sábado, 21 de novembro de 2009

Selvagem por um dia

Sinto o animal que me agasalha, tolhe-me a memória, invoca os instintos e esqueço tudo o que aprendi para passar a perscrutar a selva à minha volta. O rio porém meteu toda a água na mala e partiu para parte incerta, levou com ele a chuva que nunca mais voltou.

Na estepe árida procuro o abrigo onde passe a noite, sempre longa, tão longa que hei-de escrever sobre isso, se a memória não me falhar. É o sangue que me domina, o faro apurado que me instiga a prosseguir entre a vegetação moribunda, os pequenos troncos secos que afasto já sem sentir os pequenos golpes que retalham a pele. O vento em fuga constante ressalta nas folhas secas e leva algumas com ele, com um ruído em surdina. Não me lembro do vento, nem das folhas. Já esqueço o rio, que talvez nunca tenha visto. Só o presente é intenso. Esqueci os nomes dos outros... Há uma cara ou outra que ainda recordo, por pouco tempo. Tão pouco que quero guardá-las para sempre, e troco as datas sem saber quando celebrarei outro aniversário.

As maneiras que tive já não as pratico, deixei a etiqueta e os modos. Agora é tudo em bruto, sem medo e sem trégua. Não me confrontem no meu meio, serei vencedor. Aqui terá de ser segundo as minhas regras! Paz, nunca mais, aqui não. Talvez algures, se esse sítio existir. Já não me lembro. Perdi a História e todas as histórias que me contaram.

Ainda saberei amar pai e mãe?

Sinto porém o apelo do clã, desses recordo e acalento o cheiro e a vontade de proteger e partilhar. Só desses. A memória que não me lembro de ter tido, essa pressinto que partiu; os nomes; as caras; as datas; os locais... Nem me lembro se tenho ouvidos, se algum dia ouvi algo do que me dissessem.

Que outra fogueira arde para além da que queima no peito?

Há-de haver quem não sinta o cheiro a doce da toca. Há-de haver quem não sinta o sabor a sangue das feridas, que estraçalham a alma.

Que havia sonhos, futuro, esperança. Se ao menos me lembrasse onde os enterrei. Sem rio não tenho norte, resta-me deitar-me no leito e revolver os torrões. Não me lembro da última vez que sonhei. O instinto há-de guiar-me ao covil.

Que bem me sabe esta maçã.

Não há retorno porque perdi as memórias. Selvagem por um dia, selvagem para sempre.



© CybeRider - 2009

12 comentários:

Nirvana disse...

Já diz a música "quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém..." Não será bem selvagem no sentido literal da palavra, mas talvez livre. Livre para escolher os rios e os abrigos. E talvez correr atrás e procurar o rio que fugiu, se era esse o "nosso" rio.
O rio não vive sozinho. Dependesse ele apenas da água que cai do céu e secaria muitas vezes. São os afluentes que o alimentam. Há afluentes que o próprio rio quer fechar, mandá-los para longe!
Já fui mais rígida nas minhas regras. Verifiquei que talvez fossem demasiado rigorosas, mesmo para mim. Embora não abdique de algumas, já não tem de ser tudo segundo as minhas. Muitas vezes preferiria tudo "em bruto", em vez de polido com as regras da etiqueta e dos modos, que lhe tiram a espontaneidade e veracidade.
Houve esperanças que perdi, sonhos que se afogaram. Mas lembro-me onde os guardei. Teimosa, não os enterrei, guardei-os apenas, para não pensar muito neles.

Beijinhos

Mário Rodrigues disse...

Da memória, só nos deveriam servir as lições. Do animal, não o devíamos castrar tantas vezes... Do rio, queremos a água para saciar a sede... Nas noites das estepes, só o instinto a audácia e a "crueldade" nos serve a existência. Livremo-nos de "berloques", apelidados de importantes porque importantes são uns bons e exuberantes caninos bem à vista.
Onde enterraste os sonhos e futuro e a esperança? Para que serve isso?

Quando o instinto te acordar com os aromas dos cios que te rodeiam, terás de lutar pela tua marca! Usa apenas o animal...

Gemini disse...

Olá CybeRider.

(Será isso um recomeço?! Ou um fim que pôde ser escolhido?... Não sei!)

Sei que também eu pareço ter guardado as memórias, na ponta do nariz. E A cada vez que inspiro, o olfacto quer conduzir-me para longe da vegetação... A pele já não sente os golpes dos pequenos troncos secos e não vá (mais) um trespassar-me o coração...

Depois olho em volta e vejo que comeram tudo! Maldita maçã...

Se ao menos houvesse uma "Ave" que me fosse o contrário da "Eva"...

Um abraço, Cybe, caso ainda te lembres do que é!

;)))

pepita chocolate disse...

Não resisto a dizer que estou a deixar o meu verdadeiro comentário para um dia especial. Um escolhido a dedo! E mais não digo!
(só espero que não lances nenhum texto antes... se não obrigas-me a fazer dois comentários. E eu não tenho estado para grandes leituras e melhores escritas :)))) )

Beijinho e até já!

Caçador disse...

Leio-te...

CybeRider disse...

Olá Nirvana!
A liberdade está no pensamento, o resto é paisagem. Se o rio da inspiração nos ajuda, então a paisagem pode ficar mais bela. Contra a falta de água resta a solidão e o desalento da aridez que nos ensombra. Recordas bem, os afluentes; terei de procurá-los, então terei rio e terei Norte.

Na selva as nossas regras serão as da sobrevivência. Se não tivermos rigor é provável que não consigamos resistir muito tempo.

Continuarei à procura do local onde os enterrei, esses sonhos e essa esperança, desenterrá-los será possível. Tudo é possível quando a liberdade ainda apela.

Beijinhos

CybeRider disse...

Olá Mário!
Dás-me bons conselhos. Pudesse eu viver sozinho! Mas a solidão também mata. Atulhamos a memória de coisas sem interesse, a não ser para sobrevivermos, com elas temos mais fácil acesso à sopa e ao fútil. O animal é útil e procriar é fácil, é o alimento que nos move. Sonhos e esperança servirão o conforto, porque tudo o mais é tão certo como a própria vida.

CybeRider disse...

Olá Gemini!
Antes de mais parabéns pelo blogue cultural. (Só vi hoje...)

Preferia que fosse um recomeço, mas talvez seja apenas uma memória de um dia. Um respirar antes de voltar a mergulhar a cabeça para outras braçadas. O fim é sempre inesperado, os que escolhemos são meros arquétipos que não se cumprem. Fim que se digne tem de ser inesperado, daqueles que nos afundam numa síncope súbita da qual não recuperamos, só lamento os que nos rodeiam a dizer "coitadinho"... Se o houver, ao menos que seja digno.

Mas haveria maneira de resistir à maçã? Foi feita para ser comida. Ah pois... a Eva, também. Não a amaldiçoes, não há como escapar ao incontornável. Se não comesses a maçã outro o faria... Agora me lembro foste tu quem falou sobre fruta que se come ou não, certo?

Um abraço... Um abraço...

Ah, sim! Claro!

Um abraço Gemini!

;))))

CybeRider disse...

Olá Pepita,
Este conta! Não te preocupes. Sou apenas um mau "entertainer", não tenho muitos aplausos, e a minha plateia boceja ainda mais que eu.

Assim, como suster um texto? Gostaria, mas tenho um dever para com a parca audiência, um dos quais sou eu, e isto já está de maneira que preciso que um, pelo menos, aplauda; ainda que seja eu... E saiba-se lá porquê, de facto...

Além de te dar razão, partilho o teu sentimento, com a agravante de não ter ânimo para te igualar a gentileza.

Até já Pepita, beijinho!

;)))

CybeRider disse...

Olá Caçador!
E não dormes?...

Espantas-me!

pepita chocolate disse...

Disse que cá voltava... o problema foi querer vir mais cedo, mas o tempo não deixou...sim, esse que culpamos de tudo, quando afinal somos nós os culpados.O tempo tem costas largas e suporta tanta coisa, que não se importa que o usemos como argumento!

Quando a esta selva que vai por aqui, quer-me parecer que isso vai por aí com muita coisa em extinção. E começam a aparecer catos por aí, com espinhos pontiagudos. São os que mais conseguem resistir às intempéries. riam reservas de água e defendem-se dos predadores.
Selvagem por um di, selgagem sempre? às vezes, precisamos ser selvagens , mas não quer dizer que o sejamos sempre. Às vezes, precisamos de ser um pouco como os catos, espinhosos para quem nos quer "atacar" mas não deixam de ter a sua belexa. E hé sempre quem saiba lidar com eles.
O conceito de selvagem que aqui deste também me remeteu para aquilo que a sociedade nos transforma. Seres mais ariscos, mais fugidios a relações perpétuas, porque neste mundo, só se safa, não quem mantém o seu estado puro (não selvagem) mas sim quem tem garras afiadas nesta selva em que se tornou a sociedade!

Beijoca!

(e 1/2 promessa está cumprida!tardiamente, mas está! ;)))) )

CybeRider disse...

Olá Pepita,

"O tempo é o que dele fazemos", e acho que tu em particular fazes muito bem, porque consegues fazer tanto com o pouco que tens!

A questão é que quando tomamos o pulso ao nosso lado mais selvagem, menos sociável, será difícil de abandonar porque lhe tomamos o gosto, pela simplicidade e pela forma clara e irredutível como o mundo se nos revela. É sempre uma luta desigual, o poder exterior é grande, mas pelo menos nessa dimensão é justo e honesto. São as nossas máculas de civilização que tudo complicam.

Beijoca!