terça-feira, 12 de maio de 2009

Espelho meu

Aperto-a entre os dedos. Dói! Só a mim.

Do lado de lá a imitação quase perfeita do meu gesto. Não fosse estar tudo invertido...

A dor, que é só minha, faz-me pensar quantos dias irão passar até que ele, o do lado de lá, deixe de ter a mancha vermelha. Deste lado só sinto a dor. Deste lado não vejo a mancha, que só conheço porque ele me diz que sim, está lá, de onde lhe tirei a borbulha. Mas é a mancha dele que me preocupa. É a dele que vão ver, não a minha.

Sei por onde ando quando não o vejo, mas dele não sei. Apenas que está sempre prestável para me servir, apesar de me olhar como igual. Idiota, esse mero escravo insolente!

Não é meu irmão, no entanto nascemos juntos, eu de uma mãe, ele de um fenómeno da natureza, e fazemos tudo em simultâneo, suponho...

Além da irreverência do olhar, que não reconheço a mais ninguém, o pior são-lhe os caprichos. Quando aparece com outra ruga, lá me verte os sinais do tempo. Zás! Fica-me logo a indelével tatuagem, como um destino.

Mas sempre ao contrário. Se levanto o braço esquerdo, ele levanta o direito, e todos os vice-versas. As concretizações são porém as mesmas. Quando me barbeio, também ele muda de aspecto, e os dentes ficam-lhe lavados como os meus. O cheiro do after-shave, esse é só meu. Que o dele é inodoro independentemente da marca. Já tentei perfumá-lo, e ele a mim, por isso sei. Nesse dia fiquei a perder...

Recordo-me da primeira vez que me vi projectado num painel, e lembro-me de como me pareci estranho. Nunca me tinha visto a cirandar pela rua. Uma fotografia não é a mesma coisa... Falta-lhe aquela força anímica que nos altera a forma em cada hiato.

Concluí que afinal era o inverso do que me imaginara. Porque aquela outra imagem, que pensava corresponder-me, afinal não era a minha. Como pude andar enganado, por ele, tanto tempo?...

E no entanto há coisas que são transmitidas com rigor e clareza, a tristeza de um olhar, aquele brilho de outro num dia de festa. Mas posso estar a interpretar mal, e aquela rara forma de olhar que me parece, ocasionalmente, de estima pode estar a ser devolvida cheia de rancor e ódio, sei lá o que lhe estará a passar pela cabeça, afinal não é tudo ao inverso?...

E até que ponto essa inversão de sentidos de um olhar cara a cara não me irá afectar para todo o resto do dia? Aquele olhar de esperança, que lanço, não me estará a ser devolvido carregado de derrota e desprezo?...

Por isso sinto algum alívio por saber que aquela criatura vil, a quem não leio os pensamentos nem consigo arrancar confissões, que me enche de mazelas, partirá comigo se um dia eu tiver de partir.

É a sério! Prometo que o levo!


Mas não sem lhe perguntar:

Espelho, espelho meu, há alguém aí que goste mais de mim do que eu?

© CybeRider - 2009

12 comentários:

pepita chocolate disse...

Os espelhos devolvem-nos os gestos, as expressões que vamos mantendo defronte deles. Mas espelhos devolvem-nos coisas que vão para além da imagem reflectida; devolvem-nos aquilo que os olhos querem ver, aquilo que o nosso interior tem dentro. Se estamos mal, iremos olhar-nos ao espelho como a pessoa mais horrenda à face da Terra. O mesmo acontecendo aos narcisistas quando se projectam num espelho - que idolatram a sua imagem.
Um espelho só reflecte, uma imagem espelhada pela alma , que usa os olhos como acessório de exteriorização. A imagem reflectida pelo espelho poderá ser magnífica mas os olhos da alma podem fazer reflectir naquele espelho coisas muito boas e coisas muito boas, e é isso que vai condicionar a imagem que temos de nós.
Porque diferentes olhos, terão diferentes imagens.Costuma-se dizer: Gostos não se discutem- imagens diferentes concebidos por diferentes espelhos d'alma.

E atrevo-me a rematar com um ditado velho que não deixa de ser pertinente, a propósito de espelhos: "Quem ama o feio, bonito lhe parece"
As imagens que o espelho nos devolve não são mais que o nosso auto-conceito.

Um beijinho especial ;)e o meu obrigado!

CybeRider disse...

Olá Pepita! Comentário lindo! :)

É que de facto tenho uma tendência para cada vez mais repugnar esse reflexo. Daí que o meu texto termine com uma pergunta de esperança, apesar de saber onde encontrar a resposta...

E acho de facto que o ditado se pode aplicar também aos espelhos, sim.

Mas será que o espelho não inverte a energia positiva ou negativa que emana do nosso olhar?

Retribuo-te o beijinho especial, mas não compreendo o que estás a agradecer.

Como podes constatar, dá para compreender a falta que fazes, sobretudo para mim, porque não posso esquecer que foste tu quem teve numa maioria de vezes a coragem de colocar o primeiro comentário nas coisas que tenho escrito. Hoje de novo. Infelizmente acho que a maioria das pessoas que visita os blogues procura uma extensão da Tv e das revistas. Realidade, realidade, realidade. Eu nunca prometi isso a ninguém. O meu blogue diz: "Introspecções e verosimilhanças" e espero não me afastar muito disso. Quando perder a piada para mim, acabou-se.

Mas olha, foi muito bom encontrar-te aqui hoje! :)

Caçador disse...

Já aqui vim antes, regresso agora e não adianta. Não consigo fazer um comentário assim bué interessante, cheio de pensamentos profundos e poesia em cada sílaba... é os espelhos são tramados... e ainda não me recompus de ter perdido a cabeça e tudo isso é demasiado para um rude caçador.

Fica bem meu amigo.

CybeRider disse...

Sei que estou em dívida contigo Caçador, eu sei... Já te devia ter ajudado a encontrá-la.

Mas o facto de saber que passaste aqui, apesar da tua dor, é um bom exemplo da tua grandeza.

Um abraço.

Nirvana disse...

CybeRider, espero sinceramente que não mudes nunca o estilo do teu blog. Seria uma pena. Confesso que já tinha lido antes, num daqueles bocadinhos de tempo livre que consegui arranjar. Mas (e isto é um elogio), não é um texto que se leia, assimile e comente em 5 minutos. Parabéns por isso... e não mudes.

Quanto aos espelhos... tenho uma relação ambivalente com eles. Na maior parte das vezes não lhes ligo muito. Muitas vezes uso-os para ralhar comigo, olhar-me nos olhos e dizer-me umas verdades. Porque não precisamos realmente que eles nos devolvam a imagem, já a conhecemos há muito. Nem a tristeza, o brilho, o sorriso ou as lágrimas. Mais do que vê-las, sentimo-las. E até podes enganar o espelho, se quiseres, esses espelhos exteriores que fazem tudo ao contrário. Mas o espelho interior, esse, quando olhamos para dentro de nós, nunca enganamos.

Quanto à última frase "espelho meu, espelho meu...". Eu sou a minha companhia a vida toda. Que grande chatice seria acompanhar 24 horas por dia x muitos e muitos anos (espero) alguém de quem não gostasse! Por mais que me chateie comigo às vezes, não me posso mandar embora!
Não me importaria muito que alguém gostasse mais de mim do que eu... mas estou seriamente a treinar para gostar mais de mim do que de qualquer outro alguém (excepção feita, obviamente, ao amor da minha vida - o meu pequeno terrorista).

Boa semana!
Beijo

Soraia Silva disse...

Quando olhamos ao espelho, apenas vemos o reflexo dos nossos proprios pensamentos.
Se estamos mal com alguma coisa, o espelho mostrar-nos-à exactamente isso, parece que vemos nos nossos olhos uma raiva incompreendida, uma revolta enorme, um ar pesado, talvez mais velho, parecemos ter um olhar infeliz.
Mas quando estamos bem, nao interessa que nao sejamos perfeitos, nao interessa os "papos" que temos, as rugas (etc), que a imagem automaticamente ja parece outra. aí o espelho oculta-nos a verdadeira imagem, porque o que realmente importa é a maneira como encaramos as coisas, a vida, e aí sim, o espelho torna-se no nosso melhor amigo, pois mostra-nos quando estamos mal e devemos corrigir, como quando estamos bem e devemos seguir!!!

O espelho talvez seja o unico a "gostar" de nós, para além de nós, porque mostra-nos sempre aquilo que nao conseguimos ver (mais transparente ninguem o conseguirá mostrar)!!!


beijinho

CybeRider disse...

Olá Nirvana!

Não estou a pensar mudar o estilo do blog. Não ando à procura de seguidores, senão talvez não fosse este o melhor formato. Tenho consciência que os textos não são "a la minuta", sobretudo para mim, demoram-me mais um bocadito.
E já deu para ver que não te incluis na "maioria das pessoas" que referi à Pepita. :)

Também já vi que a maioria dos blogs não tem comentários deste nível, mas também sei que a maioria não tem respostas dos autores como as minhas.

Tudo diferente portanto. E é assim que isto tem "piada para mim".

Mas esta coisa dos blogs tem que se lhe diga. Alguns, começamo-los para nós e passado algum tempo já não sabemos se são de facto nossos ou de quem os lê. E aí começa a inquietação, sobretudo se quem lê não diz que leu... O caso do Queque, que também segues, está-me a custar a engolir, principalmente porque se lê o gosto com que ela escreve, mas a Pepita lá sabe, já lá deixei o que sinto.

Adiante :)

O teu comentário também não é fácil. Gostei de ler a subjectividade com que abordas o teu espelho. :)

Tens razão quanto ao espelho interior. Podemos até andar enganados, mas o nosso interior tem todos os segredos e diz-nos ao ouvido o que muitas vezes não queremos ouvir.

Mas o cume atingiste-o com a tua última frase. E não é que não consigo pensar em situação mais adequada para provar que podemos gostar mais de alguém que de nós próprios?

Já o inverso é muito capaz de ser impossível. Talvez a pergunta que deixei no texto não possa ter uma resposta favorável.

Boa semana também para ti!
Bjk

CybeRider disse...

Olá Soraia!

Segui o teu conselho e o meu tio deixou-me de braço ao peito... Por isso tenho que te responder só com uma mão. :)))

Não há hipótese de me convenceres que o espelho que me olha todos os dias com aquele ar carrancudo não olharia para ti com um sorriso de orelha a orelha. :)

Mas tens razão, a forma como nos sentimos condiciona a maneira como aquilo que vemos no espelho é bom ou mau. E até é provável que nem reparemos nesses pormenores maus quando estamos bem, e até que consigamos ver coisas más que não existem quando estamos de mal connosco.

E a tua última frase é de uma transparência formidável. "Mais transparente ninguém o conseguirá mostrar" - sem dúvida!

(Bem... logo a seguir ao duche é que a coisa fica mais translúcida)

;)

Beijinho Soraia!

Soraia Chaves disse...

Gostei muito da sua redação, fiquei com o peito a arfar. Eu sei muito bem o que é a nossa imagem no espelho armar-se em escravo insolente. Preferia que a minha imagem fosse um escravo dócil, mas não. Ás vezes penso que o espelho é mau e até me apetece parti-lo. Mas não parto, dá azar né?

Um beiinho.

CybeRider disse...

Olá Soraia Chaves,

Há algum tempo que não nos falávamos. Depois de tudo o que partilhámos esperava que pelo menos me tratasses de uma maneira menos formal. Não recordo a tua imagem como um "escravo dócil", esse era eu, lembras-te?

E o tal espelho partido foi um acidente. Pensava que já te tinhas esquecido disso...

Azar foi não termos conseguido fugir sem pagar a conta.

Um beijinho, aparece lá no sítio do costume!

Gemini disse...

Como há coisas curiosas… quantas vezes em frente ao espelho, o reflexo que observo é este texto… ainda não o tinha sabido escrever, talvez por que, deveras, não leio da direita para a esquerda…

Obrigado por ordenares na palavra (escrita), o que, provavelmente, todos sentiremos…

Abraço!

CybeRider disse...

Olá Gemini,

Pois... E fico sem a certeza se de facto aquele olhar dúbio não nos afectará para o resto do dia...

Quntas vezes culpamos o estado do tempo, o noticiário da manhã, pela forma negativa como determinado dia nos acontece, quando afinal tudo é, talvez, muito mais simples.

Não sei se por circunstância, se por ter este pensamento enraizado, já dou por mim a encarar aquela figura com um ar mais triste... Talvez na esperança que ele me inverta a aura.

Abraço! :)