domingo, 9 de maio de 2010

Deprecada

Vai, feiticeiro! Espera-te a tribo a Oeste.

Que anseia por te ver sair do ventre do pássaro mágico que te transporta.

Vai, curandeiro albino! Desce ao terreiro onde os gritos das danças da chuva hoje não se ouvem. Reúne as hostes celestes e pacifica as negras almas. Exorciza os demónios que os poluem e exorta as almas puras que apazigúem os espíritos crentes, que os outros já estão em paz. Perdoa a culpa dos pecadores dos homens e faz erguer aos céus eternos o éter dos que partiram na tua fé.

Nomeia o inominável, que os acalme. Ergue o teu bastão e controla com a tua magia o tresmalhado. Reúne a manada cega e dá-lhe destino. Revigora-lhes as colheitas com os teus poderes abissais e o som das tuas cabaças.

Que o Sol e a Lua te obedeçam para que a noite e o dia voltem a reinar nessa terra cinzenta, queimada, poluta.

Tu que falas com os deuses de todas as línguas, pede misericórdia para esses indígenas e abençoa-lhes as chagas que os envergonham. Transforma a água que bebem em néctar que lhes sare todas as maleitas.

Milagreiro puro, virginal e imaculado, escuta a voz dos homens e transmite-lhes o conhecimento do infinito, para que se imbuam de novo daquilo a que chamam esperança.

Envergonha-os, da nudez em que deixam desprotegidos anciãos e infantes, irmãos e irmãs. Mostra-lhes que os deuses não têm conchas nem jogam nas cartas o destino que os submeta. Aceita as suas dádivas e sacrifícios sentidos no pó do terreno soalheiro.

Leva-lhes às cabanas modestas, que habitam, o brilho divino que há muito esqueceram. Pede por eles à terra que lhes seja firme aos passos e leve no sepulcro. Apela às ossadas dos ancestrais de tantas cruzadas, que te adornam as vestes, que renovem o poder incomensurável dos amuletos que trazem agora à tua presença.

Escuta-lhes todos os rumores, medita no compasso dos tantãs que te celebram, como se fossem dedicados a mim.

Faz com que as bestas lhes sejam de novo inferiores. Liberta-te da opulência e da soberba. Diz-lhes a verdade sobre os meus poderes, explica-lhes que apenas criei o universo, pouco mais posso. Mas não uses o meu nome em vão. Os poderes são dos homens, não de um deus.


Nunca acreditarão se tu próprio não acreditares, que podes fazer o que te delego.

Prova-lhes a minha existência; como provarei daqui a dois mil anos, em consequência da tua conquista, que terás existido.

E esquece as epístolas, que o correio anda atrasado.

Eu, to ordeno! Cumpre-o, sob pena de te tornares num deles e passares também tu a adorar-me. Bem sabes que essa é a sua maldição.



© CybeRider - 2010

14 comentários:

escarlate.due disse...

resigno-me à minha insignificância de não comentar, sob pena de dizer meia dúzia de bacoradas que me qndam entaladas ou ofender a fé de algum crente ou qualquer outra coisa parecida

mas juro que tenho esperança, tenho! tenho esperança que os meu (e os outros) filho seja mais inteligente, mais capaz, mais sensato, mais perspicaz, mais honesto, mais humano (e menos divino), mais guerreiro, mais vitorioso e muitos outros mais do que eu (nós) e faça(m) deste planeta (sem esquecer este país) um mundinho melhor e mais habitavel do que é

Milu disse...

Eu, ovelha tresmalhada, sinto-me plenamente à vontade para encarreirar as fileiras do anti-papismo, tendo em conta que esse meu espírito já não é de agora. Há muito tempo, era eu ainda uma menina, e já lutava com a confusão que me brotava da simples observação, através da qual me era dado ver, que a prática do catolicismo, não faz necessariamente as pessoas melhores. O que acho é que as pessoas se arrojam num costume, que lhes advém dos ancestrais, sem mesmo entender, o que significa a verdadeira fé, ou mesmo, o que significa e o porquê das religiões. Por vezes, chego a pensar, que existe uma dupla responsabilidade nas pessoas que são crentes, ou melhor, que se dizem crentes, porque se o são, como justificam a sua cedência tão fácil aos seus ímpetos de maldade? Será que é porque têm ao seu inteiro dispor o recurso da confissão? Na qual, mediante a penitência de rezar numa avezada uns pais nossos e avé- Marias, precedidos do acto de contrição, que assim dão por si na estaca zero do rol dos pecados?! Vistas as coisas até que pecar compensa. Fica-se com o prazer de pecar, porque tudo o que é bom é pecado e ainda assim pode-se ser perdoado.
É evidente que esta crise da igreja, mais tarde ou mais cedo, haveria de se dar, pois se os tempos são outros! A ignorância e boçalidade dos povos de antigamente já não existe, hoje, perante o novo, todos fazemos perguntas, todos queremos saber como foi e é com esse mesmo espírito que actualmente se questiona o passado e a acção dos diversos agentes que fazem a sociedade. Contudo, apesar da minha posição em relação à igreja, sou oriunda de uma família crente, pelo menos no que respeita à minha mãe, que tem uma fé inabalável, ainda um dia destes me fez saber que todos os dias pede a Deus graças pelos filhos, para que nos acuda nos maus momentos. Perguntei-lhe então, se já tinha pensado em todos aqueles, que enfrentam mais e maiores dificuldades e que, porventura, não terão quem por eles interceda junto ao Altíssimo. Mas a fé é inquestionável, todos temos enraizada no mais profundo da nossa alma a ideia de Deus, tanto assim é, que nas culturas mais selvagens também se adoram deuses, nem que seja um bocado de pau, é preciso acreditar, que esta vida não é só fumo. Por outro lado não sou capaz de imaginar a minha mãe de outra maneira, pois perfaz a imagem das grandes mulheres do antigamente, que tudo davam aos seus sem nada pedirem em troca, uma estirpe que quase não existe.

pepita chocolate disse...

Gosto da tua sátira. Poucos se atreverão se atreverão a escreve-las. Menos ainda os que a escreverão tão bem como tu. (Lamento se me torno repetitiva neste meu desfiar de elogios à tua escrita. Mas acho que são merecidos.Uma vez mais. Quando deixarei de o fazer?)

Não vou estender-me muito sobre o assunto que escreves. Mas ando há muito a dizer que se os Portugueses se embrenhassem em algumas causas como com a vinda do Papa a Portugal, talvez a nossa economia estivesse um pouco menos nas ruas da amargura.

Além disso, "com papas e bolos se enganam os tolos". E acho que este ditado popular desta vez, serve na perfeição. Embora quando aplicado, se refira a papas de servir à mesa.

De repente, deixámo-nos desta tristeza, deste fado, de uma economia que se afunda, da corrupção que nos governa, dos projectos megalómanos e paramos. emendo: pára quem pode, com consentimento de quem governa. Porque este país produz que se farta. Então, nos departamentos públicos, paramos a contemplar o despacho nos assuntos e nos problemas...

E eu aqui tão perto, e não me deixo tocar. Porque há pessoas que não me dizem nada. Lamento se cometo sacrilégio, mas existem pessoas que nunca me convencerão do papel que desempenham.

Beijinho e obrigada pela leitura (diferente) que me proporcionaste.

vítor disse...

Muito interessante, muito interessante...

CybeRider disse...

Olá Escarlate!

Sentado à volta da fogueira, sinto o cheiro do bicho a assar, e vejo os meus antepassados mais amacacados a discutir a validade da costela que o feiticeiro come. Numa palhota outra criança morre, as cabaças são milenares, a magia vem das estrelas. Também esse curandeiro antigo se veste com trajes estranhos. Não mudámos nada. Mas o infinito que compreendes diz-te que a solução existe algures ali à frente, e essa tua magia é contagiante, verdadeira, e essa sim, sinto-a como plausível.

CybeRider disse...

Olá Milu!

Mau é pensarmos que para tudo há remédio, mesmo o irremediável tem de ter saída; por aí, se fores crente terás sempre a tua absolvição.

Mas na realidade muito poucas são as coisas remediáveis, mesmo as palavras depois de proferidas ficam ali indeléveis. Tudo o mais é uma ficção criada a nosso prazer.

Mais justo será por isso o ateu, que tal como veio ao mundo terá de valer por si e sofrer em si as consequências do que faça. Tenho defendido que se nasce sem fé, mas não me recordo; sei que por isso abomino as associações de ateus, não reconheço validade a um associativismo que evidencie o que é natural, universal e humano, com estas características não merece ressalva, por ser comum a todos. São os acrescentos éticos que nos tramam, escudando-nos em pretensas protecções que, se por um lado nos apaziguam aos olhares alheios, não nos entram na alma para nos lavar as mágoas só nossas, excepto ao inconsciente incapaz de uma auto-análise, esse convencer-se-á que sim, e galvanizar-se-á para nova parvoíce inconsequente, e ainda com promessas de outra vida! A religião vista assim é fonte do mal. Não devia ter lugar na sociedade.

As nossas famílias crentes talvez não tivessem tido as vias que temos, o tempo de que dispomos, principalmente a degradação social a que assistimos e que nos leva a questionarmo-nos... Por isso os perdoo desse pecado.

A fé é-me uma manifestação alheia e estranha que me leva até a acreditar que existe de facto outro mundo que não o meu, mas ao qual não tenho acesso, e que bom seria se tivesse, porque assim estou condenado e solitário!

A vida não é fumo, não. Mas sinceramente terei de procurar o pedaço de pau que não encontro mas que referes, nem sei se me faz falta. Já fui diferente. Aprendi, agora tento a custo desaprender o que me incutiram. Deste desaprender veio o alívio da ansiedade, convivo melhor com aquilo que sou, porque afinal... Quem quereria viver para sempre?...

Já fui diferente...

CybeRider disse...

Olá Pepita!

Quantos se atreverão alguma vez a falar verdade?

É claramente complexa a nossa busca por causas, que talvez não tenha razão de ser. Valeria a pena questionarmos a vida, que poderá não ser mais que simples deformidade, para não dizer aberração, do universo inerte. Os planetas imensos não se questionam. existem, como nós. Mas à revelia questionamo-nos, aumentando assim o que não é natural, criando a nossa própria ilusão.

Agora que cá estou é bom. Porque tem de ser, apenas isso.

Sacrilégio é pretendermos que tudo seja à nossa imagem e semelhança. Devíamos saber ajustar-nos à nossa realidade e ser felizes com isso, sabendo que é fugaz e sem retornos. Saberíamos assim qual é o nosso verdadeiro papel, sem necessitarmos de recorrer a funambulismos.

Beijinho, Pepita. Diferente é a forma como me sinto seguro por escrever abertamente o que pode ser por vezes menos convencional, acabas por me provar com o teu contributo que não estou tão só. Obrigado por contribuíres para que me sinta humano e sem ressentimentos pela minha busca desesperada por uma verdade, por vezes um pouco diferente, talvez mesmo redutora, mas pura.

CybeRider disse...

Muito assustador, Vítor. Alguém que nos grite bem alto que estamos perdidos! Séculos de irresponsabilização!

Mário Rodrigues disse...

"E então, surge vindo dos céus o grande e alvo albatroz real..."

Gostei da verdade contida, do modo, do arrojo e também da beleza da cena imaginaria.

Obrigado

Um abraço

Nirvana disse...

Olá Cybe

Li o teu texto ontem. Tarde, muito tarde. Não cumprindo a tolerância, o despertador não tardaria a tocar, e os teus textos não são textos que se comentem em segundos. São, pelo menos para mim, textos que me levam a reflectir, a ler novamente, a pensar.
Uma das (muitas) coisas que aprecio aqui, e nos teus comentários, é o respeito que demonstras para com o que escreves e lês, mesmo que não concordes. Expões os teus pontos de vista sem ridicularizar, e acrescentas sempre, sempre, alguma coisa. Das poucas coisas que me incomodam realmente é a falta de respeito para com o próximo. A linha entre sinceridade e prepotência é muitas vezes confundida hoje em dia, a meu ver.
Venho aqui depois de ler o teu comentário, mas vou dizer o que pensei ao ler o teu texto, a primeira vez.
Eu acredito em Deus. Digo-o sem vergonha. Acredito. Assim como acredito que se nós nos cingíssemos a apenas dois, dois dos seus mandamentos, seríamos um mundo completamente diferente: amar a Deus e amar o próximo como a nós mesmos. Para mim, Deus e Igreja são duas coisas distintas. Não frequento a igreja, não vou à missa nem a aglomerações religiosas. Não concordo nem me identifico com muita, muita coisa na Igreja, por isso, prefiro ficar com o meu Deus, que nada exige de mim. Nem eu Dele, excepto que me ouça, de vez em quando.
Mas entendo quem frequenta a Igreja. Chego até a ter pena de não ter aquela fé na Igreja, porque se calhar, como muitas dessas pessoas, não questionaria tantas coisas. Penso que, mais do que acreditarem, as pessoas precisam disso, dessas manifestações de fé. O que fazem depois com a fé, como que apreendem na Igreja, é com elas. Usa-se e abusa-se do nome de Deus, sendo ele besta ou bestial, conforme a vida, da responsabilidade dele, nos agrada ou não.
Fé para uns, expiação para outros, para tudo serve a Igreja. Não nos importariamos até que fizessem alguns milagres! Mas penso, sinceramente, que, apesar de tudo a Igreja fará mais bem do que mal. Imagina este mundo sem fé nenhuma, Cybe, sem as pessoas acreditarem em nada. Não sei, mas acho que seria muito pior.

Beijinhos, Cybe

CybeRider disse...

Olá Mário!

Esse de que falas será o deus dos albatrozes, mas sendo as bestas superiores aos homens em tanto, já não me surpreende que seja ele o omnipotente.

Obrigado sou eu a agradecer-te as tuas sempre boas palavras, suspeitas é certo, porque vêm tintas da tua boa amizade.

Grande abraço!

CybeRider disse...

Olá Nirvana!

Nunca seja vergonha para alguém acreditar num deus! Eu já acreditei, e lamento profundamente ter abandonado a fé, e acho que se alguém se teria de envergonhar seria eu, não tu. Sou minoritário por não ter crenças, sou repudiado por estar fora de um grupo. E tenho pena pela condenação que aceito, já sem revolta. Nunca poderei idelizar a possibilidade de ser, após isto, mais do que isto. Daí que o que valha tenha de o demonstrar aqui e agora.

Não me é por isso prepotência, é sentido da dimensão diminuta a que me reporto. Não sei se o mundo sem fé seria pior, dependeria de cada um. Pelo meu lado sei. Sei que me responsabilizo sózinho pelos meus actos, que não são encomenda de deus, sei que nada haverá que expurgue a culpa de pecado que eu cometa. Sei que a vida que não me atribuí não poderei tirar a ninguém, que a integridade moral e física não as devo a deus mas aos homens e como tal me são parte integrante e divina, por magnífica, por isso mesmo; defendê-las-ei para mim e para os outros quanto possa. Tolero porém a crença no feiticeiro, aceito a cura do curandeiro, porque para quem tem fé é por essa via que acontecem. Não para mim. Vejo as danças de culto, de tradição, e não deixo de me sentir à margem da tribo, repudiado porque não sei ser hipócrita ao ponto de acompanhar aquilo em que não acredito, não deixo apesar disso de encontrar fundamento e de ser tolerante para com essas práticas. Reconheço o profundo amor dos crentes a um ideal que justificará o que se faça, como se me justificam os meus actos pagãos. Mas aceito que errado possa ser eu. Faço votos para que o seja e que esse deus dê aos seus as benesses e o conforto que eu, o insignificante ser que sou, gostaria de poder dar aos meus, mas não consigo por estar num patamar diferente.

Por tudo isso não me é difícil imaginar o mundo sem fé, para mim ele é assim, e a fé que conheço são manifestações alheias de quem considero tantas vezes ter menos valores do que eu.

Mas há um aspecto importante, onde vejo algumas faltas. É que para viver em sociedade é importante aceitá-la como uma manifestação superior à nossa existência. É aqui que vejo muito deboche. Esquecem-se fundamentos alheios em prol da defesa das nossas convicções gratuitas que nada trazem de bem nem a nós nem aos nossos. Pelo meu lado, apelar ao ateísmo não me traria nada de melhor ao mundo, sentir-me-ia a condenar a humanidade àquilo que sou. Não o quero, decerto que não.

Seria bom se o deus, de quem ouvi falar, não fosse apenas tão poderoso como um homem, aí sim, o mundo seria decerto um lugar melhor.

Beijinhos, Nirvana

Nirvana disse...

Cybe, lá está o que eu digo. Tu tens a tua opinião, fundamenta-la, defendes o teu ponto de vista, mas não ofendes, nem tentas impôr, a qualquer custo, as tuas ideias. Sabes "defender" as tuas ideias sem prepotência, e é desse modo que nos fazes pensar e trocar ideias. Não estou errada, pois não? Espero que não penses que quando usei a palavra prepotência me referia a ti ou a quem tem ideias diferentes das minhas. Sabes bem que não. Mas, e esta é a minha opinião, hoje em dia está na moda ser "sincero". Para mim, ser sincero é ser verdadeiro. Não implica dizer o que me apetece quando me apetece e como me apetece. Implica dizer o que penso, respeitando o outro e a sua opinião, mas esse é outro assunto, e lá começo eu a divagar!

A minha mãe é católica, não fanática, mas católica. Vai à missa todas as semanas, viu tudo o que deu na televisão do Papa, comentou o que ele disse, etc, etc. Eu ouvi, dei a minha opinião, e respeitei a dela. Sendo ela o meu apoio muitas vezes quando trabalho ao fim de semana, começou a levar o meu pequenino, que me veio pedir para ir à catequese. Deixei, e ele fez a 1ª comunhão. Depois perguntei-lhe "não queres continuar a ir à catequese, pois não, filhote?" A resposta dele foi "quero", e deixarei ir até ele não querer. É uma criança, mas não lhe vou eu impôr as minhas ideias. Ele decidirá por ele quando chegar a hora. Sei que ele quer porque vão levar um bolo ao sabado ao senhor X que está doente, porque a catequista lhes conta histórias de meninos que faziam boas acções, porque fazem jogos e brincadeiras e não por ele saber oque é a Igreja ou Deus. Em relação à minha mãe, falo com ela sobre o que acho mal na igreja, mas não lhe digo "és uma tapadinha, mãe, que não vês nada". E são este tipo de frases, de atitudes, que vi e ouvi esta semana que me incomodam.
O Deus em que eu acredito nada tem a ver com a igreja. Nem tão pouco sei se se pode chamar fé. Acho que não. Não vejo Deus como o meu salvador, como o Deus castigador, nem tão pouco como o poço de desejos ou parceiro de negócio toma lá, dá cá.

Em relação à vida em sociedade, Cybe, a religião poderá servir como desculpa esfarrapada em benefício pessoal. Mas acredito que, para muitas pessoas, seja um suporte importante.
Respeito e compreendo quem não acredita em Deus. Eu própria já duvidei tanto!! Não compreendo é quem não acredita nos valores do ser humano, Cybe, e vive esta vida tendo única e exclusivamente como objectivo a satisfação pessoal.
Quando digo que o mundo sem fé nenhuma seria pior, digo-o porque, apesar de tudo, os valores que a igreja transmite são maioritariamente de ajuda ao próximo. Que o Homem, acreditando no futuro eterno como continuidade dos seus actos, seja mais humano. Eu, eu acredito em Deus, e acredito no Homem, apesar de tudo. Não me revejo na Igreja, nos seus costumes, não vejo o meu Deus representado no Papa ou na Igreja.
Acreditassem os homens neles próprios e nos outros, Cybe, respeitando-se mutuamente, e o mundo seria, sem dúvida melhor.

Beijinhos, Cybe :)

CybeRider disse...

Olá Nirvana! :)

Consentir-me-ás outra abordagem, porque me recordo da perseguição ao Salman Rushdie, ou às imagens de maomé publicadas pelo jornal Jyllands-Posten... Custa-me mais reprimi-las que criticá-las, principalmente porque desconheço em parte as razões que as justificam, principalmente os motivos pessoais dos autores. Se um padre me violar alguém de família amanhã serei o primeiro a ligar o esgoto da minha casa à igreja do fundo da rua, se pensar bem no que foi a inquisição e deixar que isso me tire o sono, como deveria acontecer se fosse tão humano como me consideras, repugnaria essa instituição por tudo o que representa e voltar-me-ia eventualmente contra ela com todas as minha forças, se pensar na mortandade que o cristianismo espalhou no seu proselitismo, ibidem...

Não gostaria que me tomassem as atitudes pretensamente educadas como um dado adquirido, porque um dado adquirido também é alguém em quem confiamos entregar-nos um dia às mãos de um desconhecido que a sociedade diz ser pai, confessor, substituto de deus e que afinal é um violador sem escrupúlos, em aparte sempre te afirmo que um padre violador me é mais tenebroso que qualquer outro criminoso que pratique esse acto hediondo, isso só por si me bastaria eventualmente para pôr em causa toda a instituição católica...

Além disso o que nos distingue das crianças é sabermos onde acaba a brincadeira e começa a verdadeira afronta, nenhuma das reais coisas más que o cristianismo praticou se pode nivelar com as eventuais injúrias gratuitas de vandalizar uma foto do papa ou enxovalhar em quadrículas qualquer fé do mundo.

Bem vês, que não sou de confiança...

Beijinhos, Nirvana

P.S.: Lá está! Escrevo estas coisas e depois fico a pensar como sou de facto um mau ser humano por não abraçar essas causas quando os males não me tocam, se tocam afinal o meu semelhante. Não o faço, apenas pelo benefício da dúvida de que ainda haja, como advogas, uma ideia subjacente de "bem" que fundamente o cristianismo (e por outro lado porque não conheço bem o meu semelhante). Isto não me dá vontade de defender essa ideologia, tão só a de não a perseguir. Mas espero que se faça justiça, que será sempre pouca.