O carro é uma coisa maravilhosa.
Lembro-me da estima com que um primo, afastado no tempo e no espaço, nem tanto no sangue, escovava o pêlo sedoso da mula que atrelava à carroça para o tal passeio à vila. De férias por lá, na planura tórrida do Alto Alentejo profundo, ainda recordo a primeira vez que me sentei na tábua que servia de poltrona à simples carruagem. E lá fomos...
A trepideira e o ruído dos aros metálicos das rodas gigantescas a arrepiar o empedrado é quase inimaginável. Dir-se-ia que os meus dentes de leite iam a arar o granito empedernido e invulnerável que as suportava. A compasso com o matraquear do galope, a quatro cascos bem ferrados, no pavimento.
O meu primo, homem possante de braços espessos atiçava a besta que avançava sem custo pela rua quase deserta. Recordo o movimento pendular da cabeça do animal, para cima e para baixo, a afirmar a certeza de chegarmos ao destino. Os guizos do malim a soar com brio, a rédea a fustigá-lo para passarmos da velocidade-de-cruzeiro a mata-cavalos, por ali fora. As minhas pernitas de franganote e os dedinhos ainda frágeis a agarrarem-se a cada trave, para não desaparecer com a nuvem de poeira que se libertava do restolho sobrante das cargas brutas vencidas.
Lembro-me do sorriso dele, a embrulhar-me puto naquele delírio. Lembro-me da confiança que aquele sorriso franco e quente, na tez encortiçada, me punha na alma; e que me fazia gritar por mais, sem perigo que me assomasse.
Rodei o volante. Entrei naquela produtora de alimentos a metro, logo a seguir à placa que indicava "drive-in", como num cinema à americana. Nunca tinha lá estado. Parei no primeiro guichet e reparei que vinha outra viatura atrás. Olhei para o rapazola de boné vermelho, à americana, e disse-lhe à antiga portuguesa que como tinha "outro" atrás talvez fosse melhor parar no guichet seguinte. Ele olhou-me com aquele olhar com que eu costumava olhar para o meu avô, quando me dizia aquelas coisas à antiga portuguesa. Disse-me que estava ali bem e anotou o meu pedido. Depois percebi... Percebi que estava atrasado, que os anos tinham passado por mim sem delicadeza, a mata cavalos.
O outro guichet era apenas para levantar o pedido. Não havia espaço a gentilezas, a coisa já estava pensada assim. Se tivesse sido gentil, teria estragado a mecânica do espaço. O rapazola, de boné à americana, também pensou nisso mas era tão complicado tentar traduzi-lo para o meu vocabulário à antiga portuguesa, que se limitou a olhar-me com aquele olhar com que olhei tantas vezes o meu avô e limitou-se a balbuciar: "Deixe-se estar. O senhor está bem aí..."
E de facto acho que sim. Agora que penso nisso, acho que estou bem melhor aqui do que com um boné à americana a cobrir-me o cabelo grisalho.
Mas estaria ainda melhor sentado sobre a tábua rachada, que servia de poltrona no carro do meu primo.
© CybeRider - 2009
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Há uma razão para uma mosca nos cair na sopa
Sou acometido poucas vezes pela ideia de que os segredos do Universo me foram já todos manifestados.
Não que os entenda, entenda-se. Mas acabo por acreditar que de uma forma ou de outra já vi a matéria-prima com que tudo se compõe. A maioria das conversas soa-me por isso a déjà vu. As politiqueiras, as crises económicas, as lástimas sociais, a namorada do amigo, o preço da gasolina. Até por isso já não uso a memória com a intensidade com que costumava abusar dela. Não esqueço os nomes nem os factos por questões de senilidade. Esqueço-os porque me são meros plágios retirados de coisas mais antigas; pessoas que se repetem, com ligeiras diferenças fisionómicas; factos que nunca terão o impacto da primeira vez que os vi desenrolarem-se aos meus olhos.
Algumas recordações menos recentes ficaram-me como princípios fundamentais.
Hoje apraz-me recordar uma, pela estranheza que me causa sempre que me lembro da coisa.
Tive um amigo, em tempos, que cultivava a filosofia oriental com um rigor e um saber invulgares. Passámos horas a contrapor a racionalidade das minhas questões ocidentais com os pressupostos epistemológicos daquelas sociedades longínquas.
Nem posso esquecer o momento em que me salvou a vida, naquele dia aziago em que me encontrava a comer uma suculenta bifana cheia de mostarda num snack bar à esquina da estação do Rossio, batida com uma imperial bem tirada - ai, que lhe sinto o gosto... - e o vejo entrar alarmadíssimo pela porta dentro, agarra-se-me ao braço e me pergunta com aquele olhar inquieto, que diabo estava eu a fazer, a suicidar-me daquela maneira, arrastando-me porta fora para me ir atafulhar de pastéis macrobióticos para o Celeiro, ali a poucos passos.
Pois um dia caminhávamos à sombra de umas nogueiras em Sintra, onde ele tinha uma pequena fábrica de pickles biológicos (que eu nem sabia que havia outros) e íamos apanhando nozes, e discutindo as habituais dialécticas do conhecimento humano. A certo ponto quebrei uma noz já habitada... Mau... Ele fitou-me e esclareceu-me que aquilo seria a prova cabal de que a partir daquele momento o meu organismo já não necessitava de mais nozes... Se necessitasse, por estranha premonição, teria sido capaz de escolher outra sem bicho... Pois... Ah! E mostrou-me como o organismo dele continuava a seleccionar as imaculadas com que se ia empanturrando.
De facto penso muitas vezes nessa minha incapacidade, de pré-seleccionar as coisas boas, de forma a não sofrer desapontamentos, talvez por já ter tido benesses em excesso e não precisar de mais nenhuma.
E posso até esquecer nomes e factos, não por senilidade, mas porque me são meros plágios de coisas antigas.
Sempre que me cai uma mosca na sopa, porém, fico a pensar que há uma razão para isso.
Talvez seja o único segredo do Universo que ainda não me foi revelado.
© CybeRider - 2009
Não que os entenda, entenda-se. Mas acabo por acreditar que de uma forma ou de outra já vi a matéria-prima com que tudo se compõe. A maioria das conversas soa-me por isso a déjà vu. As politiqueiras, as crises económicas, as lástimas sociais, a namorada do amigo, o preço da gasolina. Até por isso já não uso a memória com a intensidade com que costumava abusar dela. Não esqueço os nomes nem os factos por questões de senilidade. Esqueço-os porque me são meros plágios retirados de coisas mais antigas; pessoas que se repetem, com ligeiras diferenças fisionómicas; factos que nunca terão o impacto da primeira vez que os vi desenrolarem-se aos meus olhos.
Algumas recordações menos recentes ficaram-me como princípios fundamentais.
Hoje apraz-me recordar uma, pela estranheza que me causa sempre que me lembro da coisa.
Tive um amigo, em tempos, que cultivava a filosofia oriental com um rigor e um saber invulgares. Passámos horas a contrapor a racionalidade das minhas questões ocidentais com os pressupostos epistemológicos daquelas sociedades longínquas.
Nem posso esquecer o momento em que me salvou a vida, naquele dia aziago em que me encontrava a comer uma suculenta bifana cheia de mostarda num snack bar à esquina da estação do Rossio, batida com uma imperial bem tirada - ai, que lhe sinto o gosto... - e o vejo entrar alarmadíssimo pela porta dentro, agarra-se-me ao braço e me pergunta com aquele olhar inquieto, que diabo estava eu a fazer, a suicidar-me daquela maneira, arrastando-me porta fora para me ir atafulhar de pastéis macrobióticos para o Celeiro, ali a poucos passos.
Pois um dia caminhávamos à sombra de umas nogueiras em Sintra, onde ele tinha uma pequena fábrica de pickles biológicos (que eu nem sabia que havia outros) e íamos apanhando nozes, e discutindo as habituais dialécticas do conhecimento humano. A certo ponto quebrei uma noz já habitada... Mau... Ele fitou-me e esclareceu-me que aquilo seria a prova cabal de que a partir daquele momento o meu organismo já não necessitava de mais nozes... Se necessitasse, por estranha premonição, teria sido capaz de escolher outra sem bicho... Pois... Ah! E mostrou-me como o organismo dele continuava a seleccionar as imaculadas com que se ia empanturrando.
De facto penso muitas vezes nessa minha incapacidade, de pré-seleccionar as coisas boas, de forma a não sofrer desapontamentos, talvez por já ter tido benesses em excesso e não precisar de mais nenhuma.
E posso até esquecer nomes e factos, não por senilidade, mas porque me são meros plágios de coisas antigas.
Sempre que me cai uma mosca na sopa, porém, fico a pensar que há uma razão para isso.
Talvez seja o único segredo do Universo que ainda não me foi revelado.
© CybeRider - 2009
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Prosa
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
A bronca da broncocoisa...
Tinóni... Tinóni...
Os faróis a piscar, o veículo amarelo surge. Encostam, deixam passar.
O Jacinto também deixou passar, em branco, a mãe que lhe faleceu no hospital com broncopneumonia. Já se lhe fora um tio e uma prima afastada.
Afastados… Todos, por esse anátema ceifeiro.
Ou é andaço, ou uma terrível coincidência, mas ultimamente parece que não há velho que morra de outra coisa. Vítimas de cancro, de SIDA, de uma perna partida, ou de simples senilidade; desde que haja internamento, é quase certo. Se não foi acidente, foi broncopneumonia. Penso eu, não o Jacinto.
Não lastimou que se fale de gripe XPTO, quando a porcaria que nos leva os velhotes mata muito mais que qualquer outra maleita, e sobre ela nada. Desta ninguém fala, saiba-se lá porquê. Os velhotes vão assim, muitas vezes para melhor, por broncopneumonia. Liberta-se a cama que os desgraçados ocupariam a perder de vista no tempo, e uma data de gente livra-se de uma série de encargos e chatices. Assim como o Jacinto, que sem saber trocar as fraldas à mãe, sem proventos dignos de um desafogo, a lavava à mangueirada no quintal da casota modesta da aldeia. Já o tinham debaixo de olho, a Segurança Social… Assim foi melhor… Que a velha estava a sofrer. O pior foi a reforma. Faz também falta aos outros, para jogarem à carta no banco de jardim até que a vida lhes doa, e precisem de internamento, como necessitam da tal cama no hospital.
E no ciclo do Jacinto, conformado com a forma como a mãe lhe partiu, sem mistério, vive-se, envelhece-se, apanha-se a broncopneumonia e, saberá Deus.
Alguns resistem, ainda pecou o Jacinto em pensamento. O AVC não os deita abaixo tanto quanto se esperaria, e o raio da broncopneumonia ainda se cura, mas estes são de facto poucos. Talvez a medicina tenha evoluído em dois sentidos diferenciados; dum lado os que recupera para ficarem inválidos por uma série de anos, do outro os que despede rapidamente com a tal broncopneumonia.
O Jacinto, não gostaria de ver o assunto estudado, os números apresentados, as estimativas e estatísticas realizadas. Isso dar-lhe-ia uma intranquilidade desnecessária. Não o incomoda o dia em que apanhe uma broncopneumonia, não terá violado nenhum cânone sagrado de uma máfia oculta, inominável, que se queira então ver livre dele, que nem sequer questionou.
A mim sim. Preocupa-me. Daí que comece a ver nisto uma dúvida existencial.
Por isso, se amanhã estiver hospitalizado com uma conveniente broncopneumonia, já sabem...
© CybeRider - 2009
Os faróis a piscar, o veículo amarelo surge. Encostam, deixam passar.
O Jacinto também deixou passar, em branco, a mãe que lhe faleceu no hospital com broncopneumonia. Já se lhe fora um tio e uma prima afastada.
Afastados… Todos, por esse anátema ceifeiro.
Ou é andaço, ou uma terrível coincidência, mas ultimamente parece que não há velho que morra de outra coisa. Vítimas de cancro, de SIDA, de uma perna partida, ou de simples senilidade; desde que haja internamento, é quase certo. Se não foi acidente, foi broncopneumonia. Penso eu, não o Jacinto.
Não lastimou que se fale de gripe XPTO, quando a porcaria que nos leva os velhotes mata muito mais que qualquer outra maleita, e sobre ela nada. Desta ninguém fala, saiba-se lá porquê. Os velhotes vão assim, muitas vezes para melhor, por broncopneumonia. Liberta-se a cama que os desgraçados ocupariam a perder de vista no tempo, e uma data de gente livra-se de uma série de encargos e chatices. Assim como o Jacinto, que sem saber trocar as fraldas à mãe, sem proventos dignos de um desafogo, a lavava à mangueirada no quintal da casota modesta da aldeia. Já o tinham debaixo de olho, a Segurança Social… Assim foi melhor… Que a velha estava a sofrer. O pior foi a reforma. Faz também falta aos outros, para jogarem à carta no banco de jardim até que a vida lhes doa, e precisem de internamento, como necessitam da tal cama no hospital.
E no ciclo do Jacinto, conformado com a forma como a mãe lhe partiu, sem mistério, vive-se, envelhece-se, apanha-se a broncopneumonia e, saberá Deus.
Alguns resistem, ainda pecou o Jacinto em pensamento. O AVC não os deita abaixo tanto quanto se esperaria, e o raio da broncopneumonia ainda se cura, mas estes são de facto poucos. Talvez a medicina tenha evoluído em dois sentidos diferenciados; dum lado os que recupera para ficarem inválidos por uma série de anos, do outro os que despede rapidamente com a tal broncopneumonia.
O Jacinto, não gostaria de ver o assunto estudado, os números apresentados, as estimativas e estatísticas realizadas. Isso dar-lhe-ia uma intranquilidade desnecessária. Não o incomoda o dia em que apanhe uma broncopneumonia, não terá violado nenhum cânone sagrado de uma máfia oculta, inominável, que se queira então ver livre dele, que nem sequer questionou.
A mim sim. Preocupa-me. Daí que comece a ver nisto uma dúvida existencial.
Por isso, se amanhã estiver hospitalizado com uma conveniente broncopneumonia, já sabem...
© CybeRider - 2009
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Este país não é para velhos,
Prosa
sábado, 22 de agosto de 2009
A cigarra e as formigas
A meus pés, o carreiro de formigas...
Infestam-me o mundo, nas suas filas indianas, que decerto chegam à Índia, onde nunca estive, mas que imagino. Cheia de formigas também. Como estas, que se acotovelam, como na fila do metropolitano. Imagino-as a atravessar pontes e vales, montanhas e desfiladeiros. Embarcam nas folhas e vão-se pelos ribeiros à aventura. Sem louros a colher, sem História, nem política...
Uma imensa monarquia, talvez um império cheio de rainhas que, de pernas abertas nos tronos, infestam e manifestam sem cessar. Um negócio de família afinal, maior que qualquer latifúndio que conheçamos. Em comum a mão de obra barata, a sujeição irracional, a massificação quase automática como que telecomandada. Recolectores pré-históricos, que não pensam que o mundo acaba, não sofrem da ansiedade da morte, nem das incertezas da velhice.
Uma sociedade complexa. Com hostes que se dividem em tarefas específicas. Talvez não se entendam umas às outras na missão mas, ao contrário de nós, não se questionam. Limitam-se a cumprir o destino que lhes coube em sorte. Sem ambição, nem gula. O altruísmo é automático, derivado do cumprimento espartano.
Não conhecem a cigarra. Fomos nós que lha inventámos. Porque tínhamos de lhes poluir o mundo com uma inveja que não concebem. Com uma moral que não as toca.
Somos nós quem questiona a laboriosa formiga face à preguiçosa cigarra. Nós, que também infestamos o mundo que pensamos que é nosso. Que nos escusamos à comparação com a estirpe de gripe mais violenta. Fugimos à analogia entre a nossa pandemia sobre a Terra e a de qualquer vírus que subavaliamos em intelecto. Não reconhecemos a violência com que debilitamos este nosso hospedeiro, cujo sistema imunológico nos tenta a todo o momento repelir. Oxida-nos os tecidos, invade-nos de natureza, que logo acusamos de doenças, que no entanto não a atingem, a essa Terra-mãe que tudo gera. São essas as suas defesas contra a nossa acção nefasta.
Questionamo-nos as razões de cada missão a que nos propomos. Quantas vezes não encontramos nexo na Ecologia, que nos tenta preservar enquanto não acharmos outro hospedeiro que contaminemos e extorquamos à exaustão. Talvez a Lua... Atrasa-nos o suicídio, que sobreviria se apenas o grupo de recolectores existisse. Sim, continuamos a recolectar tudo o que podemos deste globo, as transformações do que colhemos iludem-nos, como se fossemos capazes de criar. Deuses menores numa acrópole de mentecaptos mecânicos, que se revezam na atitude e no posto, desejando e adorando um pai que nos abandonou há muito.
Deixamo-nos governar pela cigarra. As nossas rainhas não são suficientemente belas, nem têm o monopólio da parição. Perderam assim o poder face ao esplendor do canto e à cristalinidade das asas que aquela ostenta.
A cigarra não tem o poder de avaliar o mérito nem a justiça do destaque magnífico que o formigueiro lhe dedica. Limita-se a alimentar-se do que as nossas hostes laboriosas lhe colocam aos pés em vénias redobradas e salamaleques. Empanturra-se de mordomias, injustificáveis.
Um dia morre.
Mas quando morre uma cigarra é sempre o carreiro de formigas que a carrega, em ombros.
E guardam-na na despensa. E, um dia, banqueteiam-se com ela.
© CybeRider - 2009
Infestam-me o mundo, nas suas filas indianas, que decerto chegam à Índia, onde nunca estive, mas que imagino. Cheia de formigas também. Como estas, que se acotovelam, como na fila do metropolitano. Imagino-as a atravessar pontes e vales, montanhas e desfiladeiros. Embarcam nas folhas e vão-se pelos ribeiros à aventura. Sem louros a colher, sem História, nem política...
Uma imensa monarquia, talvez um império cheio de rainhas que, de pernas abertas nos tronos, infestam e manifestam sem cessar. Um negócio de família afinal, maior que qualquer latifúndio que conheçamos. Em comum a mão de obra barata, a sujeição irracional, a massificação quase automática como que telecomandada. Recolectores pré-históricos, que não pensam que o mundo acaba, não sofrem da ansiedade da morte, nem das incertezas da velhice.
Uma sociedade complexa. Com hostes que se dividem em tarefas específicas. Talvez não se entendam umas às outras na missão mas, ao contrário de nós, não se questionam. Limitam-se a cumprir o destino que lhes coube em sorte. Sem ambição, nem gula. O altruísmo é automático, derivado do cumprimento espartano.
Não conhecem a cigarra. Fomos nós que lha inventámos. Porque tínhamos de lhes poluir o mundo com uma inveja que não concebem. Com uma moral que não as toca.
Somos nós quem questiona a laboriosa formiga face à preguiçosa cigarra. Nós, que também infestamos o mundo que pensamos que é nosso. Que nos escusamos à comparação com a estirpe de gripe mais violenta. Fugimos à analogia entre a nossa pandemia sobre a Terra e a de qualquer vírus que subavaliamos em intelecto. Não reconhecemos a violência com que debilitamos este nosso hospedeiro, cujo sistema imunológico nos tenta a todo o momento repelir. Oxida-nos os tecidos, invade-nos de natureza, que logo acusamos de doenças, que no entanto não a atingem, a essa Terra-mãe que tudo gera. São essas as suas defesas contra a nossa acção nefasta.
Questionamo-nos as razões de cada missão a que nos propomos. Quantas vezes não encontramos nexo na Ecologia, que nos tenta preservar enquanto não acharmos outro hospedeiro que contaminemos e extorquamos à exaustão. Talvez a Lua... Atrasa-nos o suicídio, que sobreviria se apenas o grupo de recolectores existisse. Sim, continuamos a recolectar tudo o que podemos deste globo, as transformações do que colhemos iludem-nos, como se fossemos capazes de criar. Deuses menores numa acrópole de mentecaptos mecânicos, que se revezam na atitude e no posto, desejando e adorando um pai que nos abandonou há muito.
Deixamo-nos governar pela cigarra. As nossas rainhas não são suficientemente belas, nem têm o monopólio da parição. Perderam assim o poder face ao esplendor do canto e à cristalinidade das asas que aquela ostenta.
A cigarra não tem o poder de avaliar o mérito nem a justiça do destaque magnífico que o formigueiro lhe dedica. Limita-se a alimentar-se do que as nossas hostes laboriosas lhe colocam aos pés em vénias redobradas e salamaleques. Empanturra-se de mordomias, injustificáveis.
Um dia morre.
Mas quando morre uma cigarra é sempre o carreiro de formigas que a carrega, em ombros.
E guardam-na na despensa. E, um dia, banqueteiam-se com ela.
© CybeRider - 2009
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Prosa
terça-feira, 18 de agosto de 2009
A caixa de música
Pressionei o pequeno troço de metal brilhante. Dei-lhe algumas voltas com os dedos.
Pousei a caixinha de acabamento finíssimo sobre a mesa do boudoir, lacada a negro brilhante, com flores marchetadas por algum hábil artífice. Abri o pequeno fecho da tampa e levantei-a, parte de um cenário coberto a espelhos multifacetados, dispostos em semicírculo. O forro vermelho que cobria o fundo da caixa, tinha cavidades em volta, tinha também outro espelho, circular, ao centro.
A música começara. Uma pequena harpa tocava a melodia celeste que só por si já embevecia. Retirei com cuidado a pequena fada do seu leito e coloquei-a sobre o lago, formado pelo espelho central.
Fiquei a mirá-la, sob hipnose, enquanto revolteava no seu vestidinho de corista, as pernas nuas surgiam-lhe maravilhosas sob o saiote de tule. Os braços em arco sobre a cabeça.
Pim... Pimperlimpipim... Pim, pim... Pim, pim...
Não conseguia libertar o meu olhar do voltear da pequenina figura sobre o seu lago hipotético. Imaginava-me a acompanhá-la, no seu mundo perfeito em que nasceu para bailar nos meus sonhos, adivinhava-lhe o sorriso sereno, da segurança dos passos de dança. Via-a como que saltasse e pousasse em pontas de novo, como que de nenúfar em nenúfar, o que lhe seria possível, sem custo, pela sua virtuosa delicadeza.
Via-me a pegar-lhe na mão e a suster-lhe o corpo elegante no ar, enquanto desenhássemos figuras belíssimas. Eu, do tamanho dela; como via nos bailados clássicos da televisão.
Não bastava a magia da música, tinham de ter inventado uma figura tão linda para dançar, a propósito, para mim.
Tive outras paixões na vida, mas nunca pude esquecer a pequena bailarina, nem a segurança com que volteava no seu mundo, onde nada acontecia sem o acompanhamento da música de corda. Como numa maravilhosa história de amor.
Um dia fechei pela última vez a tampa da maravilhosa caixa. Parti para o mundo à procura da minha própria caixinha de música, onde pudesse exibir os passos graciosos ao lado da talentosa prima ballerina. Vagueei para encontrar o lago brilhante e sereno onde uma fada dançasse em círculos aquele bailado eterno. Gostaria de lhe ter dito quanto lhe invejava a vida maravilhosa e quantas vezes sonhei com o seu sorriso misterioso, tranquilo e seguro. Gostaria depois de a fechar na minha mão, para a poder soltar quando quisesse e vê-la dançar só para mim.
Gostaria principalmente de lhe ter trauteado ao ouvido a música que nunca esqueci. Ela haveria de se admirar e talvez pela primeira vez os seus lábios mágicos se abrissem num espanto, e então, quem sabe, ela me correspondesse a paixão:
Pim... Pimperlimpipim... Pim, pim... Pim, pim...
Quando a voltei porém a encontrar, anos mais tarde, já não emanava a mesma beleza virginal. O vestido de tule estava amarelado, cheio de manchas. As pernas esbeltas estavam raiadas de varizes e máculas escuras. O cabelo desgrenhado já tinha conhecido melhores dias, algumas mechas escondiam-lhe as rugas que o tempo lhe lavrara a cinzel, indeléveis. Reconheceu-me. Apagou à pressa o cigarro e tentou pôr-se em pontas, mas os sapatos estavam rotos. O cheiro a bebida fazia-me antever que mesmo o estereotipado "quatro" lhe seria difícil.
Encostada ao balcão, tirou outro cigarro e ainda me pediu que lhe desse lume. Não lhe dei corda. Mas beijei-a na testa.
Abri a porta ao sair. Como saíra tantas vezes do seu palco radioso. Fechei de vez o pequeno fecho da tampa. Limpei uma lágrima que me saltou para a noite, pelo frio...
Compreendi que nunca poderia fechar a bailarina na minha mão. Nesse dia deixei de procurá-la, e percebi que o que precisava afinal era de uma mulher.
Foi a última vez que abri uma caixinha de música.
© CybeRider - 2009
Pousei a caixinha de acabamento finíssimo sobre a mesa do boudoir, lacada a negro brilhante, com flores marchetadas por algum hábil artífice. Abri o pequeno fecho da tampa e levantei-a, parte de um cenário coberto a espelhos multifacetados, dispostos em semicírculo. O forro vermelho que cobria o fundo da caixa, tinha cavidades em volta, tinha também outro espelho, circular, ao centro.
A música começara. Uma pequena harpa tocava a melodia celeste que só por si já embevecia. Retirei com cuidado a pequena fada do seu leito e coloquei-a sobre o lago, formado pelo espelho central.
Fiquei a mirá-la, sob hipnose, enquanto revolteava no seu vestidinho de corista, as pernas nuas surgiam-lhe maravilhosas sob o saiote de tule. Os braços em arco sobre a cabeça.
Pim... Pimperlimpipim... Pim, pim... Pim, pim...
Não conseguia libertar o meu olhar do voltear da pequenina figura sobre o seu lago hipotético. Imaginava-me a acompanhá-la, no seu mundo perfeito em que nasceu para bailar nos meus sonhos, adivinhava-lhe o sorriso sereno, da segurança dos passos de dança. Via-a como que saltasse e pousasse em pontas de novo, como que de nenúfar em nenúfar, o que lhe seria possível, sem custo, pela sua virtuosa delicadeza.
Via-me a pegar-lhe na mão e a suster-lhe o corpo elegante no ar, enquanto desenhássemos figuras belíssimas. Eu, do tamanho dela; como via nos bailados clássicos da televisão.
Não bastava a magia da música, tinham de ter inventado uma figura tão linda para dançar, a propósito, para mim.
Tive outras paixões na vida, mas nunca pude esquecer a pequena bailarina, nem a segurança com que volteava no seu mundo, onde nada acontecia sem o acompanhamento da música de corda. Como numa maravilhosa história de amor.
Um dia fechei pela última vez a tampa da maravilhosa caixa. Parti para o mundo à procura da minha própria caixinha de música, onde pudesse exibir os passos graciosos ao lado da talentosa prima ballerina. Vagueei para encontrar o lago brilhante e sereno onde uma fada dançasse em círculos aquele bailado eterno. Gostaria de lhe ter dito quanto lhe invejava a vida maravilhosa e quantas vezes sonhei com o seu sorriso misterioso, tranquilo e seguro. Gostaria depois de a fechar na minha mão, para a poder soltar quando quisesse e vê-la dançar só para mim.
Gostaria principalmente de lhe ter trauteado ao ouvido a música que nunca esqueci. Ela haveria de se admirar e talvez pela primeira vez os seus lábios mágicos se abrissem num espanto, e então, quem sabe, ela me correspondesse a paixão:
Pim... Pimperlimpipim... Pim, pim... Pim, pim...
Quando a voltei porém a encontrar, anos mais tarde, já não emanava a mesma beleza virginal. O vestido de tule estava amarelado, cheio de manchas. As pernas esbeltas estavam raiadas de varizes e máculas escuras. O cabelo desgrenhado já tinha conhecido melhores dias, algumas mechas escondiam-lhe as rugas que o tempo lhe lavrara a cinzel, indeléveis. Reconheceu-me. Apagou à pressa o cigarro e tentou pôr-se em pontas, mas os sapatos estavam rotos. O cheiro a bebida fazia-me antever que mesmo o estereotipado "quatro" lhe seria difícil.
Encostada ao balcão, tirou outro cigarro e ainda me pediu que lhe desse lume. Não lhe dei corda. Mas beijei-a na testa.
Abri a porta ao sair. Como saíra tantas vezes do seu palco radioso. Fechei de vez o pequeno fecho da tampa. Limpei uma lágrima que me saltou para a noite, pelo frio...
Compreendi que nunca poderia fechar a bailarina na minha mão. Nesse dia deixei de procurá-la, e percebi que o que precisava afinal era de uma mulher.
Foi a última vez que abri uma caixinha de música.
© CybeRider - 2009
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Prosa
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Esquerda... Direita... Um... Dois...
Andam a par. Como o sim e o não.
O não que nos afasta do que não queremos. O sim, que nos atrai para tudo o que julgamos merecer.
A esquerda lava a direita e sem a direita a esquerda não se poderia lavar. Repara como se juntam, imagens opostas uma da outra. No entanto são quase simétricas, completando-se neste espaço que é só um. Fazemos nós a destrinça.
Quantas vezes seguramos na direita o que sem a esquerda cairia ao chão. Quantas vezes apanhamos do chão com a esquerda o que a direita recupera, para lhe continuar a dar uso. E todos os possíveis vice-versas.
Nunca abdicaríamos de uma em favor da outra. Não olhamos para a esquerda negando-lhe o valor, nem para a direita como omnipotente. Nem uma está errada nem outra, somos nós quem erra, não elas.
Há quem as junte numa prece, quem as estenda à vez, num pedido de socorro. Nelas confiamos a nossa sobrevivência. Voltamo-las para brincar, dividimo-las em cada dedo que também não negamos. Para nós são sempre um sim. Sempre juntas e carentes.
Com uma e outra afagamos o destino, e distribuímos amor. Comunicamos. Com elas conseguiríamos destruir o Mundo... Sem elas nunca conseguiremos realizar os nossos sonhos mais queridos, nem distribuir o bem-estar, nem concretizar os planos audazes que nos trespassem a ideia.
- Bate palmas!
Uma não faz barulho sem a outra. Sozinhas são inaudíveis, mudas, imperceptíveis. Só ambas fazem sentido.
Apesar disso não se misturam. A da esquerda será sempre "a da esquerda" e a da direita, será sempre "a da direita" também.
Venham falar-me de democracia, como um ideal clubista. Venham falar-me em partidos, e em multidões que se odeiam. Nunca acreditarei que se faça algo de útil sem as duas mãos que se unem. Nunca acreditarei que consiga fazer-me ouvir a aplaudir a uma mão.
Com uma apenas, posso dar um soco, posso disparar uma arma, ou arremessar uma pedra. Preciso das duas para te levantar do chão, preciso das duas para fabricar o pão, para me segurar à árvore de onde colho o fruto, para te salvar de morreres afogado.
Preciso das duas para retirar a mais bela melodia do piano.
Quando me escolhem só uma, deixam-mas atadas. Não estaria completo, porque sempre precisei das duas.
Preciso delas para me lavar a cara. Para me cobrir a vergonha, uma à frente e outra atrás, sem distinção. Com uma apenas consigo esborratar o quadro mais belo e destruir a maqueta que estavas a construir.
As minhas botas continuam a marcar passo: Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois...
E não chego a lado nenhum.
© CybeRider - 2009
O não que nos afasta do que não queremos. O sim, que nos atrai para tudo o que julgamos merecer.
A esquerda lava a direita e sem a direita a esquerda não se poderia lavar. Repara como se juntam, imagens opostas uma da outra. No entanto são quase simétricas, completando-se neste espaço que é só um. Fazemos nós a destrinça.
Quantas vezes seguramos na direita o que sem a esquerda cairia ao chão. Quantas vezes apanhamos do chão com a esquerda o que a direita recupera, para lhe continuar a dar uso. E todos os possíveis vice-versas.
Nunca abdicaríamos de uma em favor da outra. Não olhamos para a esquerda negando-lhe o valor, nem para a direita como omnipotente. Nem uma está errada nem outra, somos nós quem erra, não elas.
Há quem as junte numa prece, quem as estenda à vez, num pedido de socorro. Nelas confiamos a nossa sobrevivência. Voltamo-las para brincar, dividimo-las em cada dedo que também não negamos. Para nós são sempre um sim. Sempre juntas e carentes.
Com uma e outra afagamos o destino, e distribuímos amor. Comunicamos. Com elas conseguiríamos destruir o Mundo... Sem elas nunca conseguiremos realizar os nossos sonhos mais queridos, nem distribuir o bem-estar, nem concretizar os planos audazes que nos trespassem a ideia.
- Bate palmas!
Uma não faz barulho sem a outra. Sozinhas são inaudíveis, mudas, imperceptíveis. Só ambas fazem sentido.
Apesar disso não se misturam. A da esquerda será sempre "a da esquerda" e a da direita, será sempre "a da direita" também.
Venham falar-me de democracia, como um ideal clubista. Venham falar-me em partidos, e em multidões que se odeiam. Nunca acreditarei que se faça algo de útil sem as duas mãos que se unem. Nunca acreditarei que consiga fazer-me ouvir a aplaudir a uma mão.
Com uma apenas, posso dar um soco, posso disparar uma arma, ou arremessar uma pedra. Preciso das duas para te levantar do chão, preciso das duas para fabricar o pão, para me segurar à árvore de onde colho o fruto, para te salvar de morreres afogado.
Preciso das duas para retirar a mais bela melodia do piano.
Quando me escolhem só uma, deixam-mas atadas. Não estaria completo, porque sempre precisei das duas.
Preciso delas para me lavar a cara. Para me cobrir a vergonha, uma à frente e outra atrás, sem distinção. Com uma apenas consigo esborratar o quadro mais belo e destruir a maqueta que estavas a construir.
As minhas botas continuam a marcar passo: Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois... Esquerda... Direita... Um... Dois...
E não chego a lado nenhum.
© CybeRider - 2009
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Prosa
domingo, 9 de agosto de 2009
Manta Beach - Consumo deturpado
O Algarve reserva a magia de atrair vários milhares de pessoas às regiões do seu litoral por esta altura do ano. Para além das praias fabulosas que proporcionam o almejado descanso e divertimento aos que possam usufruir de umas férias merecidas por terras de Portugal, tem também uma vida nocturna cheia de animação, sons e cores.
Novos espaços renascem a cada ano para uma época alta que se espera sustente a aridez económica e social do Inverno. Esta sazonalidade, tão ansiada pelos profissionais do sector turístico e pela restauração, prevista milimetricamente, por quem sabe estar ali a dependência do sustento de famílias e localidades, pode ser desvirtuada por investimentos absolutamente surpreendentes.
Tive ocasião de ser convidado a um desses sugadouros da economia local. O "Manta Beach", na Manta Rota, localidade da freguesia de Vila Nova de Cacela, do Concelho de Vila Real de Santo António. O facto de ser convidado, e consequentemente agradecido, não me pode tornar num sequaz cego à realidade de que um local de culto como aquele, implantado por uma fabulosa máquina de marketing, poderá efectivamente ter um impacte significativo nas expectativas dos prestadores de serviços similares da região, que recordo se enquadra entre Tavira e Monte Gordo; principalmente num ano de crise que já ninguém nega, em que as coisas já seriam difíceis por si. A controvérsia lança-se porém ao apreciarmos o facto pelo lado da ocupação hoteleira, em que este tipo de estabelecimento, com inegável pendor mediático, terá por outro lado um impacte positivo, a avaliar.
Confesso que não me alarguei para além das fronteiras do Vip Lounge e do espaço exterior. Estava lá para me divertir, com amigos, e o teor deste blogue não me permite análise jornalística, daí que não vos possa descrever a roupa da Maya, simpática e omnipresente, nem nomear algumas das outras caras famosas que por lá circularam nesta noite de festa. Para isso existirão os tablóides do costume.
A única extravagância acabou por ser o "Consumo Mínimo" referido no cartão. Nem que seja exagerado. 15 euros, parece-me bastante acessível a qualquer bolsa de veraneio. No meu cartão constava a oferta de uma bebida. Imaginei que teria direito a essa bebida e que poderia escolher bebidas até ao valor de 15 euros antes de ter que pagar mais que esta quantia pelos meus eventuais excessos.
Não é assim.
Na caixa fui presenteado com uma conta que ultrapassava em muito o dobro daquele valor. Ora eu tinha consumido três bebidas que totalizariam 27 euros. Sendo uma de oferta, seria legítimo que eu liquidasse os 15 euros, e o eventual excedente até perfazer aquele montante. Foi-me explicado porém que os 15 euros incluem de facto uma bebida "grátis", mas que todas as outras são pagas à parte. Paguei sem atrito, à laia dos meus bons costumes.
Consultado o meu séquito, verifiquei que a todos tinha acontecido o mesmo facto estranho. Não se tratou, por isso, de um mero engano de um funcionário.
Ora bem, não é pelo valor que me continua a parecer irrisório, mas é pelo conceito moderno e vanguardista de "consumo mínimo"...
Um estabelecimento daquela magnitude não deveria ter de recorrer a estes subterfúgios.
Digo eu...
© CybeRider - 2009
Novos espaços renascem a cada ano para uma época alta que se espera sustente a aridez económica e social do Inverno. Esta sazonalidade, tão ansiada pelos profissionais do sector turístico e pela restauração, prevista milimetricamente, por quem sabe estar ali a dependência do sustento de famílias e localidades, pode ser desvirtuada por investimentos absolutamente surpreendentes.
Tive ocasião de ser convidado a um desses sugadouros da economia local. O "Manta Beach", na Manta Rota, localidade da freguesia de Vila Nova de Cacela, do Concelho de Vila Real de Santo António. O facto de ser convidado, e consequentemente agradecido, não me pode tornar num sequaz cego à realidade de que um local de culto como aquele, implantado por uma fabulosa máquina de marketing, poderá efectivamente ter um impacte significativo nas expectativas dos prestadores de serviços similares da região, que recordo se enquadra entre Tavira e Monte Gordo; principalmente num ano de crise que já ninguém nega, em que as coisas já seriam difíceis por si. A controvérsia lança-se porém ao apreciarmos o facto pelo lado da ocupação hoteleira, em que este tipo de estabelecimento, com inegável pendor mediático, terá por outro lado um impacte positivo, a avaliar.
À entrada colocaram-me um bracelete amarelo de distinção de classe que não sinto, e presentearam-me com um cartão de consumo e umas lembranças patrocinadas. O ambiente, de casa cheia, estava muito bem frequentado, a noite amena, a música ao agrado mesmo de alguém da minha faixa etária.
Confesso que não me alarguei para além das fronteiras do Vip Lounge e do espaço exterior. Estava lá para me divertir, com amigos, e o teor deste blogue não me permite análise jornalística, daí que não vos possa descrever a roupa da Maya, simpática e omnipresente, nem nomear algumas das outras caras famosas que por lá circularam nesta noite de festa. Para isso existirão os tablóides do costume.
A única extravagância acabou por ser o "Consumo Mínimo" referido no cartão. Nem que seja exagerado. 15 euros, parece-me bastante acessível a qualquer bolsa de veraneio. No meu cartão constava a oferta de uma bebida. Imaginei que teria direito a essa bebida e que poderia escolher bebidas até ao valor de 15 euros antes de ter que pagar mais que esta quantia pelos meus eventuais excessos.
Não é assim.
Na caixa fui presenteado com uma conta que ultrapassava em muito o dobro daquele valor. Ora eu tinha consumido três bebidas que totalizariam 27 euros. Sendo uma de oferta, seria legítimo que eu liquidasse os 15 euros, e o eventual excedente até perfazer aquele montante. Foi-me explicado porém que os 15 euros incluem de facto uma bebida "grátis", mas que todas as outras são pagas à parte. Paguei sem atrito, à laia dos meus bons costumes.
Consultado o meu séquito, verifiquei que a todos tinha acontecido o mesmo facto estranho. Não se tratou, por isso, de um mero engano de um funcionário.
Ora bem, não é pelo valor que me continua a parecer irrisório, mas é pelo conceito moderno e vanguardista de "consumo mínimo"...
Um estabelecimento daquela magnitude não deveria ter de recorrer a estes subterfúgios.
Digo eu...
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