sexta-feira, 13 de novembro de 2009

D. Quixote de lata

Miro a paisagem desmontado do meu Rocinante de lata.

Não fora o penico de plástico na cabeça e ninguém diria a loucura que me invade as entranhas. Queria uma bacia de barbeiro, mas já não havia. Não faz mal, este apetrecho serve o propósito. Imagino-me majestático, imponente. Passam-me pela ideia os momentos mais felizes, aqueles em que a lata da minha armadura brilhante, que era brilhante então, não estava suja e amolgada como agora, não...

- Ah, Dulcineia... Lembras-te? Como tudo era fácil... Não haveria moinho de vento que me fizesse frente. No entanto, só tu me compreendias.

Para o resto do mundo eu era apenas um visionário insolente. Alguns achavam alguma piada e juntavam-se ao meu séquito, outros nenhuma e combatiam-me com tenacidade.

O que me vai faltando é a lata. Falta-me a lata para pedinchar favores, falta-me a lata para corromper ideias obtusas e abafar as línguas viperinas que tartamudeiam à minha volta. Falta-me a lata para ferir susceptibilidades de quem se arroga o direito de me tentar profanar princípios e exigir que inexplicavelmente os pretira. Sem lata para ripostar acato desacatos que nunca aceitaria na temeridade da minha sã loucura. Tendencialmente espero que o Sancho Pança me resolva os problemas, ele com o seu pragmatismo e boçalidade. Esqueço voluntariamente que um mero escudeiro nem saberá o que está em risco.

Vejo-me a forjar uma pretensa timidez absurda, com a habilidade exímia com que forjei a armadura brilhante que um dia enverguei e parti para o desconhecido.

Lata não me faltou então, para conquistar o meu parco território, tampouco para me declarar à Dulcineia, que me aceitou a triste figura. A minha armadura sobreviveu tantas pelejas, removi-lhe o pó de cada refega tanta vez... Agora já não. E desiludo-me ao ver no meu reflexo a pálida sombra do guerreiro audaz, que nunca prestou vassalagem para conseguir os seus intentos.

De armadura velha e oxidada, descubro as cãs e olho o horizonte. Sem lata que me proteja fico indefeso, de penico de plástico na mão.


© CybeRider - 2009

17 comentários:

Mário Rodrigues disse...

A "energúmenidade" da besta serve bem o besteiro. Como bem sabes, nunca nada é por acaso. Das duas uma, ou serves as bestas sendo besteiro, ou és bestial, mas não passarás de uma besta...

Um abraço

pepita chocolate disse...

Não tive lata para comentar o teu texto mal ele saiu. Não tive lata, para voltar a ser a primeira a comentar mais um destes teus textos, onde vejo qualquer coisa de diferente dos restantes... (será vontade de baixar os braços?)Tu, que me pareces sempre pronto para a luta, mesmo que os rivais sejam moinhos de vento!

Ai, que agora me apanhaste de surpresa... talvez eu esteja a refazer-me e a tentar recolher argumentos para a lata das esmolas. Mas olha que esta caixa vai levar coisa fraca de mim, não te remedeias com a esmola que cá deixo). Mas vou deixar-te e já a ouço tilintar na lata.

Ainda não te disse, mas Cervantes não é um autor que me seduza. E o D. Quixote, foi livro que não passou da primeira página. Portanto, já lhe ficas a ganhar, que até tens direito a comentário, para além de uma leitura atenta.

Como te disse em cima, parece-me que achas que perdestes as forças (além da lata) que outrora tiveste. Não sei se isso é desilusão, se uma declaração de alguém que julga estar a ficar velho ;).

talvez quando somos mais novos e menos experientes, não nos faltem as forças, nem a vontade de seguir em frente, mesmo quando todos nos digam que estamos nos sentido errado, no lado errado da estrada.Quando somos mais jovens, temos mais sonhos que nos impelem a agir, a correr atrás do que julgamos certo, do que sonhamos, do que ambicionamos. A correr atrás de uma Dulcinea (no teu caso). Porque achamos que nada nos derrubará. Que vamos e nada nem ninguém nos impedirá. Que somos invencíveis. que temos tudo para vencer. Que temos brilho e bravura para chegar mais à frente.Queremos provar o que somos e quem somos.

E ao longo dos tempos, perdemos o brilho, remediamo-nos com o chapéu que temos, e pomo-nos ao caminho já com a resignação como arma. pareces-me resignado. sem ambição. E sem lata que hoje as pessoas te obrigam a ter e tu julgas já não possuir. resignas-te, numa atitude de indiferença. A bravura que te acompanhou no passado, parece agora dissimulada pela lata que vês nos outros.Que não será a tua. uma lata que julgas não ter, e não te ser própria.

Sim, bem sei que neste momento,é precisa muita lata, e nem é preciso que a lata seja feita da melhor folha de flandres. Basta usá-la com as pessoas certas. Mas há também o lado mau nesta tua resignação. O resignares-te a injustiças e à perda dos sonhos.

Mesmo que o teu Rocinante de Lata, esteja um pouco amolgado, já esteja oxidado com o tempo, talvez tenhas aí escondida dentro de ti, a vontade desmedida de atirares o chapéu de plástico borda fora ( o melhor é usares o ecoponto!)e partires atrás de outros sonhos. Dos sonhos que não precisem de lata para serem concretizados, mas da experiência que a vida te trouxe e que te deixou marcas no Rocinante.

(Bem sei que hoje é preciso ter muita lata e muita lábia, para superar as adversidades. ou como diria o Povo: Olho vivo e Pé ligeiro")


Podes não ter a lata de outros tempos. Mas lembra-te que houve quem nunca tenha tido lata suficiente para perceber que podia chegar mais longe, quer o rocinante fosse de lata ou de pau!

Beijinho e nada dessas nostalgias tristes que me pareceste acomedido aqui. estou habituada a ler-te com um sorriso, e uma gargalhada, algumas vezes. Leio-te alegria em muitas palavras. e hoje li, como te disse, algo que nunca te tinha lido com tanto ênfase, tão sublinhado, tão evidente: resignação.

Deve estar na altura de trocares o teu Rocinante, e os moinhos de vento já não têm velas para que lutes contra eles.

(mas quem sou eu para dar sermão e missa cantada, quando ainda tenho tanto da vida para aprender; e montar em rocinantes não é, de todo, o meu forte!)

beijinho, mais uma vez!

Gemini disse...

Não transcreverei toda a lata que dizes faltar-te. Não preciso de o fazer para lhe dar destaque. Reli essa parte qb...

Assim de repente, parece que já não "acreditas que este mundo tem solução"!

Tens um "testemunho" para passar! E este mundo depende também um pouco da forma como fazes essa passagem... São precisos mais, CybeRider, muitos mais como tu neste mundo!

Um abraço.

CybeRider disse...

Olá Mário,
A singularidade do guerreiro determina o exotismo da campanha. Se não nos munirmos da armadura correcta só podemos lutar contra moinhos de vento. Não importará o esforço que se empenhe, ao longe só será visível a besta que se debate contra coisa nenhuma, no entanto para o guerreio essa é a luta da sua vida.

Um abraço

CybeRider disse...

Olá Pepita,
E eu que pensei que todos se iriam fartar de rir da minha armadura! Valerá a pena continuar a lutar contra os moinhos de vento, quando os adversários a temer estão envolvidos noutras batalhas? Como poderá um cavaleiro de fraca figura atrair um exército que se perdeu em batalhas que não me parecem dignas de batalhar? Não serei eu o derrotado à partida por não me saber incluir em guerras que já não sei travar?

Não é a força que me falta, talvez o espírito. A lata que não uso e que oculto deliberadamente é principalmente pela inutilidade de defender determinados padrões que se generalizam e aos quais me torno cada vez mais insensível.

A cada dia vejo desaparecer valores que me foram incutidos como fundamentais, passam a meros moinhos de vento, vazios de sentido. De que adianta teimar em defender princípios que se extinguiram? A quem abonará o meu esforço?

É preferível olhar para o espelho e ver a ridicularia de que estou investido para combater o que todos vêem como inutilidades. Aceitar a realidade e perder-me finalmente no rebanho sem lhe conhecer pastor.

Mas amanhã será outro dia, quem sabe a loucura volte em força. Tens razão, os moinhos já não têm velas..

Talvez me encontres a tentar deitar abaixo algum edifício de pedra com um canivete de plástico, essas são as lutas em que me envolvo.

Beijinho!

CybeRider disse...

Olá Gemini,
A frase que transcreves e que consta como referência no "decors" não é minha, talvez por isso precise dela para me recordar que ainda haverá quem acredite. Há muito que passei de crente a agnóstico nessa fé.

Vem-me à ideia uma frase atribuída a W. Churchill, mas que parece pertencer a um poeta castelhano, António Machado, que escreveu num poema em 1910: "O caminho faz-se caminhando" ("se hace camino al andar" - no original), talvez essa seja a forma de passar o testemunho, a correr talvez já não se chegue lá, mas é preciso ter vontade de caminhar, que o percurso aumenta de dia para dia.

Um abraço.

Mário Rodrigues disse...

E então, as nossas lutas serão sempre as lutas do bom guerreiro...

Um abraço amigo

Caçador disse...

Úi, tantas leituras, Estás mesmo a pedir uma telefonadela. Amanhã vais ver...

Lembrei-me de um poema do José Gomes Ferreira, começa mais ou menos assim, se bem me lembro:

"Dulcineia Dulcineia
volte ao que era
uma plebeia

não vê que ainda conserva
um cheirinho a boi
um cheirinho a erva..."

abraço

Nirvana disse...

Olá Cybe!

Desculpa se discordar de uma ou outra coisa :).

Na faculdade tinha uma colega que era lindíssima. Bonita mesmo. Quando ela se queixava que aa calças ou a saia não lhe ficavam bem, ou que o cabelo estava mal, eu costumava dizer-lhe "tu até com um peniquinho na cabeça ficas bem". Por isso, como em tudo, o peniquinho na cabeça fará parecer louco quem for louco, mas não será ele a ostentar a palavra loucura se quem o enverga não a tem escrita nos olhos nem nas acções.

Qual é o cavaleiro, guerreiro, arqueiro, que se preze que chega ao fim da batalha com a armadura brilhante e sem uma amolgadela? Com certeza o que se escondeu em cima de uma árvore enquanto os outros lutavam. Porque nem atrás dos arbustos se escondeu. Aí, ficaria pelo menos com a armadura cheia de pó da luta dos companheiros.

A habilidade com que forjaste a armadura foi o que a tornou perfeita para ti e para as tuas lutas. Com tanta luta, é normal que fique fragilizada aqui ou ali. Temos de tratar dela, da armadura, já que ela é o nosso instrumento fundamental na luta, porque também nos protege, ao mesmo tempo que nos auxilia na luta. Surgem novos materiais, diferentes, mais resistentes, mais adequados, até porque as lutas também se tornam diferentes.

Um D. Quixote nunca será um Sancho Pança, Cybe (apesar de todos os D. Quixotes deverem ter um Sancho Pança). Não que o Sancho não seja importante, porque é, mas porque desde sempre foram diferentes. Sancho sempre viu os moinhos e nada mais.

Espero que a lata te continue a faltar para certas coisas, e que te sobre o aço com que a tua armadura foi re-composta. Às vezes, ignorar ou forjar um não-querer-saber exige tanta habilidade como polir a armadura. Porque nem todos os adversários merecem que tiremos a armadura do seu descanso para a envergar com todo o fervor. Mas haverá causas que o merecem. Nem que seja porque só nós acreditamos. Afinal, a nossa armadura não é nossa?

Tivesse D. Quixote acreditado que os moinhos eram isso, moinhos, e teria ido para casa com o Rocinante carregado de sacos de farinha. Hoje, não estarias aqui a falar de D. Quixote, pois não?

Beijinhos Cybe

Só leio os comentários depois de escrever o meu. Não corro assim o risco de ler o que ia escrever e já não o fazer. E posso comentar os comentários :)
"É preferível olhar para o espelho e ver a ridicularia de que estou investido para combater o que todos vêem como inutilidades. Aceitar a realidade e perder-me finalmente no rebanho sem lhe conhecer pastor." E qual é a realidade? Aquela em que acreditamos, ou a que não tem pastor? Conseguiremos seguir um rebanho assim sem estar sempre a olhar para os lados à procura de uma saída??
E este mundo tem solução, Cybe, se as pessoas quiserem.

Milu disse...

Ao ler este texto pareceu-me que ambos temos em comum um certo sentimento de altivez, não no sentido da arrogância mas antes uma expressão de orgulhosa independência. Prestar vassalagem ou apajear alguém não é comigo, contudo, reconheço sobejamente que esta minha atitude já me granjeou alguns dissabores. Tanta coisa que me teria sido bem mais fácil se eu fizesse como toda a gente! Mas no dia em que me render, deixarei de ter identidade, deixarei de ser eu...

CybeRider disse...

Olá Caçador!
(Não vi nada! Mas isso tem remédio.)

Procurei o poema que referes, sem referência aceito o destaque, que sei que a tua memória é prodígio.

Porque almejaria algum guerreiro pouco nobre uma dama aristocrata?...

Já o cheirinho a boi e a erva, recordam-me uns concertos dos anos 70 e 80... Dizia-se que eram aromas inspiradores, vá-se lá saber porquê!

Abraço

CybeRider disse...

Olá Nirvana!

Desculpa o atraso, isto... (para quê?)

Das melhores discórdias nascem os melhores consensos. :)

Foste bem simpática no teu juízo! De facto como poderei continuar a achar a minha figura tão desadequada depois de ler o apanágio de tantas qualidades inferidas?

É talvez o cansaço que faz o D. Quixote invejar o Sancho Pança... Por outro lado talvez sejam os idealistas que dão cabo disto, convencidos da sua pretensa sobranceria sem perceberem o ar ridículo com que defendem os seus disparates.

Bem verdade o que afirmas, de que haverão causas que não merecem a batalha. Ao fim de alguns anos começamos a pensar se algumas a valerão de facto. Tenho porém de reconhecer que sim, mas agora em menor número. Talvez a arte esteja em vencer simulando derrotas, e para isso haverá sempre tempo para aprender. É outra estratégia, talvez tão utópica como cavalgar a toda a brida contra as velas dos moinhos.

Se bem que a ideia de partir à cavalgada contra o moinho e voltar com a besta carregada de sacos de farinha parece ser tentadora, claro que isso implicaria algum acordo sinistro com o moleiro, e não se estaria livre de uns incómodos com os justiceiros - talvez não se conseguisse manter a face oculta... Triste seria o conto de Cervantes se fosse esse o desfecho. Triste seria a vida se os idealistas cedessem aos prazeres fáceis da corrupção...

O facto de eu não conhecer o pastor não significa que ele não exista, significa que me bastará seguir os outros, dissimulado entre a turba, sem cara nem nome. Tal como dizes, seria a perda de identidade, talvez a vontade de sair acabasse por falar mais alto, essa é a essência.

Vou continuar a querer, para bem de todos, que seja então como dizes.

Beijinhos Nirvana

CybeRider disse...

Olá Milu,
Seria bastante mais fácil levar a vida a dobrar a espinha com um sorriso amarelo subserviente. Há diferenças profundas entre seguir determinadas normas e preceitos sociais, anuir a formalismos que nos permitem a sobrevivência, e a mera subserviência de quem não tem habilidade ou carácter para fazer melhor. Quando se tem de entregar a alma ao diabo que seja ao menos por bom preço, mas de preferência que se mantenha acima de tudo a dignidade, há de facto valores que são inestimáveis, convém nunca o esquecermos.

No meu dia-a-dia traço limites definidos entre o profissional e o pessoal, isso permite-me afastar do lado profissional a parte emotiva. Há quem não entenda esta fronteira, isso não me permite muitas vezes alcançar determinadas conquistas, estas são as que considero sempre pequenas e dispensáveis. Serão eventualmente formas de vida, há que adaptá-las aos nossos interesses, sempre complexos.

belard disse...

VI

Dulcineia, Dulcineia,
volte ao que era:
uma plebeia
sem primavera

Volte aos redis,
coberta de chagas
— sem espuma em gomis
nem brilho de adagas.

Volte ao que foi,
pois ainda conserva
um cheirinho a boi,
um cheirinho a erva...

Volte a apanhar pinhas
e bosta para os fornos.
E a tanger cabrinhas
com flores nos cornos.

Volte a andar de gatas
como os outros bichos...
E esqueça as serenatas
aos seus caprichos.

Esqueça o castelo
onde os donzéis
se batiam em duelo
à século XVI...

E volte à aldeia
da sua labuta.

Dulcineia, Dulcineia,
deixe de ser Ideia
e torne-se a carne e a alma
da nova luta.

(de A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim - 1º volume, Moraes editores, 1977 - Círculo de Poesia)

CybeRider disse...

Olá Belard!

Bem vindo a este espaço! Obrigado pela achega. É de facto lindo!

Nilredloh disse...

Caro CyberRider,

que maravilha de texto!

Um grande abraço,

Jorge

CybeRider disse...

Olá Jorge!

Fico feliz pelo teu sorriso.

Grande abraço, meu amigo!