quarta-feira, 29 de julho de 2009

Quanto custa pagar?

O texto anterior ao aditamento foi publicado no dia 28/7/2009 pelas 13H10

Esqueci-me.

Tinha de pagar uma factura da EDP... Esqueci-me...

Sei que já há essas modernices do débito em conta... E eles querem. Mexer-me na continha, a seu bel-prazer... Sei que querem. Não deixo! Uma empresa milionária, a mexer-me nos trocos... À vontade. Até me dá calafrios...

Então vou ao multibanco... (Assim, em itálico, então não?...) Vou, quando não me esqueço. Desta vez esqueci-me. É fácil, é moderno, é tecnológico. Mas esqueci-me!...

Instalou-se-me o pânico... E agora? Lá fui, à procura do edifício onde se encontravam, por tradição, as dignas instalações da suprema entidade.

Já não. Agora tinham mudado, dizia o papel afixado no vidro: "Loja do Cidadão". Para o espaço comercial, recém-remodelado no centro da cidade. Olhei o relógio, do telemóvel... Ainda tinha tempo de parquímetro. Andei. Entrei no tal espaço, aberto ao público há... anos. A minha primeira vez, ali. Ora "Loja do Cidadão"... Não estava assinalada nas placas. Cá em baixo rodeava-me o mercado municipal, uma panóplia de lojas em riste, em suma, nada do que eu queria. Rodeei o espaço, cheirei o peixe, as hortaliças, a fruta. Olhei para o tecto, lá acima, como que a pedir a um deus que não conheço. Lá estava... Todo o andar de cima era a tal "Loja do...". E pensei que se calhar uma cunha do tal a quem não pedi, mas que me deu, talvez acabasse por dar jeito.

Ora escada rolante... Vá... Já sabes que não cais... Lá fui! Não era do lado direito. Fui para a esquerda, do outro lado do prédio imenso. Está bem, afinal temos de ter alguma paciência para lidar com as instituições. Um sorriso feminino aconselhou-me a tirar uma senha e dirigir-me para o corredor à direita, ao final, que era lá... Pois sim, é fácil. Algumas cadeiras ocupadas. Um lugar livre... No quadro o número 39 estaria lá sentado. Olhei para a minha senha... 40.

A jovem perguntou-me se eu era o número 39. Não... Sou o CybeRider, a minha senha é o número 40. Esperei alguns minutos... Pareceram quase uma hora, sossegadito, em silêncio. Subitamente o número mudou para 40 no tal visor, aquele ali bem ao cantinho. Pulei da cadeira onde me tinha acabado de sentar.

"- Venho liquidar a factura. Mas está fora de prazo." Afinal que não. Ainda perguntei, mas isto é a EDP, não é? Que sim. Mas que a factura tinha de ser paga num agente, porque nas payshop (o que quer que isso fosse) só dentro do prazo, mas que para minha felicidade estava um quiosque verde ali mesmo, logo ali, ao descer da escada e à saída da porta principal por onde eu entrara, que ela vira por onde eu entrara, claro que vira, a mim e à minha aura brilhante e resplendorosa.

Fui escada abaixo! O quiosque... Mais não era que o quiosque de jornais, centenário, agora com revistas da moda, e de moda, menos de lavores, mais de tecnologia e coscuvilhices, jornais carregados de desastres e política. E a fila, uma fila, como a que não havia na "Loja do...", mas ali era para o totobola. Talvez para o euromilhões, pois acho que agora é mais isso. Uma senhora baixinha entrou e atirou com o dinheiro para algures no espaço, tirou um Correio da Manhã e partiu esvoaçante apregoando que tinha de tirar um bilhete para a identidade, às vezes também procuro...

Foram só mais 15 minutos. Olhei para o relógio, pensei no parquímetro. E na Emparque.

Ainda recordei com satisfação a menina do guichet da EDP, na "Loja do...", ali pela fresca, a olhar para a cadeirita vazia à sua frente e a fazer saltar os utentes da cadeira da sala de espera, à medida que lhe aprazia carregar no tal botão, naquele intervalo, em que se cansasse de sentir a frescura e de olhar para o vazio. Que rica vida!

"-Fáiche fávô sinhô?..."
"-Para pagar isto."
"-Djinheir ú chequi?"
"-Dinheiro."

Foi fácil. Foi assim como antigamente. Chegava à EDP e estava 20 minutos na fila. Não havia ninguém perdido. A fila não era para o totobola, nem para o tabaco. Todos sabiam que para pagar a EDP, em primeira e última instância, seria na EDP.

Agora, fiquei a saber, para pagar a EDP. É como comprar a lotaria.



© CybeRider - 2009

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Aditamento: Em 29/7/2009 pelas 14H00 recebi uma carta da EDP, a informar que, caso o pagamento da minha factura ainda não tenha sido efectuado, poderei utilizar os meios comuns de pagamento, enviam-me um novo código para pagamento pelo multibanco...

Gastaram recursos deles, dos correios, do quiosque, quase uma hora - talvez mais, ainda não avaliei as consequências por inteiro - de um dia do meu trabalho, porque o código inicial não funcionava ao fim de quatro dias, e agora mandam-me outro código para pagar o mesmo valor.

Os códigos da PT permitem pagamento após alguns dias... Os da EDP não, eles repetem o envio, outra carta (no meu caso inútil), com novo código.

Paguei ontem... Escusava de me ter chateado. Para a próxima, não me vou chatear, não vou pagar até que me mandem novo código. Aprendo a cada dia. E assim o país avança... devagar... devagarinho...


© CybeRider - 2009

23 comentários:

pepita chocolate disse...

Grande odisseia esta!
Até fiquei cansada de tanto caminhar (contigo!aqui!)

Desculpa-me,mas a visita vai ser rápida. Vim só tirar a senha, porque já me esperam noutro guichet de atendimento...

Até logo, já cá volto, se não passar a minha vez!
Serei obrigada a tirar senha outra vez!

Beijinho!

Gemini disse...

Se não fosse a "Loja do...", não saberias onde pagar!

(E eu que estava convencido que eras o 39...)

;))))

Um abraço!

CybeRider disse...

Olá Pepita!
É sempre um prazer encontar-te, ainda que de fugida... :)))

Aqui tens sempre lugar a atendimento VIP!

Beijinho!

CybeRider disse...

Pois não Gemini, o curioso é que parece tão fácil... Pode-se pagar praticamente em todo o lado, menos na EDP... Por outro lado, a EDP fica quase às moscas, enquanto no quiosque se mantém as filas. Dá-me a sensação de que se desfazem as filas dos grandes para as dividir pelas filas dos pequenos... E pagar requer uma especialização social, temos que aprender a não nos dirigir ao local óbvio, mas a saber que locais menos óbvios serão adequados. Sinto-me reprovado numa coisa elementar, sem lógica. Enfim...

Um abraço!

Mário Rodrigues disse...

Caríssimo Cybe,
Já me tinha acontecido uma parecida, mas não tive o flash cerebral que me proporcionaste!
Não deixa de ser curioso, que um espaço que se propõe juntar todos os serviços necessários num local só, na realidade não sirva para resolver o que se propõe resolver. Levando-nos a locais fora do espaço que se propõe juntar todos os serviços necessários para os resolver!
Confuso? Pois é! Realmente é!
Um abraço
(P.S.- Essa era boa para o “Palanque dos Indignados”)

CybeRider disse...

Olá Mário!
Obrigado pela dica. Ainda tenho que aprender umas coisas contigo acercado teu projecto. Já deves ter reparado que a minha indignação é assim um bocado para o filosófico... :)))

Mas, com o teu acordo, cá vai!

Não hesites em guiar-me para essa via, que "apenas" me honra imenso.

Um abraço!

P.S.: Ao que apontas apenas acrescento que me abisma o facto de a entidade credora não aceitar a liquidação do crédito, e isso é-me incompreensível.

Mário Rodrigues disse...

Caríssimo Cybe,
Trata-se do fantástico mundo, “Simplex World”.
Gostei bastante
Um abraço do Mário Rodrigues

Nirvana disse...

AHH! As coisas que eu aprendo contigo!! :))
Quando me acontecer isso, vou primeiro ao quiosque e só depois à EDP dizer "Já paguei, veja se está aí no computador. Não me cortem a luz lá em casa que eu fico sem net. É que comer, ler, lá se arranja, televisão não interessa (um dia destes ainda apanho gripe pela tv), mas ainda não há computadores a pilhas!"

Mas, bem vistas as coisas isto até tem lógica e é importante para o país. Senão vejamos:
-não estão sempre a falar no monopólio das empresas como a EDP? Então assim ela só detem o monopólio dos lucros e vai distribuindo o trabalho;
- se não estivesses tão apressado por causa do parquímetro, até tinhas visto umas revistas e comprado uma. Lá está o apoio aos pequenos comerciantes.
- Se se fizesse tudo na EDP, já imaginaste as filas?? Algum dia chegavas e eras o número logo a seguir?? Nunca!
- ainda por cima te oferecem a possibilidade de jogar no euromilhões ou no totobola sem estares na fila para isso, porque estás na fila para pagar a EDP.
A isto acho que se chama-se descentralização.
Como diz o ditado (autoria desconhecida, mas agora mesmo) - aqui chama-se Assembleia da República, mas governar é melhor que se governe noutro lado, senão está feito ao bife.

Também gostei da " tinha que tirar um bilhete para a identidade, às vezes também procuro..." Gostei mesmo muito!

Beijinhos

Soraia Silva disse...

Ó Nirvana, depois de ires pagar a factura no quiosque, nao precisarás de te deslocares a lado nenhum, nem à EDP, pois no quiosque têm um sistema da EDP e ao fazeres logo o pagamento, automaticamente fica registado...

Sei isso porque ja estive no limite do esquecimento... e por pouquinho, nao passaria pelo mesmo de TU CybeRider :P
logo eu que detesto estar em filas ou de andar de um lado para o outro...

beijinho :)
(aqui sempre é bem melhor, apesar das filas que poderá haver, podemos usufruir deste espaço a qualquer momento ehehe)

CybeRider disse...

Olá Nirvana!
Ainda bem que não respondi logo ao teu comentário! Parece-me que também estás a pensar à antiga, e tu que ainda és uma jovem, isso não me dá esperança...

Se isto te acontecer, sentas-te na esplanada do café, a ver as vistas, eles mandam-te um código novo um dia desses, e tu não te chateias!

"gripe pela tv"... Isso é que já vou vendo, tanta gente contaminada dessa maneira... E eu que estou num grupo de risco, ainda não me cheguei a preocupar... Nem apontei o número que o Mário já divulgou... Bem, se der um espirro vou lá a correr ver.

E a Emparque ainda me "papou" as moedas, ah pois!...

O tal bilhete, quase, quase... que pegava por aí. Resisti à tentação! :)))

Beijinhos!

Mário Rodrigues disse...

Cybe,

Estou sem palavras. Mas estranhamente ou não, era esperado um desfecho desses. Se bem que é possível que te peçam juros de mora por não utilizares a segunda referencia... Não iria estranhar...

A braços...

CybeRider disse...

Olá Soraia!
Justificas em pleno a etiqueta que atribuí ao texto. O teu optimismo e a forma positiva como acabas por demonstrar que nenhum mal daqui vem ao mundo, mostram que a tua juventude se adequa a estes modernismos que a sociedade vai adoptando. Agora, para as pessoas que já tinham aprendido as coisas de uma certa maneira, estes "pequenos-nadas" acabam por se tornar em desafios imensos difíceis de transpôr, ou que pelo menos requerem que se aprenda muito de novo, algumas coisas elementares, que pensávamos já estarem sabidas... :)

Beijinho!

CybeRider disse...

Olá Mário!

A braços!...

Podes dizê-lo... :)

Nirvana disse...

Ai! Desgraça a minha :)))
Mas penso "à antiga" muitas vezes!

Já me ri com o aditamento. Embora não estranhe... Um dia destes uma amiga minha esteve 12 dias de baixa por gravidez de risco, logo no início da gravidez. Depois o susto passou e ela foi trabalhar, e trabalhou até ao final da gravidez. Durante todo este tempo não houve mais papéis de baixa, nada. Mas ela continuou a receber o pagamento da segurança social, como se de baixa estivesse, por períodos de 30 dias, com uma gravidez de risco (é um pouco mais do que uma baixa normal). No primeiro mês achou que fosse engano e que lhe pediriam para restituir o dinheiro. No segundo mês começou a chegar à conclusão que ganhava mais se estivesse de baixa, mas continuou a trabalhar. Pegou num cheque com o valor desses dois meses e foi à segurança social porque queria restituir o dinheiro. Mas não pode fazê-lo. Porquê? Nem ela percebeu. Porque tem de esperar que a segurança social lho peça e só aí é que pode devolver. Continuou a receber até quase ao final da gravidez. Felizmente, ela tem a cabeça no sítio e não mexeu nesse dinheiro, mas muita gente não pensa assim. Agora (o filho tem quase um ano), pediram-lhe que devolvesse o dinheiro. Pode devolvê-lo em prestações, caso o tenha gasto.
E assim funcionam as coisas.

Faço minhas as palavras da Soraia. Muito bom poder usufruir deste espaço!
Beijinhos

Gemini disse...

Boa noite, desculpe, é aqui que poderei pagar uma fRactura do sistema?


(Sem (grandes) comentários, CybeRider)

Um abraço!

CybeRider disse...

Nirvana, valham-nos as pessoas honestas, que ainda encontram a lógica do dano que estas coisas provocam e que acaba por recair sempre nos mais desfavorecidos.

Só isso pode contrabalançar um pouco "esses casos em que os seres de Deus partilham e distribuem todo o Mal do Diabo"; que eu até acredito que não é por mal, será por incúria, por vontade de ir de férias mais depressa... Se houvesse uma justificação que me dessem para coisas tão elementares funcionarem tão mal...

Esse caso que relatas... bem... nem sei que diga...

(Porque é que vocês falam do espaço como se não fosse vosso??? Há aqui alguma coisa que não vi? Tenho algum autocolante nas costas??? Isso não é comigo pois não???)

Beijinhos! :)

CybeRider disse...

Gemini, já não sei se isto vai lá com gesso ou se precisa de uma prótese. Só não vou lá deixar um autógrafo no Livro de Reclamações, porque compreendo que também eu mexi com o sistema ao não ter pago dentro do prazo. Mas num país em que se dão 30 dias de férias a qualquer trabalhador, talvez os códigos de pagamento pudessem ter um prazo de validade maiorzinho (a PT tem), nem toda a gente está apta a ir a correr liquidar facturas no prazo que resta entre a data do recebimento pelo correio e do estabelecido como limite para o pagamento. (Principalmente se a táctica é enviar depois um segundo código, que atesta o atraso como coisa normal).

Um abraço! :)

Caçador disse...

Ó Cyber meu amigo, já experimentaste renovar o BI que agora é substituído pelo novo «cartao-do-cidadão-4-ou-5-em-1»?
Vais ver que dá para uma verdadeira novela, ou no caso mais à portuguesa/pimba, uma telenovela. Enfim, é como alguém aqui diz, o "simpeléxe".

Abraço (tá quase)

CybeRider disse...

Olá Caçador!
O tal Bilhete para a Identidade, qualquer dia nem saberemos quem somos sem ele...

Enfim, como diz o Mário,

A braços!

calamity jane disse...

Ó caramba! Ainda não engoli essa de não poderes pagar na tal "loja do..."! Francamente! Para que serve então a dita loja? Para que servem os serviços públicos? Está tudo entregue à bicharada. Fora os nossos amigos animais que, claro está, não têm culpa...

CybeRider disse...

Olá CJ! O único culpado sou eu... Acredita!

:)

Nirvana disse...

Cybe,
Está bem que as bebidas expostas são para consumo desabrido no estabelecimento.

MAS....

E o cão??? Cuidado com o cão!!

:)))))))))))))

CybeRider disse...

Nirvana... Temos que ter sempre cuidado para não pisar os animais. São amigos, andam sempre à nossa volta, sabes como é... Achei que nunca seria demais a recomendação, porque há quem os tenha, e a malta distrai-se... Enfim, nunca se sabe quando não virá a fazer falta ver a coisa escrita... ;)))))