quinta-feira, 10 de junho de 2010

No funeral, outra vez

Numa busca pelos motores…
Coisa curiosa esta de buscar nos motores, dantes encontravam-se manchas de óleo, de gasolina, chatices, tubos e fita cola, miríades de fios emaranhados que nem cabelos; por isso não se lhes buscava grande coisa… Encontrei vários valores para o olho de Camões.

Uns, que custou dois tostões; outros, que custou cinco; há quem avente dez. Fica-me a sensação de que a cotação do olho de Camões variou com o aumento da inflação, assim como se houvesse já cotação de bolsa para coisa tão valiosa. Não me custa imaginar que no mercado as tabuletas das frutas e legumes tenham sustentado escritos a gritar por dois olhos de Camões o quilo de tomate ou, no talho, seis olhos de Camões o quilo de maminha. Palpita-me a crítica por pôr as maminhas a valer mais que os tomates, mas ninguém é perfeito.

Não faço a mais pálida ideia de quanto valeria agora um olho de Camões. Penso que, se o dele, homem de gabarito, valeria tanto ou tão pouco, um meu valeria decerto bastante menos. E a falta que me faz! Ainda imaginei uma hipotética cotação para os meus olhos mas, da maneira que estão as coisas, talvez não seja a melhor altura para estes raciocínios; até porque sem termo de comparação ainda haveria alguém que me arrematava algum e lá se me ia a honra se o não vendesse. Assim, para não ter de pôr uma venda num olho, resolvi não pôr um olho à venda. Muito menos dá-lo à pala.

Embrenhado por estes pensamentos, dou-me a confrontar a potencial carga de água que terá trazido para este dia a celebração do Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, na data de triste memória da morte do grande poeta. É que não gostaria que nada se celebrasse por memória da minha morte, calculo que ele também não. Deveria ser a vida o que deveríamos lembrar e o nascimento que deveria sempre surgir-nos em mente. A recordação da morte de alguém deveria servir apenas para nos assinalar que nesse dia ficámos mais sós; para o mal nuns casos, para o bem noutros.

A data de nascimento, por outro lado, além de ter potencialmente sido já escolhida para muitas festas em homenagem do visado, teria a causalidade necessária para nos elevar de gratidão e bons sentimentos, sempre que ele fosse pessoa memorável e singular.

Assim a cada 10 de Junho lá fico com esta sensação estranha de que todo este alarido é para nos recordar de um funeral, o que aliado ao nome do meu país, não me augura nada de bom.

Mas sei que algures estarão pousados, como abutres, os que aguardam a morte do próximo génio patrício, para instaurar nesse o Dia Nacional dos Valores Humanos, decerto com mais justiça.


© CybeRider - 2010

10 comentários:

Caçador disse...

Camões e Pessoa, pessoas maiores que o país que os deixou morrer como se fossem do tamanho dos medíocres que nos têm governado.
Mas são estes - e o Eça e pouco mais - que me fazem pensar naquela coisa da pátria ser a língua (um olho seria difícil), o resto, nem enche o olho...

Mário Rodrigues disse...

Olá Cybe,

Como tão bem sabes, um homem realiza-se no momento da sua morte. Assim almejo, que ao contrário do que me estás a tentar imiscuir na mente, esse será algures num futuro, que por azar nosso estará longe, o dia em que tal como o nosso trovador, o país será "realizado" enquanto tal.

...Ou não...

Um abraço

CybeRider disse...

Olá Caçador,
Muitos e muito ocupados. Já as línguas-de-gato valem mais que a língua de que falas. E, para não se recordarem os que nos ensinam, juntam-se efemérides que os diluam.

CybeRider disse...

Olá Mário,

No dia da morte, morrem todos. Isso não me satisfaz, mas tenho de concordar que a realização é o somatório do que fomos e não a opinião com que nos agraciem. Até por isso seria preferível recordar sempre a vida, ainda que eu, muitas vezes, não o faça.

Um abraço

escarlate.due disse...

não sou pelo culto da morte. não consigo suportar aqueles rituais de idas a cemitérios chorar sobre lápides. já para não falar naqueles que finalmente, só porque morreram, passam de débeis mentais, traidores, e outros adjectivos simpáticos, a heróis, zelosos pais, excelentes maridos, em suma uns anjinhos papudos desprezados enquanto vivos.

acho uma tremenda aberração os reconhecimentos póstumos que deveriam ter acontecido em vida.
faz-me sempre pensar "mas será que é a morte mais preciosa que a vida?"

por outro lado as comemorações como o 10 de Junho e afins, cheiram-me sempre a uma tremenda hipócrisia, gastos desnecessários, ostentações esquisitas, cortejos carnavalescos (já para não falar que a maioria das vezes me privam do filho que apanha grandes secas)

quanto aos dias da nação, dias da mulher, dias de camões, dias da criança, and so on... irritam-me porque fico a pensar "mas... esses dias não deveriam ser todos os dias?"

enfim... Camões para mim ainda é o autor daquele livrinho mais que antigo com uma encadernação lindissima, uma escrita meio arcaica, que eu pedia sempre ao pai quando à noite ele perguntava que história queria que me lesse... e claro que na minha criancice, eu não percebia nadinha mas... adorava

ainda não consigo ser fã de poesia (é tão complicada para a minha camioneta) e contudo ainda adoro Camões e ainda acredito que foi ele o responsavel pelo meu gosto pela leitura, o resto... é paisagem

CybeRider disse...

Olá Escarlate,

Montanhas de hipocrisias a que não se acha nexo, e que nos conseguem transportar mais para incómodos também inúteis do que para prazeres que nos elevem. Disseste tudo o que também penso em relação a esses dias.

A poesia... A poesia estará para a escrita como a música está para a vida. Muitas vezes parece não fazer grande sentido e no entanto transmite-nos sensações, pode intensificar estados de espírito, e aponta-nos pinceladas de imaginário que não teríamos podido ver de outra forma. Não é complicada se a lermos com o coração. Talvez Camões tenha sido grande por ter sido sempre com o coração que escreveu o que nos legou.

O resto... talvez seja poesia.

escarlate.due disse...

aahhhh mas dessa poesia do "resto"... essa eu amo :)

CybeRider disse...

Bem vês, nesta tua frase, que lindo verso, senti cada inflexão como se estivesses aqui a dizê-la! :))))

Gemini disse...

Brilhante, Cybe!

À morte de alguém querido, notável, deve associar-se a homenagem que a sua partida física, por ser irreversível, merece. Nada mais. É a vida e obra de alguém que deve celebrar-se.

A Raínha (Santa) Isabel é padroeira de Coimbra. A cidade dedica-lhe o 4 de Julho por se assinalar nesta data o aniversário da sua morte!?... Como que uma celebração pelo facto de se ter ido, e nos ter deixado "em paz"...

Celebre-se o nascimento e a vida! Pois se todos os que nascem morrem, nem todos os que morrem vivem!

Um abraço.

CybeRider disse...

Olá Gemini,

De facto como esperamos que a urbe reviva tristezas se somos vocacionados para a realização da nossa vida por alegrias e o dia-a-dia já nos impõe tantos condicionalismos. Acabo por compreender quem não saiba a génese de certas comemorações. A retrofilia por epitáfios é prazer de poucos - felizmente, digo eu.

Abraço