sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Há datas que não se repetem

Faz hoje uma data de anos. Foi a primeira chapada que apanhei. Foi a primeira vez que me separei de alguma coisa. Foi a primeira vez que houve uma primeira vez. E foi-o de facto para uma data de gente, expressão curiosa esta, porque de uma data se trata de facto.

Não fosse a data que hoje recordo e o mundo nunca teria tido esta data para mim; nem as outras. Não recordo o brilho da ria, nem se havia barcas e trombetas, nem se os anjos estavam tristes por uma alma cair do céu. Não recordo se o tipo que me bateu tinha óculos, não recordo gritos de dor, nem manchas na brancura do linho, nem lágrimas de alegria. Calculo que me deram banho, calculo que alguém terá ficado feliz, eu não.

Mas que importava a minha felicidade?... Ouvi dizer que foi importante para alguns, pelo menos naquela altura. Sei que sim, porque já fui feliz num dia como esse, a bom rigor em contraponto à felicidade do visado.

Não sei se ela lhe tinha arrancado os botões da farda, nem se ele lhe tinha corrompido a lingerie. Sei que pelo menos num dia ele não me condenou à latrina, e ela não disse que lhe doía a cabeça. Deviam ser belos, os jovens são sempre belos, e gostaria de pensar que estavam apaixonados. Talvez ela tivesse chorado, e aquela fosse a forma que encontraram para vencer a tormenta e dar corda a um futuro; talvez se tenham envolvido e revolvido em seguida e pensado que o futuro era afinal uma piada de mau gosto. Nunca o saberei. Mas sei que aquele gesto, que o tempo felizmente não me mostrou, teve consequências que eles não poderiam prever naquela altura. 

Também gostaria que tivesse sido um anjo a perder-me por anos a fio, mas pode ter sido um demónio. Não tenho pressa em descobrir, mas calculo que um dia voltarei para preencher esse vazio. Até lá não tenciono preocupar-me com a tristeza que um ou outro possam estar a sentir, apenas me palpita que voltarei; um ou outro, talvez fique feliz por me tornar a ver. Não tenho vontade de contar por onde andei, hoje ainda não.

Lamento se fui objecto de uma troca celeste e se algum apanhou com os torrões mais cedo por minha causa. Depois do mal feito já não há remédio. Hoje alguns, algures, estarão a berrar como eu berrei e algumas senhoras que terão arrancado os botões da farda aos maridos há nove meses, ou a quem estes tenham rasgado as calcinhas num gesto de carinho, estarão a sofrer uma alegria igual à que aqueles dois sentiram, resta-me desejar a esses novatos que tenham menos desgostos, que serão outros, que sejam menos.

Pela primeira vez aquele gesto longínquo aparece referido, preto no branco, culpem-nos a eles, não a mim. São esses desconhecidos os únicos responsáveis por esta leitura. Esse será para mim o único facto digno de nota.

Que eu já o sabia, a novidade, essa é toda vossa.


© CybeRider - 2009

16 comentários:

pepita chocolate disse...

Sempre pensei que não fosses lançar nada hoje. Tinha essa "esperança", tu que não és nada de grandes exacerbações da tua pessoa e de uma modéstia que até te fica mal.

Pois é, vais obrigar-me a comentar dois posts. O que dá fazendo as contas: 2+2=4.

Pronto, tu hoje mereces!

Sim,os Parabéns já estavam preparados há algum tempo.Porque, o sei há algum tempo, assim por acaso! Ou por uma curiosidade encontrada ali ao lado! ;))))
Por agora fico por aqui, que hoje o dia já teve muitas emoções e ainda mal começou. Mas volto! Sabes que sim!

está prometida uma vinda mais demorada, ainda para hoje! Que te quero "ver" soprar as velas!

Até já!

Beijinho!

(não resisti a dizer algo!Falou mais alto a impetuosidade herdada!)

Gemini disse...

Hoje é dia de FestaS!

Aquela que celebra o nascimento do criador do Grande CybeRider, que nunca lhe poderá ser inferior, e das outras, as de carinho, no corpo, que não faltarão seres que as dediquem, em cujas vidas tocas(te), estou completamente seguro, de forma singular!

Aos meus dias, só eu saberei avaliar o que trouxeste! Mereces de mim bem mais do que estas pobres palavras, que são a fortuna que te posso aqui deixar. (Mas disso tratarei mais tarde...)

Agora afasto-me, depois de um brinde a sós contigo, para que outros te possam dirigir a homenagem devida.

TCHIM-TCHIM

"O" ABRAÇO!

Nirvana disse...

OHHH!! E eu cheguei atrasada!! Mas, apesar de assim ser, não são menos sentidos os Parabéns.
Não fosse a data que hoje (ontem) recordas, e eu não teria o imenso prazer de te ler e aprender umas coisinhas por aqui. Sim, porque tu, meu caro Cybe, quer queiras quer não, tornaste-te uma das minhas referências blogosféricas, se assim lhe posso chamar. Quer queiras quer não, apesar de muitas vezes nos quereres passar uma imagem "menos boa" de ti, não tens muito sucesso, digo-te já ;).
Agora, anjinhos ou demónios, acho que nem uns nem outros, porque de certezinha que os deixaste a pensar afinal o que eras :). Se calhar ainda estão a pensar!

Apesar de eu ter alguns problemas no metabolismo do álcool, ou seja, consugo transformar pequenas quantidades ingeridas em grandes quantidades circulantes, hoje, ergo o meu copo, para um brinde a ti, com amizade, se me permites.

Muitos e muitos beijinhos, Cybe!

escarlate.due disse...

:) ainda há bolo? é de chocolate?? :)

eu sei que o tal dia não se repete. e também acredito que muita coisa aconteceu desde então. mas... vá confessa que valeu a pena até agora :) (vale sempre)

tchim tchim Cyber, à tua! (e eu prometo tentar voltar ca daqui a um ano se prometeres que haverá bolo de chocolate e... 1 texto destes para eu ler)

pepita chocolate disse...

[E pronto, passados dois dias volto cá! Para comentar! Porque neste meio tempo, vim e não disse nada, e qual é o meu argumento? Pois, o tempo esse mesmo!
Mas decidi que, de hoje não passava!]

Quando li a descrição que fazes da tua própria concepção, remeteu-me para uma parte do livro do José Saramago- o único que li, e será o último, talvez- o Evangelho segundo Jesus Cristo, onde o autor faz uma descrição semelhante a esta que aqui contas. E lembro-me de ter pensado, de como o acto de amor - supostamente- pode ser reduzido a umas quantas palavras que se misturam vontades, desejos e a combinação, a um encaixe perfeito entre um homem e uma mulher.

Engraçado como nós pensamos, tão romanticamente, que fomos concebidos numa noite de prazer (que até pode não ter sido, mas queremos pensar que sim), com muito amor e carinho (o que nem sempre será verdade, basta que o desejo fale mais alto e se esqueça a precaução, aliado aquele momento em que duas células se podem encontrar e puff! um novo mundo vai começar para alguém).

Tu pões tudo tão nu e cru, como se tu próprio duvidasses da tua própria concepção.o seu significado. Do seu ojectivo.

Não queiras minimizar um nascimento que tinha de acontecer, e que não terá sido só porque estavam dois, no sítio a jeito, na hora certa, para que encontros mais interiores fossem possíveis.

E quando "recordamos" o nascimento, fazemo-lo com as palavras dos outros, do que os outros sentiram, ou achamos que sentiram, do ambiente em torno do nascimento, o que mudou e o que ficou para sempre eternizado.
Tu foste ao nascimento, nos seus primeiros minutos, algo que nunca ninguém pensa, mas que sabe quem assistiu a um nascimento;é assim que habitualmente acontece. quando tudo corre bem!

e não haverá choro mais fantástico do que o primeiro choro da vida!Todos os outros serão certamente dispensáveis, principalmente quando soltos a plenos pulmões.

Das palmadas que levaste da vida, talvez as que mais importantes fossem aquelas dos primeiros segundos de vida neste mundo, sem cordão umbilical. Certamente, resmungarás algumas vezes, pelas palmadas que não te deviam ter sido dadas nesses instantes.
Mas a vida foi-nos dada, e por isso nada melhor que vivê-la, mesmo que a nossa concepção tenha sido apenas um acto de puro desejo, de encontro fortuito, ou porque simplesmente aconteceu.

não faças do teu nascimento algo tão simplista, ou tão cru. Como pai, sabes que um nascimento de um filho será bem mais grandioso que isto. Eu não sei como será, escrevo pelo que tenho lido... talvez um dia, escreva porque passei a saber na primeira pessoa... e um dia, prometo confrontar-te com esta tua ideia de nascimento.

E agora, com dois dias de atraso, vou acender-te as velas aqui no bolo. Desculpa se só trago Um Queque de chocolate, mas duas velas ainda se conseguem cá colocar. E fica descansado; sei que cada uma delas tem um algarismo, mas infelizmente não sei ler tinta invisível. Tu sim, consegues ler que algarismos lá inscritos.

E depois das cantorias dos parabéns, que te vou poupar por a minha voz ser uma lástima, ergo o copo e brindo a ti! brindo a esta renovação do nascimento, em cada ano que passa. Brindo à possibilidade, de cá vir em cada momento, ler quem nasceu e me dá o prazer de ler cada texto, como se o Ovo de Colombo fosse algo ao alcance de todos, mas somente alguém como tu o consegue.

Sopra as velas com algarismos invisíveis e pede um desejo. eu, para ti, desejo que venha mais um ano, em que o pedido de felicidade contempla todos os presentes que te desejo oferecer!

Beijinho!
E renovo votos de Parabéns!

CybeRider disse...

Olá Pepita,

Antes de mais agradeço-te os votos. Sem mérito meu, é certo. Mas para a maioria estas são as efemérides que nos dão alguns momentos do único protagonismo possível. Até por isso seria natural que o teu pensamento inicial estivesse correcto, nada poderia fazer prever que este texto viesse a ter razão de ser.

Depois comecei a pensar que efectivamente era público o facto que nos traz aqui, como referes, e assim seria hipócrita da minha parte não fazer uma referência a esse aspecto. Leva-me a pensar que de facto os dados que publicamos a nosso respeito acarretam responsabilidade, até por isso fujo com veemência das "redes sociais".

Até já! :)

Beijinho!

CybeRider disse...

Olá Gemini,

Existirão estes dias a propósito de beneficiarmos dos gestos dos que nos querem bem mas que nos privam deles nos outros? Talvez. Se essa for a razão será provável que o que me tenha trazido aqui fosse uma falta (já crónica) de mimos. Como estou convencido que recebemos o troco do que oferecemos, fico feliz por saber que mimei alguns dos teus dias, daí que tenha de aceitar justiça que não reconheceria sem a pronunciares, porque me seria mais fácil não a ver para justificar as faltas que possa sentir mas das quais sou o único responsável.

O teu brinde foi um raro prazer!

TCHIM-TCHIM! E "O" Abraço!

CybeRider disse...

Olá Nirvana!

Tu nunca estás atrasada. Obrigado pelos parabéns, que aceito sem mérito. Sim, sobrevivi mais um ano, mas isso não é valor, é dever. Tudo o mais, são prendas que me deixas, ao tentares convencer-me que estes devaneios loucos poderiam incutir algo em alguém. Não tinha pensado muito nessa "imagem" que referes, mas tenho de constatar que devo estar a denegrir-me inconscientemente, porque já a Pepita me fala de uma modéstia que... Enfim, a questão é que quando falo de mim, tomo-me muitas vezes como exemplo de uma pretensa maioria que não se observa na sua diminuta importância face à grandeza em que está impreterívelmente inserida, não convivo bem com a saliência, tendo a pensar que se fiz algo que consideram bom foi talvez porque alguém não soube avaliar correctamente a obra que estava nas mãos de alguém ao meu lado, porque se virmos bem haverá sempre melhor, e nessa medida resisto bastante à avaliação qualitativa, que é sempre subjectiva, mas prefiro a avaliação pelo resultado. Assim, se o que fiz tem um reconhecimento generalizado e difundido, terei aí de lhe avaliar o mérito, se a obra tem pouco reconhecimento, então será um exotismo que satisfará alguns, e neste caso ainda bem, mas não estará talvez à altura de uma avaliação qualitativa. Diferente é a crença que colocamos no que fazemos, e aí não sou modesto, faço-o com prazer e honestidade; se estarei disposto a activar a minha pequena máquina de marketing para lhe dar visibilidade? Eventualmente não. O facto de não me promover, porque além do prazer que tiro do que escrevo, pretendo divertir-me com o que os outros fazem, poderá ser encarado como modéstia ou "imagem menos boa", é na realidade uma forma de manter os pés no chão. Compreenderás. Mas também pode ser simplesmente a forma clara como acho que o meu mundo é negro. Pensarei nisso.

Agradeço-te o brinde e a boa amizade!

Beijinhos Nirvana!

CybeRider disse...

Olá Escarlate,

Claro que há sempre bolo, tem de haver chocolate também, não concebo o céu sem ele; mas para isso não é preciso haver data certa. Basta haver amigos para fazer a festa!

Tem valido a pena, sabes que sim, ou não haveria espaço para estar aqui, são também vocês quem faz por que valha a pena.

Tchim tchim, Escarlate, à nossa! Se ainda me lembrar da data para o ano, haverá texto, e o bolo de chocolate estará sempre pronto a repartir com todos os amigos que se disponham a aparecer.

:)

CybeRider disse...

Olá Pepita,

Mantiveste a palavra! Mas não precisavas. Sei ler nas entrelinhas. :)

Esse José Saramago deve ser um sábio. Um dia hei-de ler esse livro, já andei às voltas com outros dele, mas esse ainda não calhou - será por falta de tempo?... Tens razão, é sempre um bom argumento!

Facto é que mal ou bem cá acabamos por vir parar. E talvez seja por pretendermos que nascemos de um acto positivo que optemos por um ou outro lado da vida, algumas vez em contraponto é certo.

Talvez haja quem tenha uma ideia mais concreta que a minha a propósito da sua concepção, mas eu possuo elementos que faltarão aqui para avaliar se tenho dúvidas quanto às causas que estiveram subjacentes à minha. De qualquer maneira nunca se pode saber ao certo, ainda que nos contem, só os dois intervenientes saberão. E a esta distância talvez já nem eles se lembrem. Eu também não lhes pergunto. Tal como dizes, tentarei encarar o facto como algo de positivo que me foi dado, que há-de interromper a monotonia do que seria se não tivesse existido. Não há como não aproveitar.

Creio que para eles terá sido tão grandioso como foi para mim quando chegou a minha vez de me encontrar nessa situação, mas isso será a realidade ou mero desejo meu de que assim tivesse sido?... Tomar partido pode ser um gesto de ingratidão e principalmente de desrespeito, mas pode também ser um elogio imerecido. Até que ponto o desejo de ter um filho sobressaia do estereotipo do conceito de família da época? E se o meu caso até pode ser um desses casos afortunados em que pouco ou nada haja a apontar, muitos haverá que não encaixam nessa definição que deveria ser a normal. Daí que a descrição seja nua e crua, porque nada me dá o direito de me vangloriar de vantagens que são apenas casuais, mas principalmente desconhecidas.

Que bom seria se todos os aniversários se pudessem festejar com um queque de chocolate. Diria que é como um vestido preto, com um ou outro não há que temer, o ajuste à situação será sempre perfeito. Eu acredito em intenções, como tal o teu queque faz furor.

Agradeço-te o brinde que retribuo, e as palavras de incentivo bonitas e gentis que brilham com toda a arte e engenho que te são tão próprios, como todos podemos avaliar nos locais adequados em que nos brindas com a tua mestria.

Beijinho!

Caçador disse...

Na dizes nada e depois admiras-te de ficares sem prenda. Tá bem, já sei que sou uma bela prenda... mesmo assim e atrasados, parabéns.

sem-se-ver disse...

olha... fizeste anos e eu nao dei por nada!

inda vou a tempo? :))

beijinho de parabéns!

CybeRider disse...

Obrigado SSV,

Tu vens sempre a tempo! Deixa-te de coisas, isso não foi nenhuma efeméride nacional.

;)

CybeRider disse...

Ah! Caçador, há coisas a respeito de muita gente que desconheço. No mínimo terei de pagar-te na mesma moeda... (Obrigado, pá!)

:)

Milu disse...

Este texto é muito bonito.

Enquanto o lia ocorreu-me à ideia que normalmente não nos detemos a imaginar como terá sido o momento da nossa concepção. Aqui no seu texto esse momento surge envolto de alguma beleza, mas... Se pensarmos bem... Tempos houve em que era mais pelo dever do que por outras urgências! Por falar nisso gostava de poder observar à minha inteira vontade um daqueles lençóis com um buraco que permitisse a procriação e nada mais. Perversões, quais quê? Só se fosse para depois de morrer ir malhar com os costados nas profundezas das fogueiras do inferno. Mas que doce inferno!...

CybeRider disse...

Olá Milu,
Agradeço a nota positiva. A beleza do momento será por analogias, talvez por ambição. Não creio que alguém goste de descobrir que a razão de ser teve origem num simples mal-entendido, ou num gesto fortuito indesejado, que acontece. Esse aspecto do "dever" talvez ainda exista, para além do dever de sermos felizes, há deveres ocultos na formação que nos incutem, ficam-nos subconscientes. Recordo que na minha vez fiquei apavorado com a notícia do que tinha gerado, por me julgar incompetente, e não foi por dever que, meses depois, humedeci os olhos ao ver o meu "acto mágico" pela primeira vez, mas desta por uma alegria incomensurável. Nunca me souberam incutir alguns deveres, por isso gostaria que tivesse sido assim também comigo. Gostaria de ter sido fruto secundário de algo mais grandioso, mas não sei. Não creio que tivessem um lençol mágico, porque ambos se voltaram para a vida muito cedo. Agora, já não lhes pergunto. É tarde, e eles preferiram, pelo que sei, esquecer a razão principal, mas agradeço-lhes a forma como lidaram, apesar de tudo, com a consequência.