quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Nunca vás com estranhos!

A auxiliar do cabeleireiro foi buscar-me à escola primária.

Não a conhecia. Não peguei na mão que me estendeu.
Fui o último a sair da escola.

Já lá vão quarenta e tal anos. Nunca me esqueci.


Aos meus sete ou oito anos, uma figura feminina pretendeu desta forma violar um dos cânones que enformam o meu início de ser humano. Quem a mandou não se lembrou dos meus ensinamentos; ela não previu aquela consequência; eu limitei-me a cumprir ordens (onde é que já ouvi isto?...).

Foi a minha primeira lição de como o "mero cumprimento de uma ordem" nos pode trazer consequências nefastas.

Ostracizado no recinto de recreio cheguei a temer o pior. Que tivesse sido a derradeira chance de sair dali, que a minha interpretação do comando pudesse ter estado errada, enfim, de tudo me passou pela cabeça.

Senti que a minha decisão me tinha deixado cimentado àquele terreno para o resto da minha tenra vida. -Mas não arredei pé! Afirmo, a justificar o meu impasse.

As lições de isolamento são talvez as que mais perdurem. Talvez por isso a prisão seja a medida justa para os piores (de)feitos. Ou quiçá o legislador tenha sido também o último a sair da escola há muitos anos.

Raramente aquela (então) jovem terá feito tamanho esforço para ter uma companhia e, ainda assim, sido tão rotundamente rejeitada. (Espero eu, sinceramente.) A aparente tentativa de sequestro fora afinal o desejo imenso de cumprir uma missão.

Não consigo imaginar como isto terá afectado as nossas vidas.

Para mim: os louros carcomidos de uma vitória sobre um pretenso inimigo, que mais não era que uma vítima inocente do campo de batalha.

Para ela: uma derrota retumbante perante um adversário que, por definição; armamento; capacidade estratégica; entre outras razões óbvias, não estava à altura.

Estes embaraços em campanha geram decerto inúmeras vitórias e heróis que o não são pelos apanágios do beligerante, senão por meros circunstancialismos e formas de olhar para o território agreste à sua volta.

Ainda hoje justifico alguns "impasses". Muito poucas vezes me limito a cumprir ordens; procuro e prefiro encontrar formas consensuais de atingir objectivos.

Continuo a seguir o proverbial conselho de não ir com estranhos. Tento conhecê-los antes de ter de os acompanhar.

Em relação à senhora... Não iria com ela à mesma. Mas tinha-lhe pago um cafezito.

© CybeRider - 2009

2 comentários:

Ogre disse...

Chamam a isso blind date. Às vezes até resulta.
Menos com Ogres.

CybeRider disse...

Isso é que tinha sido um título!