terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O Futuro Adeus Passado

Xk45670 segurava na mão imóvel um pequeno papel ressequido.

O olhar emitia um brilho avermelhado.

O cérebro, a uma velocidade vertiginosa, processava milénios de informação trocada, repartida, reunificada, destilada, organizada num conglomerado de nanométricos favos de colmeia.

Olhei melhor. O pequeno papel era afinal uma fotografia... A minha fotografia.

Xk45670 dirigiu-se à janela. O olhar azul captou a linha do horizonte. Lá em baixo o deserto metálico estendia-se a perder de vista.

Ele sabia que HZ54638 estava apenas a segundos de distância. Viu-a chegar, tocar com os pés no solo metálico estranhamente natural, o revestimento cromado do seu corpo mudar de cor, libertando uma pequena nuvem de poeira cósmica.

O jacto de nitrogénio líquido repôs os valores térmicos normais que restabeleceram as funções cerebrais aos habituais 100%.

A escuridão eterna circundava o vasto mundo gelado, seco, esterilizado, que reflectia apenas alguma radiação do espaço.

Ela entrou no quarto sem luz. Ele dirigiu-se a ela sem palavras. Há muitos séculos que todos comunicavam de outra forma. Agora a vida eterna era uma questão de peças em stock, o tempo e a história não faziam sentido.

A conquista de novos planetas hospedeiros era finalmente uma realidade que a nossa frágil biologia nunca tinha permitido enquanto infectáramos a Terra na nossa forma carnal.

Cada um era agora detentor de todo o saber humano acumulado. A maioria das ciências que conhecêramos era-lhes porém inútil. As artes, manifestações sem sentido. As causas defendidas e guerras travadas, totalmente indecifráveis de causalidade. Não havia governantes nem governados porque todos tinham exactamente os mesmos conhecimentos e consequentes poderes.

Uma pequena caixa pairava como que por magia. A seu lado uma pequena esfera de terra estava também assente no espaço.

À pequena luminosidade que emanava da janela vi-o colocar a minha fotografia na pequena caixa e recobri-la com a terra, que facilmente se moldou à clausura, como quem guarda uma relíquia antiga de um ente querido. Numa das paredes, completamente vazias, abriu-se uma tampa e a pequena caixa transparente deslizou para o encaixe perfeito no espaço agora criado.

Sem sentimentos, a pequena lágrima que lhe rolou pela face era inexplicável. Teria de mudar o retentor que vertera a gotícula.


Acordei com um estrondo.

Ainda não compreendo como é que a torradeira foi atravessar o monitor do computador.



© CybeRider - 2009

3 comentários:

Ofilho disse...

Andas a ver wall-e a mais. Está-me cá a parecer...

Anónimo disse...

necessario verificar:)

CybeRider disse...

Voltarei, Anónimo. Nem que seja só para isso.

:)