coração, mais lembranças a saltar-me ao pescoço.

Já não sei se as memórias são pessoas ou se as pessoas não passam afinal de memórias que, a mal ou bem, passam pela festa e, umas de mão estendida outras com dois beijos na cara, ou não, desaparecem um dia misteriosamente e sem rasto.

E as de mim?

Há sempre um sabor agridoce, que sinto, em cada memória de mim.

© CybeRider 2015

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O retorno do Messias


Quando voltou, quase dois mil anos depois da primeira vez, já não se lembrava de quem tinha sido. Veio em carne, de uma mãe e de um pai. Não trazia planos escritos nem instruções programadas. Voltou para alertar as gentes de que nunca haveria um deus que lhes perdoasse os pecados. Ele jamais o faria.

Cedo, para se integrar na espécie, se alimentou dos animais que amou e das plantas, como qualquer humano comum. Não trouxe sinais distintivos nem nome que o identificasse. Não foi especial, porque veio sozinho sem pretensões de comando. Desde tenra idade conheceu a paixão e viu que isso era bom.

Aprendeu a comunicar com uma linguagem que nunca conheceu completamente em nenhuma das suas variantes. Nenhuma correspondia totalmente à que tinha em si, por isso a sua tarefa seria tão mais árdua. Também cedo compreendeu que tudo o que dispunha era de uma parca e vulnerável humanidade. A única diferença que trouxe dos outros mortais foi a sua própria individualidade. Tentou confirmar se outros teriam uma, em muitos casos chegou a pensar que não.

Com tão poucos poderes nunca reconheceu ter salvado alguém, nem permitiu que alguém se recordasse de por ele ter sido salvo. Não pôde por isso curar os doentes, nem dar a conhecer que tivesse alguma vez semeado o bem à sua volta. Chorou muitas vezes sozinho perante as suas incapacidades; nas poucas em que se permitiu fazê-lo em público foi por coisas triviais. Nunca contou ao mundo que aquilo a que chamam galáxias são o imenso público que, sem crítica, pena ou aplauso por qualquer hipotética glória, assiste ao improviso que decorre neste pequeno palco esférico e azul.

Não trazia consigo promessas de imortalidade ou de paz porque não eram sua intenção. Para os compreender cometeu heresias contra si e contra os falsos deuses panfletários, os únicos propalados, e também algumas pequenas violações às leis dos homens, talvez, que são complexas as leis dos homens. Acabou por se tornar quase tão humano como eles. O mal e o bem, por conceitos terrenos já muito debatidos, não lhe ocupavam de sobremaneira o pensamento, aprendeu-os à laia humana de forma a praticá-los ou evitá-los como era corrente ver fazer. Tentou sempre evitar acto que envergonhasse eternamente a humanidade pois que esta lhe pertencia. Cumpriu este desígnio com determinação apesar de constatar que os seus, agora congéneres, não tinham muitas vezes esse cuidado.

Cedo também comprovou a falibilidade das suas forças. Repudiado desde criança por não ser um ás nos desportos, e por padecer das doenças comuns dos mortais pela natureza que o trouxe, nunca esperou reconhecimento nem pediu lições ou directivas aos céus, porque o único pai que teve era de carne e osso.

A primeira recordação que tinha da frágil compleição da sua estrutura física para cumprir os desígnios da sua mente, aconteceu por volta dos seus catorze anos. A necessidade do relato seguinte justifica-se por ter sido um marco que o acompanhou toda a vida e que lhe ensinou o arrependimento:

Por essa altura já ele amara platonicamente outras crianças como ele, sem que alguma vez o tivesse expressado ou tivesse sido correspondido. Amélia era uma criança doce, pacata e de trato fácil, vestia de forma convencional e a sua voz, maviosa e segura, contrastava com o semblante tímido injustificado, por ser dona de uma beleza invulgar. Ela teria a idade dele num corpo de mulher feita. Ele sempre se furtara a perceber a maneira carinhosa com que aqueles belos olhos negros o envolviam, assim como o sorriso especial que ela lhe dedicava quando por vezes lhe dirigia algumas palavras tímidas. Um dia porém, encontrava-se ela na presença de outras amigas, por alturas do intervalo das práticas mundanas do templo, numa sala apinhada de outros praticantes como eles, quando ele ia a passar por Amélia ela sorriu-lhe daquela maneira singular à qual ele correspondia, mais por simpatia que por interesse. Num gesto arrojado que Amélia terá forçado contra a sua habitual sobriedade, ela resolveu em tom de brincadeira, e talvez para criar entre ambos um efeito de proximidade, atingi-lo com um pontapé no traseiro. Perante o gesto imprevisível, a reacção dele, impulsionada pela presença da vasta audiência, foi explosiva. Ao ver que o seu braço se libertara, tentou sem sucesso conter o movimento elástico com que a sua mão, para seu desespero, se abateu na face da única criança que declaradamente até então o amara, como só naquele instante ele percebeu, sem ter alguma vez sido correspondida. Pesaram-lhe para sempre as lágrimas que de imediato brotaram dos olhos de Amélia, mais pelo sabor amargo da injustiça que da dor, bem como a memória da sensação gélida que subitamente lhe acometeu o peito. Quedaram-se alguns segundos em silêncio, olhos nos olhos, e nunca voltaram a trocar uma palavra desde aí.

Foi também por essa altura que confessou a seu pai o desprezo que trazia pelos bens materiais, sem que alguma vez aquele tivesse compreendido a sua atitude. Essa posição, que lamentou algumas vezes por tudo o que o impediu de fazer pelos seus poucos discípulos, levou-o a um destino por vezes frugal que acentuou a forma imperceptível como passou pela humanidade. Desde o início compreendeu que a sua vinda fora de novo um infeliz desperdício, perante a ignomínia que encontrou e a incapacidade de meios para propagar a sua doutrina.

E foi por isso que na fase inicial da sua adolescência conheceu o ódio, ao culpar pai e mãe pelo seu regresso, que invariavelmente lhe custaria a morte física, que olhava como qualquer humano com respeito, por constituir o limite derradeiro desta sua nova acção no mundo. Aprendeu a seu tempo a amadurecer as emoções. Compreendeu por fim que os seus pais carnais, meros receptáculos do poder divino, pouco tinham afinal a ver com o seu aparecimento de cuja culpa era ele o único titular.

Anos mais tarde, numa experimentação singular, resolveu unir a sua à vida de uma mulher, limitando desta forma a vida de alguém terreno à pouca exuberância da sua de natureza sobre-humana. Conseguiu, entre outros, o milagre de que ela nunca o culpasse por isso. Cedeu a vícios dos comuns mortais, mais em desafio à vida que pelo desconhecimento de malefícios. Desta forma estabeleceu os seus próprios limites aos excessos por ter verificado que as diversas formas de prazer rapidamente o seduziam.

Dos outros milagres que realizou, há relato de ter deixado um descendente, fruto de ter conhecido em sentido bíblico, para compreensão do conceito. Por uma ocasião terá transformado o vinho em água.

O estranho episódio carece de explanação mais cuidada. Tenhamos em mente que as crenças dos homens, têm como cânone de pureza divina o exemplo de um acólito, versado em empirismos e presente na terra em momento simultâneo à sua primeira estada, que teria em dada ocasião transformado água em vinho; acto reprovável, conhecidos que são os efeitos que as drogas produzem na mente humana, levando os sujeitos aos actos mais tresloucados.

O milagre que se relata aconteceu por volta dos seus cinquenta e três anos de idade e não teve testemunhas conscientes que o possam comprovar. Por ocasião de um farto banquete que um seu discípulo se propôs ofertar-lhe, que consistiu em três travessas de enguias fritas, uma de choquinhos, acompanhadas de outras duas de batatas fritas e uma de salada, tudo isto para duas pessoas, quis a má sorte que ao servir a última das cinco garrafas de vinho, quatro de verde e uma de tinto, o precioso líquido sanguíneo tenha gotejado em abundância nas suas calças. Perante o riso do discípulo e do dono da casa de pasto que chegou a referir que o discípulo teria de ressarcir pela peça estragada, ele, ciente do mau agouro que aquele facto lhe traria ao ambiente doméstico, terá passado os dedos sobre as nódoas sem que um ou outro dos presentes notasse, tendo-as feito milagrosamente desaparecer. Pelo que se diz não há testemunha que o ateste, sendo que as calças, que ainda existem, facilmente o comprovam.

Consta que deixou pequenos e esparsos relatos escritos ao longo da sua existência, que muito poucos leram e menos criticaram, desconhecendo-se o actual paradeiro destes valiosos documentos. Sabe-se que num neles afirmava que perante o niilismo pandémico que grassa na mente humana não lhe restará outra solução que não seja regressar dentro de dois mil anos, já que tal como da primeira vez, quando foi confundido com o outro que lhe roubou todo o protagonismo, também esta tentativa foi um rotundo insucesso.

Do seu destino sabe-se muito pouco, não sendo descabido afirmar que possa ainda vaguear entre nós.



© CybeRider 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Espelho d'alma

Por duas vezes, duas, no espaço de um mês, sou confrontado com um maluco a atravessar a passadeira no momento em que o semáforo abre para mim, nem o mesmo maluco, nem a mesma passadeira, na minha cidade. Por duas vezes, duas, fico parado à espera que cada maluco atravesse. Tenho pressa, a vida é muito curta e sei que o tempo se pode acabar aqui, por isso ninguém tem, ninguém pode ter, mais pressa que eu, só deus se quiser salvar uma vida, matar um leproso ou um órfão faminto, por compaixão. Penso que podia ser eu um daqueles malucos se ficar um bocadinho, só um bocadinho, mais maluco, talvez já ali à frente, no próximo cruzamento que tenha um semáforo, não o mesmo, outro, que aquele já está ocupado por deus que me espera. Se me demorar mais um pouco encontro-o, ou ele a mim. Sei que, se me demorar mais um segundo morro, aposto que morro. O outro maluco babava, arrastava os pés, inclinado para a frente num ângulo impossível, o olhar vazio em frente, não me viu. Este desenhava corações no ar, enquanto falava com os pássaros numa linguagem que só eles entendiam, olhou-me como se eu fosse um pássaro, mas não falou para mim. Voei pela janela e peguei-lhe numa mão, para que andasse mais depressa puxei-o com força, antes que as forças me faltassem e desfalecesse. Deus. ao fundo, gritava-me que não o puxasse, que me castigaria matando dois pássaros. Por duas vezes, duas, o motorista atrás de mim, nem sempre o mesmo, e verifiquei bem que não era o mesmo, que ainda me lembro bem do outro, tanto quanto me lembro bem deste, buzina e dirige-me impropérios, nem sempre os mesmos... Não temo mafarricos, pois se só deus tem o poder de matar os pássaros. Ainda tenho calma, nem sempre a mesma, mas ainda tenho esse nível de maluquice. De cada vez acabo por avançar, depois de cada maluco a salvo, e fico a pensar que afinal o maluco sou eu, talvez nem sempre o mesmo, mas sou eu decerto. Naquele minuto precioso fico mais perto do próximo semáforo, onde deus me aguarda em silêncio. O semáforo está vermelho, paro. Ele continua ali de pé. Só eu o vejo, porque sei que ali está por mim. Olha-me como se eu fosse um pássaro e por momentos fico curioso em ouvir as batidas do meu coração, não ouço. Talvez tenha ficado lá atrás, transplantado no último mafarrico, que falta lhe teria feito poder ter o meu coração. Quis ali e além ser um polícia, cheio de galões e medalhas, e ter um cassetete de borracha muito longo e um outro de aço, mais curto, para que todas as minhas crianças e as deles me vissem ali e além ganhar o próximo semáforo, logo ali à frente. Mas não sou e o meu coração não o ofereço sem que me dêem provas de que o merecem. O semáforo abre e Ele começa a atravessar pela passadeira. Sou o primeiro da fila. Carrego no acelerador a fundo e passo-Lhe por cima, ainda motivado pelo som estridente da última buzina e pela memória da outra, e com todos os impropérios ainda presentes. Presto assim um serviço à humanidade, para consolo de todos os que me seguiam na fila. Foi esse o último dia em que alguém morreu na terra.

© CybeRider 2015

Espelho d'aço

Por duas vezes, duas, no espaço de um mês, sou confrontado com um maluco a atravessar a passadeira no momento em que o semáforo abre para mim, nem o mesmo maluco, nem a mesma passadeira, na minha cidade. Por duas vezes, duas, fico parado à espera que cada maluco atravesse. Tenho pressa, a vida é muito curta e sei que o tempo se pode acabar aqui. Penso que podia ser eu um daqueles malucos se ficar um bocadinho, só um bocadinho, mais maluco, talvez já ali à frente, no próximo cruzamento que tenha um semáforo, não o mesmo, outro, que aquele já está ocupado. O outro maluco babava, arrastava os pés, inclinado para a frente num ângulo impossível, o olhar vazio em frente, não me viu. Este desenhava corações no ar, enquanto falava com os pássaros numa linguagem que só eles entendiam, olhou-me como se eu fosse um pássaro, mas não falou para mim. Por duas vezes, duas, o motorista atrás de mim, nem sempre o mesmo, e verifiquei bem que não era o mesmo, que ainda me lembro bem do outro, tanto quanto me lembro bem deste, buzina e dirige-me impropérios, nem sempre os mesmos... Ainda tenho calma, nem sempre a mesma, mas ainda tenho esse nível de maluquice. De cada vez acabo por avançar, depois de cada maluco a salvo, e fico a pensar que afinal o maluco sou eu, talvez nem sempre o mesmo, mas sou eu decerto. Quis ali e além ser um polícia, cheio de galões e medalhas, e ter um cassetete de borracha muito longo e um outro de aço, mais curto, para que todas as minhas crianças e as deles me vissem ali e além ganhar o próximo semáforo, logo ali à frente.

© CybeRider 2015

Espelho d'água

Por duas vezes, duas, no espaço de um mês, sou confrontado com um maluco a atravessar a passadeira no momento em que o semáforo abre para mim, nem o mesmo maluco, nem a mesma passadeira, na minha cidade. Por duas vezes, duas, fico parado à espera que cada maluco atravesse. Tenho pressa. Penso que podia ser eu um daqueles malucos se ficar um bocadinho, só um bocadinho, mais maluco, talvez já ali à frente, no próximo cruzamento que tenha um semáforo, não o mesmo, outro, que aquele já está ocupado. Por duas vezes, duas, o motorista atrás de mim, nem sempre o mesmo, e verifiquei bem que não era o mesmo, que ainda me lembro bem do outro, tanto quanto me lembro bem deste, buzina e dirige-me impropérios, nem sempre os mesmos... Ainda tenho calma, nem sempre a mesma, mas ainda tenho esse nível de maluquice. De cada vez acabo por avançar, depois de cada maluco a salvo, e fico a pensar que afinal o maluco sou eu, talvez nem sempre o mesmo, mas sou eu decerto.

© CybeRider 2015

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Da liberdade dos outros - 3

O luto faz-se de raiva, de revolta, de blasfémia, mas principalmente de libertação. Nesse caminho acaba muitas vezes por nos deixar em pontos longínquos, muito afastados do local de partida e sem retorno. Como as confissões.

Confesso! Que a liberdade dos outros me incomoda profundamente.

Poucos são os que me amam, menos seguramente que os que estão dispostos a odiar-me. Essa liberdade deles é um ultraje,  ofende, magoa, porque sei que nunca me hão-de olhar nos olhos e ainda assim me condenam. No entanto não consigo conceber que a erradiquem. Preciso dessa liberdade como se fosse a minha. A liberdade que têm a usufruir da ignomínia, da ignorância, do desprezo e da calúnia. Sem ela. como poderia eu aprender esses sublimes pecados?... Como poderia torná-los meus para meu próprio delírio?

Somos seguramente dos mais interessantes humanos. Os europeus são únicos em muitas formas de sentir, e nós, que ainda agora aprendemos a dar os primeiros passos de uma realidade que outros já vivem há muito, e somos já nessa mesma aprendizagem rasteirados todos os dias, somos ainda mais peculiares.

Confesso! Incomoda-me a vossa liberdade de amar sem me incluir, de conviver sem me convidar; aquela que vos permite rir e chorar por coisas que já não compreendo e por outras que nunca percebi.

Confesso! Incomoda-me a liberdade de adorarem um deus numa crença pura e devota, porque a invejo de não ser minha. Tanto quanto me incomoda a vossa liberdade de não acreditar em nada nem em ninguém; porque essa forma de mortalidade em vida me deveria ser exclusiva, por ser um veneno que mata a esperança.

Confesso! Incomoda-me a liberdade que tendes de discutir constantemente o sexo dos anjos com a mesma intensidade com que enfrentais qualquer epopeia desconhecida. Estranho que se confunda a liberdade que de facto temos com a que deveríamos ter, e que isto se torne passível de dúvida. O luto a que me refiro não é por vítimas humanas que se perderam, esse poderá ser outro; é pela tranquilidade que partiu nessas dúvidas.

Poderíamos ter seguido normalmente com as nossas habituais dores e incertezas. Ao invés deixámo-nos atingir nos nossos valores. Não eram um objectivo do agressor. Não tínhamos o direito de os colocar na sua mira! No entanto foi exactamente isso que fizemos.

Agora enveredamos por este carreiro de bárbaras questões em que leviana e hipocritamente afirmamos que o que tínhamos era demasiado, quando deveríamos há muito ter percebido que em boa verdade nunca foi suficiente.

O que morreu no atentado, muito para além das pessoas de génio invulgar, que usaram de forma serena mas temerária os dons que tinham, para deleite de alguns e maledicência de outros, mas principalmente como forma de ocupação laboral; e de que imoralidades não serei capaz para assegurar eu a minha; foi principalmente um rol de valores de que muitos nunca chegámos a usufruir e que estão em risco de se perder para sempre, por os questionarmos inconscientemente com tamanha veemência.

Até por isso, confesso! Incomoda-me essa liberdade na forma de velar os mortos, em que só depois da carne começar a arrefecer as suas ideias comecem a fazer sentido.

Eu próprio, assim, estarei sempre em atraso.


© CybeRider 2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Da liberdade dos outros - 2


E podíamos muito bem ter ficado por ali. Era uma teoria bonita, tranquilizadora; podia muito bem significar que o mundo estava temporariamente invadido por uma teimosia, ou insanidade passageira, e que afinal a solução de tudo isto dependia apenas de alguém encontrar o Gandhi  numa esquina, e tudo entraria nos eixos... Pois... Ora eixos... Berlim-Roma... pois... não... adiante. Ora temos Coreia, Argélia, Eritreia, Vietname, Yom Kipur, Cambodja, Afeganistão, Irão-Iraque, Malvinas, Líbano, Golfo, Chechénia, Kosovo, Etiópia, Afeganistão, já tinha dito?... Iraque... Enfim, loucura pandémica. Parece ser usual de quem detém o poder usar e abusar da liberdade que tem e restringir a dos outros. E causas? Podemos procurá-las por esse trajecto, que nunca faltaram.

Por isso, se não dá para andar para diante, que ficava muito complexo, vamos retroceder pois, serenamente,  a Gandhi e meditemos; pernas cruzadas; braços a tocar os joelhos em pose descontraída, tronco direito, polegares unidos aos indicadores respectivos, e respiremos calmamente... Vejo... vejam lá se não vêem!…  o verde da floresta, muita gente, uma estátua do coiso… e elefantes. Ora elefantes... é, é o Sidarta Gautama, o buda! 

Uma referência histórica aponta para que a mãe de Sidarta Gautama terá visto em sonhos um elefante que lhe oferecia uma flor de lótus, na simbologia lá deles uma coisa muito pura e virtuosa, na véspera do nascimento do puto. Pronto. Imagem idílica, a coisa da maternidade, a maminha na boquita, menos um indu a morrer de fome. O sacana do buda, aquele da visão, é aliás gordo como a merda. Os olhares embevecidos e que se trompique lá a porcaria da liberdade que até para explicar, entender e aplicar é uma chatice e os mártires de Paris e do Boko Haram, e do ISIS, e a Jhiad e as intifadas...

Branco... o elefante era branco.

E as vítimas do onze de Setembro que nunca ninguém diz o raio do ano mas que nunca me hei-de esquecer, como já ninguém se lembra do António nem do Marcelo, hão-de esquecer o raio do ano. O outro Marcelo, pá! E o Tomás, desse também já ninguém se lembrava naquela altura, quanto mais agora! Era a tesoura, a tesoura... Diabo que os carregue. E o Augusto Cid, ham?... ainda bonzito, há dois ou três dias, ali na televisão, todo rijo, ali a evitar chamar uma data de nomes ao outro idiota que sentadito ao lado dele teimava, teimava... O Augusto Cid, o das caricaturas no jornal, no jornal... Que disse sempre que aquilo do Sá Carneiro tinha sido atentado, e se calhar foi; sei lá!...

E sei lá se o onze de Setembro foi assim como contaram... Se foi atentado contra as torres ou contra a inteligência de quem se lembra... E em Paris? Porra! Eu estive na tropa!... conseguia lá dar um tiro com um raio de uma G3 que acertasse num melro só com uma mão?... Uma mão?! E o coice?... Aquilo com munição real até dava uma cambalhota se não lhe agarrasses bem, ali!... com as duas mãos e com força! Quanto mais uma Kalash que até rebenta betão. Sim, que eu bem vi, rebenta betão! Ou que não desfizesse o raio de uma melancia?... E os outros que iam de cara tapada e de metralhadoras em riste mas levavam documentos, pá! Mas está tudo doido?...

O elefante branco passou a ser um símbolo sagrado. Diz quem sabe que era prerrogativa do monarca oferecer um elefante branco como agradecimento por grandes feitos, ou talvez por pequenos feitos, ou mesmo por defeitos; porque quem o recebia ficava inundado de boas venturas e honras e também de mijo e caca que o raio do bicho era grande que se fartava e não consta que fosse ao balde.

Mas essa era efectivamente, olha... efectivamente, não gosto. Palavrota pretensiosa, assim como um elefante branco, pretensioso. Um elefante branco é coisa nunca vista. Tão raro aliás que tinham de o pintar de branco antes de oferecer, daí que se tenham passado a considerar, desde essa época longínqua, todos os elefantes sagrados; apesar de os fazerem carregar até há bem pouco, digamos até mesmo ali antes da Portucel começar a produzir eucaliptos, grandes barrotes e os manterem amarrados a grilhetas, porque a liberdade das coisas sagradas também é muito discutível, basta pensar nos tigres, nos pandas... Mas onde é que eu ia?... Ah sim, aquilo do elefante branco era de facto uma chatice, porque comia que se desunhava, tinha de ser muito bem tratado porque a sua morte ou a recusa da oferta era indigna para o visado, que não tinha liberdade para isso; em suma era morto, ou abatido, se quereis; não por Kalashes, que não havia, mas à catanada que também não deve ser agradável à vista, nem nossa nem dos elefantes que, se vomitassem, então sim, ainda daria maior tragédia. E é aliás uma morte que à vista não engana ninguém. Além de que em terras de escassez como sempre foram as daquelas latitudes e longitudes, até mesmo ali antes de termos começado a dar-lhes aquelas paneleirices pequenitas para fazer telemóveis, e as outras maiores para fazer automóveis, e pormos aquela gente toda a trabalhar, e os putos… os putos… aquela ternura no olhar, imagem idílica, a coisa da maternidade, a maminha na boquita. Canojo! Cruzes credo!...  E tudo porque senão passavam fome, aquilo era uma terra miserável e com doenças.

E isto dos elefantes brancos para falar… ah, é verdade, da liberdade dos outros. É que estranhamente, aquilo que se passou em França, aquela coisa desagradável do Charlie Hebdo, que agora toda a gente sabe o que é mas que nunca para cá da Taprobana, a nossa, que pelo GPS é ali desde Badajoz, se tinha ouvido falar; acaba por ser um enorme elefante branco que o Maomé entregou pela mão dos fanáticos religiosos, para quem ache que foram os fanáticos religiosos, ou pela mão de deus para quem ache que foi um acto tresloucado de dois, vá três, malucos que queriam protagonismo e cegaram, mas que não queriam realmente ser encontrados, e que dizem as más-línguas e “que se fodam as más-línguas”, obrigado César Monteiro, que já não assististe a isto, que foram colocados naquela situação por um complexo ardil, pela secreta liberdade do poder político instituído, mas atenção que isto não fui eu que disse! E se disserem que fui, eu digo logo que é mentira e palavra-de-honra que o digo;  oferecido às democracias ocidentais. E que entretanto o Obama; o Putin; o  Xi Jinping; o Naruhito, que na terra dele nunca é referido pelo nome mas apenas por sua majestade o imperador, que não tem grande liberdade afinal porque quem diz alguma coisa é o outro, se estão pouco lixando e ainda acabam ao estalo mas lá na guerra deles; enquanto estes e os ditadores petrolinos acabam por se encontrar agora a braços com a necessidade de aconchegar com toneladas de feno e muito amor e carinho esta besta enorme de conceitos neo-revolucionários, sem saberem ao certo se come trigo, milho ou aveia; víveres esses que alguém que eles embalam para dormir...  aquela ternura no olhar, imagem idílica, a coisa da maternidade, a maminha na boquita...  o mexilhão! dizem os roedores de orelhas grandes, terá de pagar por incomportáveis só para uns, e que por isso já se convidaram aqueles que costumamos vulgarmente incluir na outra lista dos libertinos, vocês sabem quem eles são, para a festa diante do grande espanto de todos os espectadores face à grandiosidade da enorme besta alva e virtuosa toda enfeitada.

E é isto.

Charlie?... Está bem, podem chamar-lhe Charlie, é um nome bonito, lembra o outro dos pés tortos, aquele… que era palhaço.



© CybeRider 2015