domingo, 27 de novembro de 2011

São cruzes, senhor.

Ligado à máquina...

É sempre um passo difícil, largar a aflitiva realidade e mergulhar neste isolamento ansiolítico, e podia pensar-se que seria um refúgio, mas não é.

Lá, é simples, as coisas derivam e escolhemos as interacções, consoante casualmente nos atinjam ou pretendamos atingir. Aqui, invariavelmente, tudo nos atinge e temos de abrir caminho pela pesada tralha que nos sujeita à aparente passividade. Na verdade há tanto a tirar de cima que chego a pensar se, depois de cá vir, conseguirei sair do lodaçal que me sufoca.

De súbito invade-me a ideia de como seria se ficasse aqui para sempre, assim como os volumes que me olham do cimo destas prateleiras. São cruzes, quase todos, marcam a localização de entes que partiram mas que podemos visitar para uma vénia, um derradeiro adeus, uma flor na campa. Ficaria aqui sentado, ligado à máquina que se alimenta a chouriço e casqueiro, até que o pó me cobrisse, entupisse o aparo e estagnasse a corrente; o braço a mexer invariavelmente, com uma tremura lânguida, as letras imaginárias; os olhos semi-cerrados; e mais nada, até ao fim da eternidade. Por isso temo sempre o regresso. Ainda que consiga desligar o braço a tempo, há sempre algo que acaba por ir parar à prateleira e que fica ali a olhar para mim, à espera da tal vénia, de um acenar saudoso ou de um aroma a crisântemo que lhe eleve a alma, e torço para que não seja eu a cruz que ali falta.

Até por isso recorro com frequência a um subterfúgio, deixo-a ali a dar ao braço, enquanto vagueio por outros sítios que me trazem melhores recordações; nessas alturas fico atento à criatura, que não venha no meu encalço, que não descubra o que ando a fazer, enquanto a vejo dedicada, imersa na imensidão de escombros, a tentar desenvencilhar-se, e parto para a prateleira das recordações, onde as cruzes são etéreas. A memória é uma amante traiçoeira, sempre pronta a afirmar tudo o que me convenha para o bem e para o mal, uma pretensiosa meretriz que se aproveita da minha necessidade para me encher de convicções de que também se empanturra. E no entanto é essa mentirosa que me conforta, que me aperta a bochecha entre os dedos de uma velha e que me sussurra ao ouvido:  "que linda bochechinha" , e ali fico a sonhar, a sentir um leve ardor na bochecha e a recordar dias em que as cruzes não faziam sentido. E de repente todas as velhas me parecem dignas de me ter apertado as bochechas, vá-se lá saber porquê.

Duas mãos firmes nas minhas costas empurram-me num baloiço, o meu joelho esfolado; sempre tive um joelho esfolado. Agora cai-me um dente de leite, vejo-me ao espelho com um  sorriso desdentado, mas não sou eu, é a criatura. Eu nunca tive dentes de leite, ou tive? Fico confuso, a memória a rir-se de mim e eu, como de costume, estatelado ao comprido, com um fio de sangue a brotar do joelho. O sangue é sempre meu, até o do perú do natal e o do porco da matança.

Olho para a criatura, maquinal, frente à sua página, debate-se, atolada. Enquanto tricota, confiro-lhe a solidez do relato, verifico a escolha dos caminhos mais fáceis de que se socorre; vem-me à ideia que procurará uma saída airosa que justificasse a sua independência de mim. Não a censuro.

Faz hoje cinquenta anos que convivo com ela, sei, sempre soube, que um dia me há-de abandonar à minha sorte, e eu talvez nunca venha a saber se as memórias são minhas ou dela. Tolerante, ou simplesmente interessado, acabo-lhe de novo com o sofrimento, ocupo-a, tiro-lhe a caneta da mão, tranquilizo-a. Arrumo na prateleira outra cruz, que trás com ela, dos destroços onde nos tínhamos enterrado. Nesta simbiose encontro-me velho e tenho até vontade de lhe agarrar na bochecha descarnada e de lhe dizer ao ouvido: "que linda bochechinha", mas contenho-me; ela saberia o tamanho da minha hipocrisia.

Sou sempre eu quem salva a criatura fleumática, sem especial prazer, apenas porque preciso dela para transcrever o sorriso desdentado ou as lágrimas saudosas que algumas cruzes me provocam, pontualmente, à medida que vou interiorizando, com um aceno tímido e uma pressentida fragrância a crisântemo, que nunca as poderei voltar a visitar.  


© CybeRider - 2011

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Quase nada

Preciso só de um bocadinho. Pouco, poucochinho, como se não fosse nada, quase nada. Uma pequena porção de quase tudo mas numa ínfima dimensão, à minha medida. Que pequeno vou ficando; à medida das porções que me calham, diria. Foi por mim que se inventaram os diminutivos, todos eles pequeninos; à medida dos dias que se me vão encolhendo. Como este país, este povo que me olha sem me ver; meu, mas para quem não existo, a não ser para alguns muito poucos, poucochinhos, como eu. 

Também os desabafos se me vão esvaindo, poucos e pequeninos. Há quem desabafe em catadupas de resmas, eu desabafo em poucas linhas, um romance seria impensável. Recordo-me de quando me sento com alguém que me começa a contar algo sobre qualquer assunto e eu a resumir, a pensar qual a razão de tanta pontuação, tanto parágrafo, que pares, não me contes a tua vida desde pequeno, é igual à minha, pequena afinal; poucas linhas, é tudo o que me interessa, diz-me só o que quero saber, que é tão pouco, deixa o resto, é excessivo extravasa-me; mas calo-me, num silêncio pequeno que ninguém escuta senão eu. Um silêncio à minha medida afinal. Não acho interessante que me digas que, dantes, quando bebias se te rebentava a boca e que, agora, quando bebes se te rebenta o cu, espanto-me mas fica-me o apontamento, essa parte que não me interessa pode vir a interessar-me, guardo-o, como um parafuso solto na caixa de ferramentas, uma sobra que poderá um dia segurar algum alicerce de alguma obra, pequenina também, decerto; esboço um sorriso complacente, desta vez ouço; o resto não me cabe na caixa de ferramentas, deixa, não insistas. De repente apetece-me beber, beber até rebentar por uma costura qualquer, até que verta pelos poros, ainda que poucochinho sem ensopar, apenas uma humidadezinha exígua e purulenta, enojante como qualquer coisa desprezível e humana, pequenina afinal.

Vem-me de súbito à memória aquela dor de ventre, aquela em que corro num desespero de condenado e encontro a porcelana mesmo a horas de não passar um embaraço. Sem pensar na insanidade que é o facto de algo tão natural me condenar a esse tal embaraço, atiro-me a ela, à tal porcelana, sem pensar como seria a minha vida sem um pequeno pedaço de porcelana nessas horas inconvenientes; qual marca? Não é Limoges, é simples e plebeia, como eu, será que alguma vez fui Limoges? Se fui já estou no quintal cheio de ração para o cão, passei de moda. Há cães que comem em Limoges, e homens que comem em malga de plástico. O importante para mim é que coma, chega-me.

Nunca posso ter sido Limoges, se o tivesse sido estaria agora melancólico e deprimido, ou apenas partido em cacos, deitado ao lixo, sem servir nem para a ração do cão. Sou mais malga de plástico, que se vai arrastando pelo chão cimentado, por cima de um ou outro excremento, riscada, sebosa, mas que perdura em desafio ao sol e à chuva. De vez em quando levo com a ração em cima e vivo das lambidelas do cão, são elas que justificam que não me deitem no lixo, se o cão morre nada me salva. Plástico à parte, somos assim como a porcelana, uma destina-se ao castigo, outra para aparar os requintados manjares de príncipes. Tudo porcelana e no entanto a diferença inexplicável, será a forma que nos destina? Ou antes o destino que nos dá a forma? Tu és sanita, e tu uma terrina delicada.

Então, senhor António, hoje só leva dois papo-secos, isso não é poucochinho?

Poucochinho sou eu, mas não digo, calo-me e vou andando, de mansinho. Nunca fui capaz de nada grandioso que me livrasse desta pequenez insignificante. Desta humildade mesquinha e tacanha que me impele para as profundezas da simpatia embirrante e peganhenta que me atabafa e me consome, incapaz de me libertar acabo por simpatizar com tudo o que me odeia, e odeio-me a mim próprio por isso. Mas é um ódiozinho imperceptível, insignificante que nem medra nem se consome.

Pudesse eu voltar a ser mulher, que todos o fomos um dia até nos terem separado dessa carne milagrosa, o eterno desejo de recomeço; a inexplicável natureza, que me torna fruto da insanidade que subjaz à ideia de que uma cebola pudesse alguma vez ter parido uma batata; ainda que fosse pequenina seria grandiosa, assim sou quase nada, não tenho essa maravilhosa capacidade de instigar o prazer e a dor conceptuais que todas elas têm. Agora, é tarde demais. 

No fim do tempo há-de bastar-me apenas um pouco de morte, não me deixem muita, só um bocadinho basta, e uma terrinha, uma florzinha, um bocadinho de água para que se mantenha viçosa, basta-me isso e o pequenino esquecimento que me há-de eternizar, é só o que peço.

Não é nada, enfim, quase nada.


© CybeRider - 2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Bicho raro

Há duas espécies de Homens: os que lêem e os que criam.


Houve um livro que quis ler e não li. Odiei-o, não o compreendi. Quase obliterei o autor nesse dia, mas degredei-o por anos. Ele um génio, eu imbecil. Depois percebi, faltava-me tempo e caminho. Ofereci esse livro, que ainda temo, por altura da minha incompetência. Nunca voltei a tentá-lo. Optei por outros e hoje, esse autor que desdenhei, quero que viva para sempre, por ser um dos meus favoritos.

Porque há duas espécies de Homens: os que se arrependem e os que nunca reconsideram.

Durante anos temi pegar numa caneta. Quanto mais lia mais evitava. Deixei de ler. Restaram as memórias obscuras da minha realidade singela, exígua, perante a imensidão de clarividência alheia que me assombrava de fora. Assisti impávido à vida dos outros, como livros abertos que me desinteressavam, as suas realidades exóticas, os seus feitos excêntricos, apontamentos publicitários de uma existência que desconheço. Incompreendido, por não saber copiar, pesaram-me os olhares que sustentei de reprovação e calúnia. O medo de reproduzir assolava-me com frequência, a insónia dominava-me por vezes, pelo temor de não conseguir recordar o que era incapaz de redigir.

Porque há duas espécies de Homens: os valentes e os cobardes.

Compreendi que, para ter memórias, não precisava de ler; precisava de ter vivido. Deixei-me então levar sem resistir. As mentiras em que me refugiei faziam acreditar que vivia. A honestidade tem implícitos a resistência, o exemplo, a discórdia, a acção. Todos incapacidades que assumi, inocentemente, com frequência. Infiel a mim próprio, percorri caminhos paralelos ao traçado que deveria ser o meu, alguns sem retorno.

Porque há duas espécies de Homens: os leais e os que mentem.

Fui comandante inepto, subalterno de incompetentes e servidor de incapazes; nem sempre por esta ordem. Corrompi-me a construir destinos que, por simpatia apenas, construíam o meu. Perdi batalhas e guerras, das que venci não me restou particular orgulho, por não serem maioritariamente minhas; das outras não há registos que me socorram.

Porque há duas espécies de Homens: os que montam e os que se deixam montar.

A cedência a paixões, fraqueza congénita, condenou-me por fim a aceitar o meu destino. A medo encetei um livro e li-o em desespero. A dificuldade de lidar com os conceitos, de voltar a apreender o alheio, o medo do regresso à intrusão na essência de alguém, fui-os dizimando em parágrafos, páginas, capítulos. Entreguei-me por fim, como quem reconhece uma amante e a beija com fervor, sequioso, após anos de contenção. Voltei a temer perder a escrita outra vez.

Porque há duas espécies de Homens: os que amam e os que só conhecem o desdém.

Descuro com frequência os interesses que não me interessam, sinto-me um pária também, por vezes; mas os que me interessam persigo-os com fervor, sem esperança na conquista de adeptos para a minha causa. Uma tenacidade invisível mas indelével impele-me como um instinto, por vezes para o abismo, destino que pelo meu egoísmo atinjo sozinho.

Porque há duas espécies de Homens: os que vivem e os que vão morrendo.

Gosto de caminhar na areia húmida, onde as ondas se abatem; ver essa força imensa recear os meus passos e recuar perante a minha insignificância. Uns dias sou da terra, noutros sou das águas, nestes chego a acreditar que é a terra que me teme e que me deixará cavalgá-la eternamente; é nos outros que reconheço como estou enganado.

Porque há duas espécies de Homens: os que escutam o mar num búzio e os que recolhem búzios no mar.




Por haver apenas duas espécies de Homens, e não me enquadrar em nenhuma, suspeito que poderei ser afinal o único cromo desta caderneta; um exemplar de uma terceira espécie, em vias de extinção mas sem  protector que me valha.


© CybeRider - 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Encontros a dois tempos

Só posso provar que cumpri um encontro.

Foi há muito. Nesse dia longínquo cumpri, estava lá à hora certa no lugar certo. Foi a única vez. Talvez nunca venha a saber quantos encontros terei perdido na eternidade, desses outros também não me lembro, talvez fossem meros desencontros que motivaram que àquele não tenha faltado.

A partir desse dia a minha vida tem sido um somatório de desencontros em que há quem chegue e quem parta. Vemo-nos ocasionalmente, mas uns estão invariavelmente de saída quando chego e outros estão a chegar no momento em que me preparo para partir.

Ainda hoje não consigo combinar um encontro. Se me perguntam a que horas me convém, devolvo sempre a pergunta e, a partir desse momento, sou eu quem tenta ajustar o tempo para conseguir chegar a horas ao combinado. Sempre sem sucesso. Por vezes esperam por mim, para me dizer que estão de partida, outras vezes chego e confesso que afinal não posso ficar. Frequentemente assola-me o desalento de saber que não posso perpetuar o momento. Tudo não passa de uma imensidão de despedidas. O abraço da chegada é já o prenúncio desse momento fatídico. Eles vão e eu fico a vê-los partir, desolado por não ter conseguido cumprir o encontro. Outras vezes são eles que ficam quando eu parto; não olho para trás com receio de que não consiga prosseguir, para o próximo desencontro que marquei, se os vir a acenar.

Há uma zona cinzenta entre cada chegada e cada partida. Ninguém pode partir sem ter onde chegar, nem pode chegar sem ter partido de alguém. A ser sincero teria de confessar que me atrofia e me deprime; o cinzento não me satisfaz, mas o branco e o preto são exacerbos a que não me posso permitir, meras cogitações quantificantes do que será sempre incomensurável. Apesar disso é esse cinzento que se assemelha à simbiose de um encontro, quase perfeita, apesar de ser mera imitação

Aos bons e aos maus encontros acorro com igual desvelo. A curiosidade pelo futuro próximo leva-me a reunir esforços de pontualidade que me surpreendem quando os reconheço. E o desfecho é invariavelmente o mesmo, nada permanece nem se altera de forma tão indelével que me reponha a esperança nas marcações que, algumas a meu pedido, me impõem. Tudo se mantém num infindável marasmo de incertezas vãs onde abunda a futilidade de momentos cuja história é hoje potencialmente forte mas exígua na efectiva exequibilidade, principalmente por tudo o que fica por dizer, por falta de tempo e pelas incertezas próprias de um futuro que não domino. 

Há quem afirme que tenho um encontro marcado a que não posso faltar. A ser verdade, não fui eu que o marquei; como sempre, deixei à outra parte a veleidade, desta feita em desafio. Dizem que, quando lá chegar, não poderei partir, assim tempo não me faltará. É um encontro verdadeiro com hora e local certos, embora de momento os desconheça, mas palpita-me que vou lá estar. A concretizar-se será, certamente, o segundo encontro que conseguirei cumprir.

E esse é, de todos, o único a que gostaria de poder chegar bastante atrasado.

© CybeRider - 2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Tráfego

Ainda é cedo.

Tão cedo que o Sol me fere a vista e sinto exalar-se-me uma poeira como se a manhã quisesse esfumar o que resta do meu sangue de morcego. Só nesta altura do ano ainda é de dia a esta hora. Já vejo tanto disparate; percorro a distância até ao outro bloco onde tinha deixado o automóvel. Não preciso de ir tão longe para ouvir os berros daquela que grita todos os dias e horas com a sua prole, não sei como os vizinhos a aguentam, ouço-lhe claramente os despautérios e ainda não lhe consigo tirar a limpo as feições para, se me encontrasse com ela noutra rua, mudar de passeio ou de caminho. Talvez seja a vista que está também a amorcegar, qualquer dia só me guio pelos sons; terá de bastar. Ah, ei-la; agarra o gaiato por um braço enquanto as palavras matraqueiam a cabeça do infante e os meus ouvidos, que de repente, pela hora, ganharam superpoderes. Em horas normais já não destrinço com nitidez o que me dizem; principalmente se não me convém. Umas coisas ficam-se antes dos ouvidos, outras não atingem a ideia; isto sim que é da idade.

Rodo a chave, pega, tenho de contornar o condutor que está parado frente a um lugar vago no estacionamento, mas que teima em ocupar a faixa de rodagem, imóvel, mas principalmente inamovível. Não me vê. O olhar sonda-lhe o infinito, talvez com a mesma dificuldade que eu sinto, dou-lhe o benefício da morceguidade e sigo. Não vou dizer que era uma senhora, seria impróprio. A mesma impropriedade que seria dizer que os fulanos que me assaltaram de novo o covil ontem, como há oito meses, eram marcianos. Ficava-me mal. Afinal eu sou morcego e não quero que me descriminem por isso. Se fosse um homem eu teria tido, contra todas as probabilidades, uma piadola a preceito; arriscando um par de murros que me deixasse os dois olhos negros. A esta hora também pouca falta me fariam, continuo ligado ao sonar. Assim, não digo nada. Sigo, a pensar nos marcianos de ontem. Apanharam um com as mãos na massa. Perguntaram-me se me faltava muita massa mas, do pouco que havia antes, já tinham levado quase tudo da outra vez. Desta reforçaram a ideia, com consequente menos proveito. Não quero mal à Márcia por isso, que culpa tem ela do destino destes seus marcianos? Continuo em voo rasante; a esta hora só consigo voar baixinho. Já se me atravessaram três no caminho, subtraindo a minha prioridade. Estes eram todos homens, mas também não vou dizer isso; devia antes fazer como nas notícias, inventar todos os detalhes e deixar a certeza dos sujeitos todos pelo indefinido: condutores. Outra vez, não digo nada. Mas isso fazia-os todos homens, e alguns bem sei que são ratos. A prioridade é assim como a minha rua, tão minha que nem lugar para estacionar me deixam. Morcego como sou penduro-me das árvores; deve ser o que eles pensam, com razão.

Tenho pressa. Para me levantar a esta hora, tenho mesmo muita pressa. Só o dever me impele a sair da toca tão cedo, principalmente depois do dia de ontem em contacto com o lado negro da força. Que me levantasse mais cedo? Isso aumentaria a injustiça da coisa! Amarelo, prego a fundo. Morre-se na estrada... Não falo de sinistralidade, falo dos que se levantam cedo e empastelam a paisagem num marasmo atroz, se tivessem de voar como eu caíam da terra abaixo, sem potência que os levantasse. Sai! Sai! Tenho pressa! Na verdade voo sempre em silêncio, imperceptível. Já me esqueci da última vez que usei uma buzina em desespero ou esbracejei com alguém, já não tenho idade para andar por aí com dois olhos negros trocados pela razão que os justificassem. Amarelo, prego a fundo; que também temos todos os defeitos dos marcianos e mais esse, nós os morcegos que voam de manhã cedo, baixinho e com pressa. Olho os galos da alvorada, debicando aqui e ali sem destino certo. Odeio-os por um instante e descomprimo num sopro, como se quisesse fazer esvoaçar aquela alma inocente que estacou à minha frente para deixar passar um peão fora da passadeira; há tempo para a simpatia, entre os humanos. Eu sou um morcego, com muita vontade de cumprir e voltar à toca. Tenho pressa. Verde, e o velocímetro a trinta... Três carros à minha frente, quase que dava para tentar o salto. Chamavam-me doido. Nunca me compreendem, fico-me. No retrovisor dois olhos injectados de sangue, os meus, quase cegos pela luz. As poucas horas dormidas não completaram a metamorfose, ainda sou meia crisálida. Vermelho, paro outra vez. Numa cidade grande já tinha saído do carro e rebentado os miolos em vermelho; em silêncio, sem gesticular como sempre faço. Aqui fico-me, outra vez.

Um passo solto para a esquerda aflora a passadeira de costas para mim no exacto momento em que vou a passar; não me poupa ao "cabrão"; fico-me outra vez, a pensar que deveriam também os peões ter cornos com piscas, como hipotéticos marcianos, facilitava e poupava-me à injúria de me magoarem por eventuais ofensas de quem me atura; injustiças...

Os morcegos não voam a esta hora, sou um estranho no meio do mundo que não entendo. No meu mundo o normal parece ser tudo ao contrário, com a terra por cima e o céu, negro, por baixo. Ninguém me convence que a normalidade não é com a terra por cima... Por agora quero virar para a esquerda e todas as setas apontam para a direita, não conheço quem as pôs, só a simbologia, que agora me obriga como a todos os humanos a viver com a terra por baixo, a ampará-los como os vasos às plantas. Isso não pode ser normal.

Se eles tivessem o gosto que tenho por se pendurarem duma árvore até que a noite viesse e pudessem voar, teriam pressa, daquela de ver mais mundo antes de ficarem com a terra por cima. Mas aqui e agora ninguém voa. Só eu, baixinho ainda, sempre em silêncio e sem que ninguém veja:

Amarelo, prego a fundo. Falta-me percurso para completar a metamorfose.


© CybeRider - 2011

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Caixinhas

Assim que nasceu puseram-no delicadamente numa caixinha.

Adoraram-no, mimaram-no, deixaram-no crescer. Já vinha de longe o costume de encaixotar as preciosidades.  Encaixotá-las e escondê-las das vistas alheias e dos perigos emergentes do meio, como se se pretendesse guardá-las para sempre. Ao longo de milénios foram aprimorando esse sentido de apreciar mais e mais os seus rebentos, guardando-os em caixinhas, umas um pouco maiores outras um pouco menores, à medida das possibilidades, mas sempre com o mesmo intuito. Faziam uns com os outros o mesmo que faziam com os seus ridículos haveres; guardavam tudo em pequenas caixinhas, maiores ou menores, mais ou menos bonitas, à medida das suas possibilidades, à medida exacta do que cada um podia carregar, ainda que não fosse para levar para parte alguma. Já ninguém questionava a razão de viverem em caixinhas, de onde saíam apenas para desempenhar papéis que lhes eram atribuídos e pagos pela comunidade que trocava desempenhos, sem nada criar que não tivesse como objectivo a construção de novas caixinhas, meros guarda-jóias.

Aprenderam a deslocar-se em caixinhas também, algumas serviam-lhes mesmo de habitação. O ciclo repetia-se, nascer, encaixotar, crescer, encaixotar, reproduzir-se, encaixotar.  

Neste desvelo não percebiam que a singularidade se perdia, a ausência de contacto motivava o individualismo e fomentava a prepotência de cada um a uma anti-sociabilidade atroz. Convencidos da sua singularidade consideravam-se superiores a todos os seus iguais, que viviam noutras caixinhas, ainda que as suas diferenças fossem apenas fruto da sua própria imaginação. A massificação, que produzia incessantemente batalhões de clones, levava a que todos fossem redutíveis a um denominador comum. Não eram afinal as preciosidades que se consideravam; eram, sem que o sentissem, meras vulgaridades sem valor com o intuito subliminar de se autodestruírem nessa corrida insólita de conquista de caixinhas.

Na sua busca pela diferença ele percebeu que a sociabilidade artificial em que vivia era ilusória e decadente. Numa tentativa desesperada de encontrar uma explicação para a sua miserável existência compreendeu que todos os seus amigos eram, como ele, anti-sociais, individualistas, iludidos por uma pretensa preciosidade que ninguém tinha. Deduziu que todos os seus actos honestos não recebiam o agrado de quase ninguém, por serem incompreendidos, por vezes,  mas simultaneamente demasiado singulares,  tão comuns que não sobressaiam do ordinário, como tal incapazes de causar impacto. Incapaz de se vender, ou por falta de génio talvez, foi-se fechando cada vez mais na sua caixinha, resignado, rodeado de virtualidades inúteis e desumanas, enquanto assistia ao soçobrar do mundo à sua volta.

Um dia encontraram-no imóvel, dentro da sua caixinha; levaram-no, fecharam-no noutra caixinha e enterraram-no num pequeno espaço do subsolo saturado de pequenas caixinhas, ocultas dos olhares devassantes, todas cheias de preciosidades, como ele.           

© CybeRider - 2011

Click do the dear Zé 

sábado, 30 de abril de 2011

Dos bichos que bocejam

Tentar descrever o bocejo em palavras não é um exercício fácil.

Se tivesse de o explicar a quem não o conhecesse, que diria? É um estado de alma em que se abre a boca a uma dimensão extrema, de forma involuntária, reprimindo um Ahhhh incomensurável, à medida que o ar se solta fugazmente do peito de uma forma anestesiante e pacificadora. Não ficava explicado. Há outros bichos que bocejam, a quem o Ahhhh é impossível, mas para os quais terá o mesmo efeito repositor e inebriante. O bocejo dos roedores, por exemplo, é terrífico; abrem as mandíbulas expondo os incisivos ameaçadores e inimagináveis, como se não se coibissem de mostrar ao mundo o potencial vencedor se o mundo acabasse amanhã à dentada.

Comparativamente, o bocejo dos humanos é ridiculamente embaraçoso, temos uma dentição exígua para qualquer confronto. Talvez por isso seja de bom tom tapar a boca quando nos acorre esse impulso. Que pensariam os cães e os gatos se nos vissem nesse desconchavo? Perdiam-nos logo o respeito e saberiam imediatamente quem deveriam ser os verdadeiros senhores do mundo. Resignados à sua condição, bocejam à nossa frente perante a nossa indiferença, injustiçados por uma realidade estranha que nos coloca como dominantes nas suas vidinhas aparentemente simples e pacatas.

Será uma necessidade fisiológica tão importante como qualquer outra. Quanto tempo poderemos ficar sem bocejar? Não me consta que alguém tenha bocejado com a ponta de uma navalha apontada à jugular, nem que comandante algum tenha bocejado ao mandar as tropas à carnificina. Nem quando o professor nos pergunta a questão fundamental para avaliar o nosso desempenho.

Bocejar será um privilégio que nos faz sentir reis por um segundo. Por um instante não sentimos a ameaça que pende sobre a nossa cabeça, nem o medo que nos tolhe a um canto, nem a culpa pelo que fizemos ontem, nem a inquietação pelo dia de amanhã. Naquele hiato ficamos sós e supremos. Nada nos pode atingir, sente-se uma invulnerabilidade incompreensível e inquestionável. E há um misto de resignação e de tédio, semelhante ao do conquistador que abarcou o território imenso e sinta que nada mais lhe reste a realizar.

Logo após, volta o estado de alerta; por vezes a mera acção de nos virarmos para adormecer, se pertencermos ao grupo dos mais felizes; outros terão de despertar para a luta, e continuar o combate.

Por isso, o bocejo será um acto demonstrativo de uma inteligência subconsciente, pelo que tem de aquietador e necessário à manutenção de uma sanidade mental que nos limita como seres separados do contexto, definindo por instantes a nossa absoluta individualidade.

Dito isto prometo respeitar profundamente qualquer animal que boceje, e verifico que quase todos o fazem; todos os mamíferos, carnívoros, herbívoros, omnívoros; as aves e os peixes. Falta-me descobrir como interpretar algumas semelhanças comportamentais relativamente aos répteis e aos batráquios... Terei de continuar a investigar.

Os insectos, os aracnídeos e os moluscos não creio que bocejem. Não me merecem por isso, e até prova em contrário, a mesma consideração. Terei de encontrar outras razões para respeitá-los que não esta, tão fundamental.  


© CybeRider - 2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O elogio do erro

Não me apetecia, não me tem apetecido.

Sei o que me apetecia, talvez por isso: escrever tudo cheio de erros. Escrever num código só meu. Desculpa triste, escrevo sempre num código só meu. Tudo cheio de erros. Gosto dos meus erros, são sintoma de liberdade quando não tenho medo deles. Depois refinam-se e passam despercebidos. Como quem acha uma nota no chão e lhe põe um pé em cima. "Devolve-se a quem provar pertencer-lhe". Olha-se para um lado e para o outro, a medir a humidade, a ver aquela nuvem mais escura e a criar a ideia de que vem aí chuva, passageira.

Depois deixa-se cair a chave. Plim. Arrebanha-se tudo, a fazer valer o dobrar da espinha. O gesto refinado, a não admitir o erro. Do outro lado o Sol, as caras cinzentas, incapazes de ouvir um plim. "Afinal pertence-me a mim". Os olhos vagueiam para a noite, a desejar o sonho ímpio dos inocentes, todos errados. A inocência perde-se quando se eliminam os erros. Passa-se a ser um sequaz do justiceiro, cheio de certezas e dedos espetados. Perde-se a misericórdia. Perde-se a noção do belo.

O belo em si é um erro, perfeito, como é qualquer erro, capaz de nos fazer virar a cabeça e perder a noção da realidade, essa coisa que não se compadece com erros, que nos impele sempre para a imperfeição da posição irrefutável, mas sempre à mercê da imensidão do que não dominamos, a excepção fundamental que confirma a regra, esse erro abrupto que nos oprime qualquer certeza. O belo é imerecido porque é um erro supremo que ninguém merece, por ter sempre alguma certeza, até isso justifica a sua essência errada e errática.

O erro não é intencional, ao contrário do mal que nunca é um erro. O mal é uma escolha, mais ou menos reflectida, mas nunca um erro. No entanto, erradamente, condenamos o erro quando deveríamos condenar o mal. O verdadeiro erro pode ser fruto de incompetência, distracção, incontinência, desmesura. Quando toleramos a génese, admitimos que fundamente a causa, mas apesar disso continuamos a condenar aquilo que inicialmente admitímos, sem querermos ver que deveria ser a verdadeira causa a perseguida. Assim, andamos com medo de errar, tentando fazer tudo certo ainda que mal.

Tememos a revelação dos nossos erros, pela injustiça do seu julgamento. Só poderemos ser livres quando nos exprimirmos por erros sinceros, pleonasmo; num código individual, imperceptível até que se refine, nessa altura compreendemo-lo, e passa a ser linguagem comum, alimento de debate e de inovação. Uma linguagem bela, profundamente errada é certo, mas universal.

A constatação de que errar é humano, faz-me acreditar que tudo o que fazemos é belo, tanto mais quanto mais errado for, desde que o não façamos por mal. É divina a nossa acção no mundo. Compraz-me que este exercício possa ser o erro que me tolha, porém palpita-me que errei, e acertei assim na impureza do hediondo, imperfeito, maléfico, intencional, desumano.

As certezas são sempre terríveis, ímpias, como os sonhos dos inocentes.      

© CybeRider - 2011

domingo, 13 de março de 2011

À rasca por um sonho

Ontem sobressaltei-me.

Vi as ruas da cidade cheias de gente em luta. Apregoavam cânticos que conheço com uma energia que já vi. Também vi os milhares que não caberiam no Largo do Carmo naquele dia longínquo que muitos desses nunca conheceram. Acreditei por instantes que tantos seriam capazes de fazer o que muito menos fizeram há muito mas melhor. Esperei para ver o voto de confiança às palavras de um líder expresso na iniciativa popular. Com o avançar das horas fui percebendo que tudo não passava afinal de um cortejo carnavalesco de derrotados.

Derrotados pela falta da confiança que não têm no único cidadão eleito democraticamente no país. Derrotados pela falta da iniciativa que não conseguem juntar para agir contra a adversidade. Derrotados pela incapacidade de criar um projecto colectivo linear e alternativo.

Acabei por não ficar esclarecido quanto à verdadeira intenção do presidente ao incentivar as massas ao "sobressalto cívico". Gostava de saber se aquele homem silencioso e insondável poderia ser digno do estatuto de herói nacional. Ele, o chefe supremo das forças armadas, teria ao seu dispor os meios de apoio necessários ao estabelecimento de uma nova ordem, de forma pacífica mas eficaz. Um dos muito poucos poderes que lhe deixam. Acaso esperaríamos que ele tivesse sido mais claro do que aquilo que foi? Esperaríamos que ele em vésperas de uma sublevação, anunciada mas sem provas de participação, nos tivesse dito "vão para a rua destronar os impostores que os nossos canhões vão lá estar para vos defender"? Era isto que esperávamos? Não passamos de uns neo-românticos patéticos se estivermos à espera desse dia.

Eu, que nunca acreditei naquele homem, ontem dei-lhe crédito. Por mim ele teria uma chance. Acreditei que ele poderá ter estado ansiosamente a aguardar a reacção das massas e o seu pedido de apoio explícito para poder tornar as palavras que proferiu em algo de mais concreto. Acreditei que por uma vez a voz poderia significar intenção. Pelo meu lado, gostaria de ter sabido a verdade. Gostaria de o ter confrontado com o facto que lhe pudesse justificar o mérito.

Ontem poderia ter sido o dia em que finalmente soubéssemos que esse cidadão eleito pelo povo estava de facto do lado de quem o guindou ao lugar que ocupa. Ontem poderíamos ter ficado inteirados da sua lealdade aos interesses do país mais do que aos interesses de uma Europa de direita que nos oprime. Ontem poderíamos ter conduzido o país por outro caminho. Ontem poderíamos ter ratificado a democracia e tê-la colocado para nosso governo no lugar da partidocracia que nos domina. Ontem um homem pode ter estado a aguardar uma chance para se redimir de toda a culpa que lhe pesa na consciência, mas ao qual não demos nós uma chance pela nossa manifesta incapacidade de reacção.

Sei que sou um romântico que conta histórias. Sei que descrevo um capítulo tão hipotético que me deixaria perplexo se se concretizasse, pelo que teria de aparentemente irresponsável e onírico, mas as grandes façanhas nascem de sonhos assim, e são destas improbabilidades que se fazem as diferenças.

Ontem faltou-nos a capacidade de acreditar em sonhos, desperdiçou-se assim mais uma oportunidade preciosa de definir o caótico. Para amanhã está anunciada uma paralisação dos camionistas, promissora quanto à eficácia que já conseguiram demonstrar noutra ocasião que bem recordo. Poderosos e irascíveis, têm mais força na imobilização de qualquer país do que qualquer governante inseguro acerca da confiança que possa depositar nos governados. Mas falta-lhes a legitimidade numérica das massas, a sua luta é tendenciosa pela particularidade dos interesses que defendem e como tal, por legítima que possa ser no conteúdo, é hermética para a maioria que sofrerá as consequências, eventualmente com maior sacrifício do que o que requeria uma rebelião generalizada.

E é por ter perfeita noção disto que hoje me sinto um bocadinho mais à rasca.



© CybeRider - 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Crise de identidade

Não costumo meter conversa na paragem do autocarro.

Não gosto de criar falsas expectativas acerca de possíveis laços que nasçam de coincidências absurdas. No absurdo de certos dias é o máximo que consigo fazer por alguém.

Naquele dia tinha acabado de passar um para o Inferno, mas ia cheio. Não faz mal, espero mais. Um jovem dirigiu-se a mim e perguntou se me chamava Orlando. Respondi que não, tinham-me chamado António há muitos anos, tinha-me ficado para sempre. Não adiantei mais nada, ao longe ouvia o ronco de outro motor, talvez tivesse mais sorte.

Semicerrei os olhos. “Parte Incerta”. Há-de servir.

- Passa ao Purgatório?
“- Se lá chegarmos.” Respondeu o condutor, com menos esperança que eu. Subi. Dali ao Inferno iria a pé, não devia ser longe.

É curioso apurar as coisas que nos passam pela ideia à medida que a farfalheira de um motor se tenta intrometer nas nossas vidinhas pacatas. Recordei o jovem e a sua pergunta.

Ora eu, que quando mal sabia que me chamava António já era Mourão, que sou Amália e Paco Bandeira, Florbela, Tonicha, Carlos Paião, Salazar para o mal, Madre Teresa para o bem; eu que sou Simone e Paulo de Carvalho também, Fernando Tordo e Ary dos Santos, que sou Alfredo e Marceneiro, Afonso e Viriato, não por esta ordem nem por qualquer outra. Eu que fui Vickie normando e Abelha Maia, Super-Homem e Super-Rato, que andei à chuva na praia, que me perdi no mato, antes de aprender a ser homem. Eu que fui Laranjina-C e sou Coca-Cola, que sou Picasso e Gauguin, Maluda e Fernando, sou também Pessoa; sei pintar à pistola; às vezes bicho, sou Saramago; António Antunes, e Lobo amiúde, que sou Camilo Castelo, dizem-me Branco, e a quem dizem essa de também ser Eça, que sou bela peça; também diria que sou Jorge e que sou Amado, e venero a saúde quando estou constipado. Que já fui rei e também princesa, Mário Viegas, e outra vez Branco, desta feita de Freitas. Que quando penso o que faço aqui, tenho atitudes que não lembrariam Dali, se grito a pedir uma pequena ajuda fico ansioso por medo de que alguém me acuda. Fui ainda Platão e platónico, e Aristóteles; fui mais gramático que matemático; também fui Sócrates, mas o antigo; fui Bocage, e antagónico, fui umas vezes sacana e outras amigo. E que nasci de uma corda agarrada ao umbigo. Que já fui pai e tentei ser mãe; já fui neto, tio e primo também. Eu que sou Rui e que sou Veloso, que sou Jorge outra vez, e sem dúvida Palma, que falo de Hitler e fico nervoso, que sou Lenine e matei Mussolini, que falo de Estaline com uma dor na alma, que vi fitas de guerra e de Pasolini, e filmes de amor, que dancei de alegria e gritei de dor, que choro sem saber às vezes porquê e rio para espanto de quem nem me vê. Sou tantos nomes que já me esqueci e outros tantos que também nunca ouvi.

O autocarro ia andando, ladeira abaixo e eu, o António, ia pensando que sou tantas coisas mas, tanto quanto acho, não sou Orlando.

Não era longe. Bati à porta. Pelo ferrolho uma voz cavernosa perguntou-me:

- És o Orlando?
- Não, sou o António. Se calhar, venho adiantado.
- Vieste enganado. Estão à tua procura na paragem do autocarro.

Não costumo meter conversa na paragem do autocarro.



© CybeRider - 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Carta a um filho

Meu filho,

Tenho a dizer-te que pertences a uma estirpe antiga. A mesma a que pertencia o primeiro homem que traçou no chão um limite e usurpou um pouco do que era de todos e lhe chamou seu. Nesse dia determinou também a forma mais antiga de exclusão, aquela que ficámos fadados a esquecer, a exclusão pela propriedade.

Só pelo amor que te tenho, e por seres meu filho, te posso confessar este segredo que nós, os crescidos, guardamos arrependidos e do qual ninguém fala. Este foi de facto o pecado capital. Não importa o que te digam, hão-de mesmo tentar convencer-te, como fizeram comigo, de que é um deus que te condena por amor. Nunca deus algum terá por ti este sentimento que eu tenho e que é precioso, e por isso te digo a verdade.

Também nasci livre, como tu. Só no dia seguinte constatei que afinal os braços da tua avó me protegiam de algo horrendo. Por razão estranha o mundo não me pertencia como pensei quando o vi. Havia outros, com poder para me derrubar, subjugar e me dizer que eu não pertencia ali, e que também chamavam seu ao meu mundo. Durante anos a nossa família acolheu-me, como se acolhe um filho, alimentou-me, vestiu-me e deixou-me ter sonhos; mais até do que os que eles pudessem ter tido um dia. E sei também que sonharam contigo, ainda que não mo dissessem. Dirás que tive sorte, e é verdade. Tentaram a seu modo ensinar-me a obedecer, a tornar-me um escravo dócil de outros, para que a vida me fosse menos dura. Ocultaram-me esse segredo, que tão bem conheciam, e que te conto,  por terem sido também eles escravos vitalícios. Estudei quanto quis, muito mais do que eles alguma vez puderam, às suas custas. Chamaram a isso educação. O mesmo nome que dou aos ensinamentos que tive de te infligir, por saber que esses princípios te ajudariam a conviver com os outros com menos dor. Sei que chamas trabalho ao esforço em que te empenhas para seres "alguém", mas para mim, que sei o que é trabalhar para os ideais de outrem, aquilo que fazes serve principalmente a minha consciência, por compreender o teu sonho que torno meu, enquanto luto a cada dia por conquistar o meu quinhão de justiça que me permita deixar-te um mundo onde possas singrar por ti. Bem sei que as ferramentas que te dê te serão úteis, e sei também que precisarás de todas elas.

A tua geração já nasceu no resultado de um sonho que partilhei. Sonhei que o teu mundo seria diferente, ainda que não pudesse mudar o fundamental da realidade instituída, achei que deveríamos ter o direito de exigir a quem usufrui do resultado da minha força de trabalho, a nossa sociedade, que te pagasse os estudos, a saúde, e o acesso à cultura. Nunca soubeste a amargura de ser excluído destas facetas da vida por falta de dinheiro. Não te posso adiantar muito acerca da justiça, porque essa já nasce inquinada pelo pressuposto de que a natureza que te colocou no mundo tem dono. Sei que a tentarás encontrar, que a aplicarás com saber, e que sofrerás pela falta dela. Precisarás sempre desse bem, como do pão para a boca.

A vida ditou aos teus avós que eu seria português. Ouço-te dizer que este país não te interessa, a amigos teus ouço dizer que os envergonha. Dizes que és um cidadão do mundo. Esse outro mundo que também rejeita os seus, o mesmo que me chama turista, onde sou por vezes demasiado branco, noutras demasiado preto, por ocasiões demasiado pobre e pontualmente demasiado rico. Talvez não saiba fazer em Roma como fazem os romanos, mas sei que aqui posso fazer como fazem os portugueses, ainda acredito até que sou capaz de os levar a fazer coisas por mim, ainda que a minha esperança, como a tua, vá esmorecendo. Há uma diferença, a tua deveria estar viçosa como tu, enquanto a minha vai acompanhando a invernia que começo a ver chegar.

Ouço-te dizer que és parvo, e isso dói-me. A injustiça que te confunde é algo por que não lutei. Dás nomes tristes à tua geração, surpreendes-me. Eu pertenço a uma geração sem nome que viu surgir uma revolução de onde havia submissão sem ter havido revolta, para a maioria não passou de uma libertação de um cárcere que se sentia sem se ver, onde a minoria esclarecida estava arredada à força, incomunicável com a populaça que temia represálias. Os mentores da liberdade reuniram-se e aceitaram o poder da mão de um punhado de militares que, mal armados, se impuseram mais pela lógica que pela força. Até que nascesses vi mudanças que deram esperança a um povo amansado por décadas de ignorância e exclusão social. Vi-o em festa erguer os braços e gritar palavras de ordem e cantar canções de liberdade. Diziam então que “o povo unido jamais será vencido”, e pelo que vi avaliei que para mim e para ti o futuro seria promissor.

Como queres então que te ensine essa força de rebeldia que nunca soube conduzir? Os livros vermelhos estão algures esquecidos, as bandeiras que incentivassem a glória estão carcomidas e esfarrapadas nalgum caixote em parte incerta. Nunca pensei que voltasse a precisar deles.

Quando ouço agora as tuas canções de intervenção sinto a mesma desilusão que senti quando ouvi apelidar de “rasca” a geração que me procedeu, por sublimar a irresponsabilidade latente dos que não tencionaram honrar o corolário de um estado social onde todos pudessem ser iguais. Vi o poder alucinar os homens e compreendi que a democracia que acarinho ia sendo substituída por um sucedâneo de muito má qualidade onde impera a pouca-vergonha dos que singram com facilidade através de clubismos e artimanhas, regalias desmesuradas, corrupção, compadrios obscuros e vilezas sem que haja forma de os confrontar com a qualidade do desempenho nos cargos que ocupam, normalmente contrastante com as benesses que auferem, ou de puni-los pela forma predatória como se refastelam indevidamente.

Não, meu filho! O estigma que carregas não é o de seres parvo! É o de pertenceres a um povo humilde e ingénuo que se deixa enganar, que é chantageado para ter os seus poucos direitos e que sofre por ver frustradas as expectativas onde investiu toda a esperança. São qualidades e defeitos que abundam nos bons, sempre reprimíveis com facilidade.

Mas disso nunca terás de te envergonhar. Vergonha será sempre dever e não pagar. Cumpre sempre com os teus deveres, mas isso já te tinha dito.

Falta agora ensinar-te a que não te vendas por pouco, lição que não aprendi. Não esqueças o segredo que te contei. Pega num pau afiado, e traça com coragem uma linha à volta deste país, chama-lhe teu, e expulsa os que usurpam aos teus velhos pais aquilo que te pertence por direito.

Que parvo, tu não és.


© CybeRider - 2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Presença


São os diamantes do teu sorriso.
. 
São teus passos despidos sobre o silêncio
No chão vazio de sentido.
São os teus braços maternos
Vigiando-me menino
Sem cigarros nem gravata,
Sem pessoas...
São os teus olhos luzentes, curiosos,
Quase a medo.
É a tua pele do marfim mais doce,
Mais macio, mais quente,
Mais de veludo e seda.
São teus beijos de amante
É a tua língua rubra
Limando na minha carne
Linhas lindas de prazer-delícia,
Êxtase de loucura.
São raios do teu cabelo
Devorados vezes mil
 Por dedos tão cúmplices
 De mim e ti; os meus
Que sou teu... Tanto!
Salteador ateu
Profanando tesouros que encerras
Milenários
De carinho cuidado,
Tecidos por ti, vestidos por mim
Transformados unos
Nos lábios; na voz;
No sentir-te sentires-me
Em ti, em mim, em nós.

 
© CybeRider - 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Ode aos surdos


“O que dizes não se escreve”,
Tanta vez ouvi dizer.
E por acreditar não escrevia
Tantas coisas que esquecia
Por evitar de as escrever.

Bastas ocasiões invejei
Eruditos de toda a parte
E outras tantas me impedi
De dizer o que não escrevi
Por duvidar da minha arte.

Seguros nas convicções
Tantos em contracorrente
E eu em silêncio profundo
Ouvia as injúrias ao mundo
Por me negar a ser gente.

Por não ter os manuscritos
Calava a minha razão
E tantas vezes contive
Tantos lamentos que tive
Pela minha humilhação.

Gritos calados bem fundo
Que eu evitava escrever
E eles todos escreviam
Tudo aquilo que diziam
Sem terem de se esconder.

O que tanta vez pensei
Consegui dizer um dia
E olharam então para mim
Como se vissem por fim
Um morto que renascia.

Mais vale que vos caleis
Que não haveis aprendido
E nem amigos tivestes
Para vos tirar dos agrestes
Caminhos por onde tenho ido.

Por esses tão pobres conceitos
Calai-vos, tentai esquecer
E evitai a confusão
Não sabeis decerto a lição
Que eu tive de aprender.

A que me serviu de mote
Por bons exemplos ter tido
E não se devia escrever
O que tendes para dizer
Nem por ninguém ser ouvido.

Resolvi testar por mim
Aquilo que tanto me ocupa
E passar a escrever amiúde
O que considero, pela saúde,
Ser o que ninguém preocupa.

Com surpresa aprendo assim
Também com contentamento
E outra lição tiro a quente
Não fico mais eloquente
Nem mais forte de pensamento,

Não memorizo na mesma,
Descubro o que ninguém quis
E sei agora afinal,
No saber da gente normal,
Que o que escrevo não se diz.

© CybeRider - 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A insustentável leveza do ultraje

Uma mão cerrada com força.

O estômago que se encolhe à violência das palavras: és feio!

Que diferenciação atroz, como racismo. Eu que defendo minorias, as dos pobres mais que as dos ricos, em autodefesa. Atravesso a rua pejada de hedonistas, olham-me de soslaio, de través, como quem espreita pelo cortinado de uma janela. Sigo a pensar nos meus pobres e nos dos outros. Sei que aqueles que me miram procuram explicação para a minha normalidade obscena. O cartaz da modelo seminua olha-os a eles e deixa-me mais só, à distância de uma superprodução de Hollywood, retocada, maquilhada, subconscientemente perfumada: és gordo!

Enrubesce-me um pouco a face. Começa a doer-me o punho cerrado com força. A indiferença da jovem angélica de púbis apelativa descoberta: és velho!

Chego à praça, cada passo afasta de mim a turba de pavões. Dão um passo mais para a esquerda, outros um para a direita. Carrego agora a fealdade do carrasco. Ao desbravar com tamanha facilidade o carreiro por onde sigo, a minha mão fechada é agora um machado de guerra pronto a decepar um pescoço. Cresce-me a barba no rosto hirsuto, sou discriminado no café onde me sento sozinho na minha mesa feia suja e velha. Clientes resplandecentes levantam-se e afastam-se. Pressinto que já me viram, pela janela limpinha por detrás da cortina delicada.

Se soubesse que o café me ia dar aquela vontade de urinar tinha pedido uma água. Levanto-me em busca do esgoto. Agora a meu lado um par de sapatos reluzentes, afastados, a esconderem-se na estreiteza do espaço vazio das eventuais pingas trôpegas que não o consigam transpor. Resisto.

Depois, a água fria morde-me com força. Tento abrir a mão, mas não consigo. Olho na imagem em frente, ligeiramente à direita, o tom imaculado do menino rico. Mais abaixo o relógio dourado fere-me a vista: és pobre!

Não compreendo a força com que lhe desfaço o nariz inocente. Sinto um súbito cheiro a ferro e fica tudo vermelho. Não, é afinal encarnado e gratuito. Vejo no espelho o meu reflexo e o olhar perplexo em rima a condizer; vem-me à ideia que deveria estar a ficar tudo azul. O aroma férreo intensifica-se à medida que o chão encardido se tinge, de escarlate vivo e pegajoso. Tinha-me esquecido da faca pontiaguda que ali vejo espetada num olho. Já não consigo apalpá-la na algibeira, saltou sozinha antes do grito que me teria salvado. A lâmina reluzente que afinal me condena. Doem-me os nós dos dedos, feridos, que continuam a macerar a pele macia, em recortes marmóreos eivados de rosa e púrpura, agora transformada numa massa disforme e viscosa empapada com pedacinhos brilhantes de osso esbranquiçado, dentes talvez, e o som cavado da sucessiva sucção: és assassino!

Por instantes recordo-me dos ensinamentos que pediam que me portasse bem, sempre me portei bem. Quero ser honesto e incapaz de calar verdades, naqueles minutos que antecederam a minha luta contra a justeza. Impelido pelas forças sombrias do mundo quis ser bonito, magro, jovem, rico, desejado e bom, de verdade: és mentiroso!

Tudo recalquei naquele infeliz desconhecido que jaz desfeito a meus pés: és grotesco!

Mas o real ultraje que me consuma amanhã apagará para sempre qualquer imperfeição que subsista. Perfeito é o ultrajante, e só, e feio, e gordo, e pobre, e velho; e também eu, nas vezes em que me revolto contra a vida pelos meus próprios defeitos.

© CybeRider - 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Propensão marginal

Sinto o ar na cara, entra-me nos cabelos e nas narinas.

É de ar puro o vento que respiro quando olho para trás e vejo o lugar que deixo. Que bom é inchar os pulmões como odres e fazer entrar a maresia. As ondas aspergem-me o rosto como a tentar reanimar-me do torpor que me levaria a cair pela borda.

O batel deriva, neste triste vazio onde fiz coisas, algumas que me entusiasmaram, e que me corromperam a solidão. Barcaça vetusta e decadente, talvez de herança que já não recordo, que arrasto pelo meu mar de lamurias, ao encontro de uma praia inalcançável onde sei que só poderei soçobrar, envolto no nevoeiro.

Este vento é pouco propenso a marginalidade. Interventivo, sopra sempre com intenção definida, pura, até que atinge o seu objectivo e sem cedências muda de direcção, quando lhe apraz. Já o meu percurso tem sido erguido à volta de propensões marginais, incapaz de partir com o vento, analiso a frio as que me têm movido neste mar de pouca esperança.

Reconheço que deveria haver, no meu caso, um órgão moderador, algures entre a boca e o coração. Assim, não consigo identificar os rochedos onde desfaço o navio. Talvez por navegar sempre à bolina, de través, sem rumo directo que me leve de onde estou para onde queria de facto estar. De quem será a culpa, senão minha? Reles timoneiro que só conhece como destino o mar do propenso naufrágio. Sempre a mesma sede que nem todo o oceano envolvente conseguiria mitigar; no entanto sempre o mesmo rumo, por teimosia. Olho a estibordo, a espuma gorgoleja junto à linha de água límpida e cristalina. Quase enxergo o fundo, mas não pode ser... Alma como a minha não fundeia porque não tem o direito de se aquietar. Há que prosseguir, braça após braça, milha após milha, milhas mil, maravilhas que miríades de marinheiros também tiveram de navegar.

Acompanham-me na epopeia esses fantasmas que me trespassam, em direcção à brancura do seu leito natural, rudes esboços de exemplos, que não sigo, talvez. Ali se aquietarão até que o tempo os dissolva ou o vento os leve com ele; como às ondas espumosas que revolteiam na areia. Alguém depois de mim os há-de recriar, quando tudo os tiver já consumido e o vento, impiedoso, lhes tiver perdido o rumo.

Sai-me do pêlo, o ânimo com que teço considerações. Animais de pouco pêlo, teremos também curta a alma, por isso que nos tentamos bater por que algumas prevaleçam. As outras, descartáveis, olvidáveis, potencialmente inúteis, esquecemos que as vimos e voltamos-lhes as costas, por definição despidas. Ficam a oxidar-nos o mundo, a intoxicar-nos a mente, como meras ideias de tolos. Até que um dia vem uma onda mais forte que descobre as conchas profundas, alguém estende a mão à que mais brilha, e compreende que toda aquela miséria de memórias bafientas foi afinal um tesouro perdido.

Nessa arca imersa, abunda também o orgulho. Sentimento franco e virginal que só os espezinhados não reconhecem naquilo que fazem. Mas também existe, nas pequenas galáxias que se escondem em cada um, um sentimento que prevalece sobre a pureza do orgulho; chama-se vaidade e nada tem de excelso ou celestial.

Essa falsa pérola que eu próprio abandono no leito deste oceano, que perscruto, adornará as vestes dos mais singelos. Já os meus pretensos andrajos ninguém há-de cobiçar, nem levantarão suspeita do conforto que me dão.

Não há porém fim que me derrote. Hoje, não. De mãos nas malaguetas, giro a roda-do-leme, ainda que navegue sem rumo não me deterei perante os escolhos, nem que a quilha desta nave se destroce nas rochas nuas. Nunca voltarei aos breves instantes em que fui o ser mais jovem deste oceano, por mais voltas que dê ao mundo o caminho será sempre linear e desconhecido.

Sei contudo que a cada dia menos restos sobram na carga da minha nau. Mortais, os meus, esvair-se-ão antes que eu suspeite que alguém os pudesse encontrar, também eles numa propensão marginal para o absoluto esquecimento.


© CybeRider - 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Abel e Caim

Contaram-me acerca de dois irmãos, talvez um fosse bastante mais velho que o outro, não sei. Foi há muito. Num momento de irracionalidade, um deles, por lhe terem preterido o resultado da colheita em favor da imolação de um pequeno herbívoro do irmão, perdeu momentaneamente o tino e desfez o crânio ao outro.

Desde antes dos tempos bíblicos que a inveja e a ganância dominam as relações dos homens. Recordo-me que me falaram de um Freud, mais recente, que dizia que tudo tinha a ver com pulsões, as sexuais e as de vida e de morte. Entre o que recordo e o que constato verifico que muito hoje em dia não passa de reflexo de textos sábios que revelam conhecimentos antigos. Não há nada de inovador em pegar no que se tenha mais à mão e rachar a cabeça a alguém, seja um calhau tosco ou um artefacto de alta tecnologia.

Abel não seria perfeito, se o fosse não necessitaria de fazer oferendas em concurso com o seu irmão. Mas porque as fazia depreendo que pretendesse rodear-se de bênçãos. Procuraria a sua felicidade a seu modo. Caim por seu lado também; invejou o irmão, mas compreendeu que sendo agricultor não conseguiria agradar quando aquilo que merecia honras divinas era a carne e o sangue resultantes da pastorícia.

Talvez Caim tenha pensado em se tornar pastor também, em criar a sua própria cabra para imolar. Neste conflito de vocação, acabaria por pensar que seria capaz de fazer como Abel, para quem a sangria dos bichos era não só natural mas a única via para alcançar a felicidade. Enquanto para Caim essa forma de vida pudesse ter sido questionável e repugnante, era contudo tentadora. Talvez tenha concluído que não conseguiria cortar o pescoço ao produto do seu trabalho, que lhe seria difícil viver com a eventual culpa na consciência, talvez até temesse alguma explicação que outrem lhe pudesse vir a exigir por violar pretensões que entretanto se tivessem criado em torno da sua imagem de pacifista e objector, que seria contudo preterida pelo deus que amava, caso não fosse capaz da imolação. E no entanto, de cabeça perdida, condenou a humanidade.

Freud explica hoje tudo o que a bíblia revela. Se sexo e religião nos conseguem levar ao êxtase, cada um a seu modo, também é certo que os dizeres desse livro, que uns dizem supremo, nos ensinam que esses dois irmão eram filhos do único par de humanos na terra e como tal com hipóteses de escolhas sexuais diminutas, que deveriam gerar pulsões imensas, estranhas e incontornáveis.

Eram coisas antigas, de tempos em que a conceição era, tal como voltou a ser hoje, assunto secundário da única responsabilidade de uma obra e graça de um tal espírito que dizem santo, verdade pura porque a conheci ainda que por mera aplicação do sentido bíblico, eventualmente pecaminoso.

Não consta do livro o completo estado em que Abel foi encontrado, talvez tenham omitido os detalhes sinistros e estranhos para a época em que Freud ainda não estava na História e como tal muitas coisas não se poderiam explicar, mas que causariam decerto incómodas insónias caso tivessem sido reveladas.

Até por isso ninguém terá tecido qualquer consideração ou pensamento acerca da espiga de trigo que mutilava a masculinidade de Abel. O livro não a mencionou e foi preciso o tempo para me dar a conhecer que afinal tinha de lá estar.

Não deixa de me causar estranheza a reciclagem histórica com que a vida me confronta e que vende como coisa nova aos mais incautos.

© CybeRider - 2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Puro fanatismo

Outro dia, outras gentes.

No meio dos outros que variam e derivam à minha volta faço muitas vezes os mesmos percursos. Mesmo as grandes superfícies acabam por ser tradicionais, neste meio-termo de cidadezinha de província em que a minha se torna de Inverno. Já conheço a maioria daqueles que me fanatizam, talvez, sem saberem que afinal sou eu que sou fã deles. Se soubessem o quanto custa arrancar-me aquele sorriso que lhes entrego de graça, saberiam como preciso deles para manter a minha sanidade. Saberiam que são saudades verdadeiras o que sinto quando passo pelas duas tabacarias, pela farmácia, pelos dois supermercados, estes quase iguais, mas com caras diferentes às caixas que ocupam, essas pessoas de quem preciso.

Gosto de pensar que me fanatizam quando me perguntam se quero o habitual. O habitual sorriso deles, a afagar-me a alma, quero. O habitual meio-minuto de olhar terno, quero. O habitual olá-então-está-bom, quero. De saco meio-cheio das habituais coisas boas, acabo por pegar também no pacotinho de tabaco e lá venho feliz da vida, mantendo por minutos o sorriso daquela menina loira, estrangeira, linda, com o seu sotaque na voz doce, como um beijo que eu talvez não mereça, mas que me concede; privilégio que a família, lá a milhares de quilómetros, não tem. Ou da patroa, que me viu poucas vezes mas que me trata por seu querido, como se vivesse ali comigo um minuto de um romance intenso sem se preocupar com eventuais ciúmes do marido, que respeito por mim e por ele sem conhecer, palavras que ouço já sem embaraço mas que estimo pela teatralidade que me impele para uma personagem de outra história, como se fossemos ainda dois adolescentes belos a partilhar um segredo, eu e ela, e sonhos que ainda pudéssemos ter por concretizar.

Não sei resistir à loucura álacre destes estímulos que viciam. É sempre inebriado que acabo as compras, sem querer saber ao certo se eles irão dali para casa, ou para os copos com os amigos, como posso ir eu. Para mim eles pertencem ali, cada um no seu quadradinho, eternos e absolutos. Desde a gordinha mais eficiente e simpática que um estabelecimento comercial pode desejar, que com um profissionalismo exemplar e uma inteligência no olhar que nos trespassa, me enche os sacos de plástico com as compras enquanto procuro as moeditas para a quantia certa no fundo meio roto da carteira, sem saber ao certo se aquela que me salvaria a honra de consumidor exemplar não terá já executado a sua fuga premeditada; ao rapaz de cabelo à moicano que insiste em separar sempre o saco dos detergentes do dos produtos alimentares e que executa as contas a uma velocidade assaz alucinante. Sim, escolho-os pela aptidão que me satisfaz no momento, ou às vezes só por uma estranha saudade, mesmo quando a tabacaria esgota o tal tabaco e tenho de levar do outro, ou ainda que tenha de passar o dobro do tempo na fila. Fanatismo é isso mesmo, ainda que quem não o sinta possa não compreender.

Se eles verdadeiramente me fanatizassem a mim um pouco, só um pouquinho que fosse, talvez pudessem imaginar tudo o que sinto por todos eles…


© CybeRider - 2011