quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Esquerda... Direita... Um... Dois...

Andam a par. Como o sim e o não.

O não que nos afasta do que não queremos. O sim, que nos atrai para tudo o que julgamos merecer.

A esquerda lava a direita e sem a direita a esquerda não se poderia lavar. Repara como se juntam, imagens opostas uma da outra. No entanto são quase simétricas, completando-se neste espaço que é só um. Fazemos nós a destrinça.

Quantas vezes seguramos na direita o que sem a esquerda cairia ao chão. Quantas vezes apanhamos do chão com a esquerda o que a direita recupera, para lhe continuar a dar uso. E todos os possíveis vice-versas.

Nunca abdicaríamos de uma em favor da outra. Não olhamos para a esquerda negando-lhe o valor, nem para a direita como omnipotente. Nem uma está errada nem outra, somos nós quem erra, não elas.

Há quem as junte numa prece, quem as estenda à vez, num pedido de socorro. Nelas confiamos a nossa sobrevivência. Voltamo-las para brincar, dividimo-las em cada dedo que também não negamos. Para nós são sempre um sim. Sempre juntas e carentes.

Com uma e outra afagamos o destino, e distribuímos amor. Comunicamos. Com elas conseguiríamos destruir o Mundo... Sem elas nunca conseguiremos realizar os nossos sonhos mais queridos, nem distribuir o bem-estar, nem concretizar os planos audazes que nos trespassem a ideia.

- Bate palmas!

Uma não faz barulho sem a outra. Sozinhas são inaudíveis, mudas, imperceptíveis. Só ambas fazem sentido.

Apesar disso não se misturam. A da esquerda será sempre "a da esquerda" e a da direita, será sempre "a da direita" também.

Venham falar-me de democracia, como um ideal clubista. Venham falar-me em partidos, e em multidões que se odeiam. Nunca acreditarei que se faça algo de útil sem as duas mãos que se unem. Nunca acreditarei que consiga fazer-me ouvir a aplaudir a uma mão.

Com uma apenas, posso dar um soco, posso disparar uma arma, ou arremessar uma pedra. Preciso das duas para te levantar do chão, preciso das duas para fabricar o pão, para me segurar à árvore de onde colho o fruto, para te salvar de morreres afogado.

Preciso das duas para retirar a mais bela melodia do piano.

Quando me escolhem só uma, deixam-mas atadas. Não estaria completo, porque sempre precisei das duas.

Preciso delas para me lavar a cara. Para me cobrir a vergonha, uma à frente e outra atrás, sem distinção. Com uma apenas consigo esborratar o quadro mais belo e destruir a maqueta que estavas a construir.

As minhas botas continuam a marcar passo: Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois...

E não chego a lado nenhum.


© CybeRider - 2009

13 comentários:

mfc disse...

Mas a política não são mãos... são ideias!

CybeRider disse...

E as ideias são ferramentas, tal como os meus paralelismos, mfc. Uns sem outros somos pouco. Ou de outra forma, "unidos venceremos", vai sendo altura de relembrar bons conceitos.

Gemini disse...

"Tu sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão"!

E quando, na tua marcha, levantas a perna esquerda, é o erguer da mão (braço) direita(o) que te possibilita o equilibrio!

Que raio de "óculos" usarão eles?!

É que, quer parecer-me, em 1974 a "graduação" era outra!!

Ou serão os olhos de quem coloca a "cruz", que se impõe actualizar graduação?...

Abraço!

Mente Quase Perigosa disse...

Eu entendo o alcance politico do post. Mas já sabes que eu de politica não percebo nada (e se não fossem os comentários anteriores eu nem alcançaria a profundidade da temática) e nem gosto.

Portanto, eu li o post sem pensar em partidos. Eu li o 'esquerda, direita' somente com a conotação das mãos. Li e gostei.

Acho que este post ficará no top 5 dos meus favoritos.

"Com uma apenas, posso dar um soco, posso disparar uma arma, ou arremessar uma pedra. Preciso das duas para te levantar do chão, preciso das duas para fabricar o pão, para me segurar à árvore de onde colho o fruto, para te salvar de morreres afogado."

Porque sozinhos não podemos ser felizes...

Adorei o post mas não gosto de politica. Portanto, se não te importas, vou continuar a lê-lo como uma ode à união das pessoas.

CybeRider disse...

Gemini,
É triste que o sonho que muitos construiram naquela altura se tenha tornado no que temos hoje. Acho que muitos andam mesmo "sem óculos" e daí que já nem vejam o caminho que havia a seguir.

Sinceramente não acredito que haja alguma cruz que salve isto, enquanto a sociedade se encontrar dividida e não nos mobilizarmos interiormente para uma maior humanização. Enquanto o peso do dinheiro for superior ao peso da responsabilidade e da honestidade. Começo a pensar que não são as políticas que estão erradas, o mal é mais profundo.

Abraço!

CybeRider disse...

Olá Mente,
Sinto então que navegamos nas mesmas águas. A minha experiência política foi suficientemente curta para me tornar num asno da política, mas suficientemente longa para me mostrar que "antes quero burro que me leve que cavalo que me derrube". Saí antes de perder a minha identidade.

Este post é uma mera constatação de que as pessoas estão divididas e cientes de que estão no caminho certo. Será porém essa divisão a causa do naufrágio. A política aqui surge como o pretexto que observo. O sentido do post é decerto o que lhe atribuis. Falo de tendências, não de partidos. Mas acho que a sociedade vê essas tendências como clubes com vitórias e derrotas, isso divide-nos de forma que espero não seja já irremediável.

Agradeço-te o elogio rasgado, que por vir de ti me merece um carinho especial. :)

pepita chocolate disse...

Não sei se ria se chore...começas-me tu com a conversa das mãos, e lá vou, por aí abaixo, para dar trabalho às mãos que, por aqui têm andado enferrujadas.(E por outros lados também, que a coisa andou complicada!)
Abro a caixinha, para começar a pôr as mãos em marcha, já que até agora só os olhos trabalharam, e dou de caras: "Dois dedos de conversa?"
Por aqui tenho mais que dois dedos de conversa para pôr em dia... Mas sabes como é: os olhos ainda conseguem ser mais rápidos que as mãos. E é só o que tem trabalhado por aqui.

E depois desta dissertação em tom de desculpa esfarrapada,que haverá a dizer sobre as mãos?
Adorei os pozinhos de parlimpimpim que pões sempre nos teus textos. Porque está maravilhoso este teu corridinho de mãos, que se perde no corredor da política.
Da política falarei pouco; talvez se a direita e esquerda trabalhassem para o bem comum, teríamos uma cara mais bem lavada. Mas como cada um trabalha para si, alguns têm a cara tão suja, que deveriam ter a vergonha de sair à rua!Lá por estar suja, ainda os reconhecemos. Há é quem não consiga ver claramente, e ainda vote neles. Adiante, que se faz tarde...
Quanto à mãos...
As mãos embalam a criança; as mãos mostram vidas duras; as mãos são capazes do bom e do mau. As mãos são aquilo que primeiro dizem de cada um: com elas se dá um cumprimento. Num cumpimento sentido, uma aperta a mão estendida, e a outra repousa por cima das duas. Com as mãos, abraçamos e sorrimos. Com as mãos comunicamos. Com as mãos falam os que não têm voz. Com as mãos dizemos que estamos OK ou KO. com as mãos, as minhas, deixo aqui estas palavras, que hoje me fizeram lembrar mãos que já me afagaram o rosto e já me limparam lágrimas. Porque essas mãos, serão as mãos de amigos...

Beijinho!

CybeRider disse...

Olá Pepita!
Tu ri! Não chores nunca! E principalmente num dia destes, em que celebras um ano de autoria de uma espaço que nos cativa.

Nã te preocupes om os dois dedos, se for um de cada mão dão para um espaço muito maior que os das caixinhas. :))

Como sempre acrescentas validade ao que escrevi. Gostei da forma que descreves no cumprimento, gesto que repito tal e qual muitas vezes, mas ainda prefiro aquela em que uma mão ampara por baixo o que o coração aperta nas duas que ficam por cima.

Também as tuas mãos espalham esperança e beleza por aqui.

Beijinho!

Mário Rodrigues disse...

Caríssimo Cybe,

As mãos, como tão genialmente descreves, são, não só fisiologicamente, uma obra admirável. Este texto é-me também, um grito... Um brado de contemplação e de tristeza... Este texto, deveria estar exposto no parlamento. Entristece-me apenas o facto de não vir a ser compreendido por aqueles lados...

Um abraço

CybeRider disse...

Ilustre Mário,
É o desalento que se apodera de mim. Já não acredito em cruzes. Das da fé já tinha abdicado. Nunca abdiquei das da democracia, mas sempre acreditei que seriam para unir um povo castigado. Verifico a cada dia um fosso que alastra. Não foi isto o que sonhámos.

Haverá solução?

Um abraço!

Mário Rodrigues disse...

Caro Cybe,

Há! Com certeza! E nós fazemos parte dela!
Cada vez, há mais como nós, que dão brados de alerta. Por enquanto, vão sendo abafados, pelos déspotas que delas não gosta...mas temos a obrigação de fazer mais e melhor e de modo que chegue mais longe. Não te deixes cair nas teias da fadiga da luta, são como cantos de sereias, que nos encaminham para mares de conformidade...sofro muito com isso mesmo, e como tu, luto...

Um abraço

CybeRider disse...

Mário,
És um mestre em cultivar a esperança. O caminho que referes é longo e árduo. Temos de puxar as hostes ao caminho das pedras, antes que se afoguem nesses mares, de sedução fácil. Mas o saber que não estamos sós é um começo. Haja quem nos dê ânimo, e quem não nos deixe duvidar.

Um abraço!

Mário Rodrigues disse...

...E então; então seremos dignos da denominação de seres humanos e inteligentes…

;-)