Ligado à máquina...
É sempre um passo difícil, largar a aflitiva realidade e mergulhar neste isolamento ansiolítico, e podia pensar-se que seria um refúgio, mas não é.
Lá, é simples, as coisas derivam e escolhemos as interacções, consoante casualmente nos atinjam ou pretendamos atingir. Aqui, invariavelmente, tudo nos atinge e temos de abrir caminho pela pesada tralha que nos sujeita à aparente passividade. Na verdade há tanto a tirar de cima que chego a pensar se, depois de cá vir, conseguirei sair do lodaçal que me sufoca.
De súbito invade-me a ideia de como seria se ficasse aqui para sempre, assim como os volumes que me olham do cimo destas prateleiras. São cruzes, quase todos, marcam a localização de entes que partiram mas que podemos visitar para uma vénia, um derradeiro adeus, uma flor na campa. Ficaria aqui sentado, ligado à máquina que se alimenta a chouriço e casqueiro, até que o pó me cobrisse, entupisse o aparo e estagnasse a corrente; o braço a mexer invariavelmente, com uma tremura lânguida, as letras imaginárias; os olhos semi-cerrados; e mais nada, até ao fim da eternidade. Por isso temo sempre o regresso. Ainda que consiga desligar o braço a tempo, há sempre algo que acaba por ir parar à prateleira e que fica ali a olhar para mim, à espera da tal vénia, de um acenar saudoso ou de um aroma a crisântemo que lhe eleve a alma, e torço para que não seja eu a cruz que ali falta.
Até por isso recorro com frequência a um subterfúgio, deixo-a ali a dar ao braço, enquanto vagueio por outros sítios que me trazem melhores recordações; nessas alturas fico atento à criatura, que não venha no meu encalço, que não descubra o que ando a fazer, enquanto a vejo dedicada, imersa na imensidão de escombros, a tentar desenvencilhar-se, e parto para a prateleira das recordações, onde as cruzes são etéreas. A memória é uma amante traiçoeira, sempre pronta a afirmar tudo o que me convenha para o bem e para o mal, uma pretensiosa meretriz que se aproveita da minha necessidade para me encher de convicções de que também se empanturra. E no entanto é essa mentirosa que me conforta, que me aperta a bochecha entre os dedos de uma velha e que me sussurra ao ouvido: "que linda bochechinha" , e ali fico a sonhar, a sentir um leve ardor na bochecha e a recordar dias em que as cruzes não faziam sentido. E de repente todas as velhas me parecem dignas de me ter apertado as bochechas, vá-se lá saber porquê.
Duas mãos firmes nas minhas costas empurram-me num baloiço, o meu joelho esfolado; sempre tive um joelho esfolado. Agora cai-me um dente de leite, vejo-me ao espelho com um sorriso desdentado, mas não sou eu, é a criatura. Eu nunca tive dentes de leite, ou tive? Fico confuso, a memória a rir-se de mim e eu, como de costume, estatelado ao comprido, com um fio de sangue a brotar do joelho. O sangue é sempre meu, até o do perú do natal e o do porco da matança.
Olho para a criatura, maquinal, frente à sua página, debate-se, atolada. Enquanto tricota, confiro-lhe a solidez do relato, verifico a escolha dos caminhos mais fáceis de que se socorre; vem-me à ideia que procurará uma saída airosa que justificasse a sua independência de mim. Não a censuro.
Faz hoje cinquenta anos que convivo com ela, sei, sempre soube, que um dia me há-de abandonar à minha sorte, e eu talvez nunca venha a saber se as memórias são minhas ou dela. Tolerante, ou simplesmente interessado, acabo-lhe de novo com o sofrimento, ocupo-a, tiro-lhe a caneta da mão, tranquilizo-a. Arrumo na prateleira outra cruz, que trás com ela, dos destroços onde nos tínhamos enterrado. Nesta simbiose encontro-me velho e tenho até vontade de lhe agarrar na bochecha descarnada e de lhe dizer ao ouvido: "que linda bochechinha", mas contenho-me; ela saberia o tamanho da minha hipocrisia.
Sou sempre eu quem salva a criatura fleumática, sem especial prazer, apenas porque preciso dela para transcrever o sorriso desdentado ou as lágrimas saudosas que algumas cruzes me provocam, pontualmente, à medida que vou interiorizando, com um aceno tímido e uma pressentida fragrância a crisântemo, que nunca as poderei voltar a visitar.
© CybeRider - 2011
Clique do the dear Zé:
16 marteladas:
Fizeste um fantástico retrato irónico e sarcástico da vida!
Sim, é o que ela merece... mas como é só uma e ninguém nos dá outra temos que a ir suportando!
Um grande abraço.
Olá, Manuel!
Palpita-me que ainda acabo por nunca vir a saber lidar bem com ela!
Grande abraço, meu amigo.
invejo-te, invejo essa capacidade de exposição a que nunca me atrevo escondido atrás de uma cortina de cinismo. deve ser duro. mas tão libertador... acho eu, sei lá.
só agora é que consegui ler tudo com a atenção que mereces, que merecem os teus fantásticos escritos. apetece-me escreve-los em aviões de papel e lançá-los aos milhares por sobre as casa e sobre as gentes, num espectacular bombardeamento de palavras...
à falta disso, toma lá:
http://www.youtube.com/watch?feature=iv&annotation_id=annotation_977018&src_vid=WLH5bWoQmtc&v=Yzup8j-Ifzk
aquele abraço
eh eh eh ópramim a lixar-te a arrumação do belogue...
Olá, Zé!
Deixas-me sem palavras, e não é pela (des)arrumação da casa. Não me invejes, tens obra que te nega o cinismo que referes, os aviões não abonariam a ninguém, talvez contagiassem os pesadelos que encerram e o mundo ficaria ainda mais infeliz. Mas olha, o teu contributo trouxe luz ao espaço, e este até deu para colocar assim. Gostei!
Aquele abraço, moço!
Parabéns! Muitos!
És grato à vida qb, porém, pareces assumir que há muitas vidas que poderiam tornar a vida melhor. A vida depende das vidas, para nos ser melhor!
50 anos, venham outros tantos mas com vida, não apenas com existência!
Sem anos não haverá vida, talvez, mas há vidas que merecem Cem anos!
Parabéns, Cybe. Que honra ler-te!
O Nosso Abraço.
Olá Gemini!
Que boa surpresa. Obrigado! O mestre dos trocadilhos soberbos, sente-se a tua falta! Honra é ter amigos assim.
O Nosso Abraço
Querido António,
a única ideia que tenho de alguém a lutar pela da vida nos cuidados intensivos, seria a de passar da primeira à segunda classe, e desta à terceira, podendodar-se o caso de descer por aí por baixo, da quarta para a primeira classe, uma vez mais. Um sufoco. Não, não invejo a a vida dos intubados por doenças que lhes ameaça a vida, pois têm que pôr tudo em causa. E se calhar que os outros é que o lixaram... se calhar, têm razão!
Com toda a amizade, um abraço do teu amigo, Jorge
Enfim, outro texto genial.
Ilustre Jorge,
dás-me uma perspectiva nova para este mísero relato. Não me tinha ocorrido essa dolorosa leitura. No entanto o paralelismo é atroz, também para o comatoso existirão talvez duas entidades, a que quase se esvai e a que se liberta; a eterna luta entre o corpo e o juízo -há quem lhe chame alma, há quem lhe chame espírito, há quem nem repare que existe e que sobreviva apenas com um pavor da morte, talvez inexplicável. Há dias em que me esqueço do cárcere que me confina ao corpo falível, ainda relativamente fiável, num minuto de cada vez, mas sem garantias. Noutros, conto os 5 minutos que faltam para o ataque fulminante que me vai deixar a obra por terminar, noutros pergunto-me que importância terá a obra que justifique a minha permanência. Todos me confirmam apenas a minha falta de domínio do fundamental, a eterna ignorância com que espeto cruzes (as marcas que deixamos, se quiseres) à minha volta para me lembrar do que me deveria esquecer antes que tudo se esqueça de mim e delas.
Grande abraço meu bom amigo!
A vantagem de se estar ligado à máquina (com saúde) é manter viva a esperança de um dia, em vez das saudosas "que linda bochechinha"… vá ouvir “conta-me todas as tuas rugas!” acompanhado de uma festa dada por mãos jovem, curiosas e sensíveis, vindas de um corpo ágil sentado na minha frente, numa atitude demonstrativa de sensibilidade, carinho e disponibilidade.
Parabéns pelo meio século, Parabéns pelo espaço, Parabéns pela partilha! Bom…parabéns pela vida! :)
(Agradeço-te o “Engano”!)
L.
Bonitas palavras L. "da Cidade", agradeço-te a visita ao campo, onde abundam ferraduras e coisas de antigamente; a maioria fantasmas, talvez. Que providencial "engano"! Pelas tuas palavras, só posso confirmar que há males que vêm por bem. Do que me felicitas pouco domino; nem o tempo; talvez alguns espaços, exíguos e em aluguer de curta-duração; nem a vida; só talvez a partilha, e essa pode ser uma fragilidade pela entrega de... enfim, tu sabes. Eu é que te agradeço, a visita e as palavras positivas neste espaço que já conheceu melhores dias.
Bem-vinda! :)
È da minha vista, ou tens a ferradura a enferrujar?
Olá Chapa!
É assim como a pescada, que antes de o ser... Ou de outro modo, um dia é da lixa, outro do lixador. Enferruja a ferradura, mas o burro está num brinquinho!
... reticências?...
Pontos de exclamação, duma perplexidade indescritível. Nem sei que te diga.
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